A velhice é uma conquista do tempo - por Sueli Santos

A velhice é uma conquista do tempo - por Sueli Santos

Venho me dedicando ao estudo da velhice já faz algum tempo. Como sabemos, a velhice não é uma etapa da vida que se apresente sempre da mesma forma ou represente uma realidade definida. Apesar de a velhice ser um fenômeno biológico, o organismo do velho condiciona-se a uma singularidade, diferentemente do que ocorre com outras espécies, na medida em que acarreta consequências psicológicas.

É importante que usemos o termo velhice, evitando tratar esse período da vida com uma adjetivação que muitas vezes se apresentam como forma de negação dessa realidade. Chamar a velhice de melhor idade, terceira idade, adulto maior, apenas reforça a dificuldade e o preconceito social sobre uma etapa da vida comprovada sobre a existência, e mais, revela que a vida foi vivida.

Afinal, qual é a melhor idade? Ser um bebê e ter que ser levado para creches por que os pais precisam trabalhar e não podem acompanhar seus primeiros e pequenos gestos de desenvolvimento? Ser criança e ficar longos tempos em frente a uma tela de televisão ou em joguinhos de computador porque não é mais seguro ficar brincando e descobrindo aventuras no pátio de casa ou na rua, porque afinal a vida urbana se tornou muito perigosa? Ser adolescente e se haver com um apelo de escolha profissional, quando não há mais certeza de trabalho? Fazer uma escolha sexual, quando se tem tantas dúvidas de como ser? Então na velhice a melhor idade seria em relação a quê?

Afinal, o que é a terceira idade? Em alguns estudos antropológicos, trabalham com o conceito de longevidade, ou seja, pessoas que passaram de cem(100) anos. Encontramos um número expressivo de pessoas no Brasil, com mais de cem anos que são cuidados por seus filhos de oitenta anos, que por sua vez são cuidados por seus filhos de sessenta anos que são acompanhados por seus filhos de quarenta. Se a expectativa de vida aumentou, como designar ou definir a terceira idade?

Afinal, o que é adulto maior? Certa vez em uma conferência com outros profissionais, um gerontologista conhecido apontou, como uma grande novidade, que na Espanha se tratava o velho como adulto maior. O problema é que se não conhecemos bem um idioma, às vezes, incorremos em algum erro de compreensão, haja vista que em espanhol, adulto mayor ou maduro é uma forma que se nomear pessoas de idade avançada ou velho, não é um eufemismo ou um sinônimo de velho.

Mas não para por aí, atualmente se propõem termos como envelhecente, a exemplo do que dizemos de adolescente. Também ouvimos termos como senhorinha ou senhorzinho a pretexto de tratar com carinho os vovôs e as vovós. Ser vovô e vovó não revela que essas pessoas procriaram, e em seus filhos se reeditam enquanto avós, não está aí marcada sua continuidade enquanto sexuados? Será que os velhos perderam, na velhice, a sua identidade e subjetivação enquanto seres sexuados? Deixaram de ser homens e mulheres?



Quanto mais se inventa, só pioram os argumentos. Derivações adjetivas, podem mascarar, tentar encobrir o preconceito ou não aceitação da passagem do tempo. Para além disso, negar que isso ocorrerá a todos nós, inexoravelmente. A única forma de não envelhecer é morrer precocemente, o que suponho, também não nos agrade essa idéia.

Negar a velhice como se assim evitássemos a morte, é um equívoco. Todos morreremos porque estamos vivos, não porque nos tornamos velhos, embora se suponha que isso vá acontecer em algum momento na velhice, pois afinal, a vida vivida vai desgastando, produzindo seus efeitos no corpo físico. Quanto a isso nada se pode fazer.

Podemos tentar retardar o processo de deterioração do corpo com cuidados físicos, alimentares, com o cultivo das condições intelectuais, mas isso não para o tempo. É importante que seja assim, que o que vivemos nos ensine a questionar, melhorar nossa compreensão do sentido da vida, de nossas relações, de como construir e balizar nossos projetos, sonhos.

Quanto aos sonhos, esses não envelhecem, temos sempre algum projeto em construção, um objetivo mais adiante a atingir, eis aí a mola propulsora da vida viva, independente da idade que tenhamos.

Esse texto se baseia em temas que venho desenvolvendo há algum tempo. Deixo aqui, como sugestão de leitura, alguns títulos com outros colegas pesquisadores com os quais tenho interlocução de estudos sobre o envelhecimento.

FREITAS; PY; CANÇADO;DOLL.;GORZONI. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabaran Koogan, 2006.
SANTOS, S. Sexualidade e amor na velhice: Uma Abordagem de Análise de Discurso. Porto Alegre: Editora Sulina,2003.
SANTOS,S. Sexualidad y amor em La vejez: Un Abordaje de Analisis de Discurso. Buenos Aires: Editorial  Proa XXI, 2005.
SANTOS,S.;CARLOS,S.(Org).Envelhecendo com apetite pela vida:Interlocuções psicossociais. Rio de Janeiro:Editora Vozes, 2013.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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