As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam - por Sueli Santos

As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam - por Sueli Santos

Como diz o poeta Tunai: “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam, por que o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões”. Para quem não conhece, esse poema foi musicado por Sergio Natureza, gravado e eternizado magistralmente por Elis Regina.

O que nos faz pensar no amor e no ódio como irmanados está relacionado a uma questão muito particular, as intensidades de energia que geram estes dois afetos. Freud, criador da psicanálise, afirmava que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. Então, quando o ódio está em atividade, algo do amor ainda não se dissolveu.

É comum ouvirmos relatos de pessoas apaixonadas dizerem: encontrei a pessoa perfeita, temos tudo em comum, pensamos da mesma forma, gostamos das mesmas coisas, parece que nos conhecemos há muito tempo. Tivemos um encontro incrível, conversamos mais de três horas e não vimos passar o tempo. E concluem, ele(a) tem uma cabeça ótima.

Mais incrível ainda, quando esses relatos falam de uma relação virtual, quando as pessoas nunca estiveram presencialmente, juntas. O que se dá aí, que mesmo sem falar pessoalmente, ou mesmo, em um encontro pela primeira vez com alguém em uma situação casual, supomos o encontro com a alma gêmea?

Encontrar alguém igual, quem sabe, seja encontrar a imagem do espelho. Mesmo quando se diz: gostei de tal pessoa por que era bem diferente de tudo que eu encontrava por aí. Mas como saber que uma pessoa é diferente do que se encontrava por aí, se não sabemos quem é, como é essa pessoa? Talvez se possa pensar que a procura de alguém igual a mim ou diferente de mim, tenha a mesma origem. Ou seja, sou eu que estou criando um ideal de completude, de unidade que não poderá ser sustentado pelo outro, posto que o quê encontro é uma fantasia que deposito no outro, a ilusão imaginária do encontro com esse ideal.

Então, quando busco alguém igual a mim, o que vejo pode ser o que eu criei e não o que realmente o outro é. Às vezes, confirmando essa idéia do engano, ouvimos da pessoa que se diz apaixonada, observações do tipo: ‘claro que ele(a) não é perfeito(a), mas com o tempo eu consigo mudar o jeito dele(a)’. Então ... se é preciso mudar alguém para que se pareça com meu ideal, de quem ou do quê realmente estamos falando, a não ser de uma fantasia de transformar a realidade do outro para que se aproxime do que eu quero, e não desta pessoa como ele é.

Mesmo assim, esse engano de um encontro ideal é inevitável na paixão. É preciso encontrar uma fantasia no que vemos para que tenhamos coragem de arriscar, colocar fora de nós essa possibilidade de que, fora de mim, algo se materialize para o encontro imaginário do objeto amoroso. Essa fogueira que queima com intensidade aquece os corações. Afinal, esse órgão, o coração, cantado em verso e prosa desde o inicio dos tempos, sempre foi nomeado para colocar aí nossos sentimentos. Talvez porque ele altere seu ritmo e nos diga que algo pulsa, nos implica, nos desestabiliza, nos excita, nos altera emocionalmente e fisicamente toda vez que nosso inconsciente identifica, no que vemos, algo que nos faz pulsar no desejo de completude.



Seguindo nosso poeta, em uma segunda estrofe, ele diz: “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam, por que o amor e o ódio se irmanam na geleira da paixões”.

A fantasia de que, com o tempo, se pode dar um jeitinho para que o outro venha a ser como queremos, muitas vezes se torna ligeira insatisfação, depois impaciência, queixa, acusação de desinvestimento nas coisas e interesses comuns. Quando essas pressões já não produzem qualquer reação por parte daquele que se mostra desconfortável, por que a relação não anda conforme a fantasia, pode resultar em uma nova estratégia, com o intuito de criar, também imaginariamente, um novo projeto comum.

