Como aprendemos ouvindo as crianças - por Sueli Santos

Como aprendemos ouvindo as crianças - por Sueli Santos

Semana passada, circulando por um grande Supermercado de São Francisco, presenciei um conversa muito interessante entre duas meninas. Este Supermercado tem uma variedade de itens e marcas que realmente não deve nada às grandes cidades. Como havia um oferta de muitos vinhos e espumantes, me dirigia a este setor, pois aí se encontram bebidas nacionais e dos países vizinhos com considerável variedade e qualidade. Eu queria comparar esses preços com os de Porto Alegre. Além do que é uma bebida que considero saudável se tomada com moderação.

Embora distraída, olhando o que se oferecia, ouvi duas meninas de aproximadamente 11 e 8 anos, comentando sobre o que viam e liam nas cartelas de preços e sobre os diferentes rótulos dos diversos países. Fiquei curiosa. Elas falavam muito animadas, pareciam mesmo excitadas como as crianças que entram em lojas de brinquedos. Estavam ali sozinhas, e comentavam sobre o que viam e da proibição de beber vinho. Em princípio, pensei que seus comentários tinham a intenção de mostrar uma à outra o quanto sabiam ler e identificar tantas variedades de uvas, e também para me impressionar, pois perceberam que eu prestava atenção em sua conversa.

Uma, a mais velha, dizia: vinho é ruim. Não é bom beber vinho.
A outra: é, é ruim