Se buscam recursos para além da dupla. Ou seja, o foco da queixa muda para o planejamento, quem sabe, de aumento de família para quem já o fez; ou de ter filhos para aqueles que não têm, ou reformar da casa, mudança de cidade, ou trabalho. E assim, o que está tão próximo como a discussão sobre a relação e suas dificuldades, do que não liga mais esse enlace, do que perdeu o ímpeto, é projetado em novas fantasias para fora do investimento da relação amorosa, mas deriva para a burocratização da convivência. Ao invés de busca de solução, temos a dissolução e o desencontro.

Pode emergir dessa estratégia uma nova frustração, marcado aparentemente pela raiva ou o ódio. Ou seja, o ódio endereçado a alguém, quando uma relação amorosa se rompe, evidencia que esse desfecho, esse término, deixou um resto, algo por dizer ou fazer, que não foi possível resgatar. Algo se perdeu sem que soubéssemos como isso aconteceu. Nos perdemos.

Muitas vezes o ódio endereçado ao outro que nos trocou por outro sonho, ou simplesmente não deseja mais seguir nesta ligação, deixa naquele que se sente preterido, uma sensação de que a pessoa abandonada falhou, fracassou, foi insuficiente para corresponder ao que o outro esperava.

Algo se rompe, gela, ‘vai esfriando por dentro o ser’, a paixão tórrida se transforma, dissolve o que antes unia. O sofrimento causado pela quebra da magia do encontro, da fantasia de amor perfeito parece ter sido traído, enganado, falseado, a confiança quebrada. Mas o quê ou quem falhou? Ninguém falhou ou os dois falharam?

Porque não foi possível seguir com o ideal de perfeição, não quer dizer que o amor não foi verdadeiro, que o vivido foi mentira ou falsidade. Porque ambos embarcaram em uma viagem comum, em um sonho comum, talvez não tenha sido o bastante para que seguissem no mesmo destino, no mesmo projeto, não determina que alguém seja culpado. Ninguém falhou.

Ao longo do tempo, é esperado que as pessoas mudem, reconfigurem seus interesses, seus desejos, seus prazeres. É bom que seja assim. Não é possível que alguém com vinte anos continue igual aos trinta ou aos cinqüenta. A passagem do tempo, tanto externo como internamente, vai amadurecendo as pessoas, fazendo com que o quê em um tempo era prazeroso mude seu foco de interesse. Por si só, a mudança, o amadurecimento, não produz separação ou perda da capacidade de amar ou se apaixonar.

Se há uma mudança por parte das duas pessoas em uma relação amorosa, a relação segue amadurecendo, terna, e mesmo tórrida, mas agora construída a dois, nos processos mútuos de revisão, reconquista, encantamento de um com o outro, com a mudança de um e outro. Isso é possível pelo respeito à alteridade. Ambos não se tornaram um só, mas cada um fez sua viagem e compartilharam suas experiências, enriqueceram um ao outro.

Quando entendemos que colocamos no outro a responsabilidade de um esfriamento na relação de amor, quem sabe possamos pensar que, se nós notamos isso, talvez em nós se denuncie que não estamos mais satisfeitos porque em nós algo a mais nos fez ou deixou de fazer sentido nesse enlace. Portanto,  a falta de correspondência da união perfeita passa pelos dois envolvidos, e que por algum motivo, e mesmo quem sabe, por acomodação, se deixou que tudo seguisse o fluxo do cotidiano que foi regelando o amor.

Uma relação amorosa ou de paixão, envolve reciprocidade. Quando isso acontece, quando o amor não está mais lá onde o colocamos, talvez tenhamos que pensar se queremos tentar reaquecer ou reencontrar algo que se perdeu. Mas também podemos pensar que esse ciclo se fechou e que podemos resguardar tudo que foi vivido e prazeroso como parte da nossa história de um momento determinado da vida. Não há porque tentar destruir essa história ou as pessoas em que depositamos tanto amor e dedicação. Quando isso é possível, estamos livres para ressignificar nossas possibilidades de amar novamente e agora em outro momento, com uma experiência acumulada sobre o que se pode esperar, mas principalmente com o que se aprendeu a não esperar. Ou seja, a realidade é mais segura que a fantasia e a vida é maior que o sonho. Amar é sempre uma possibilidade à nossa mão.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul 

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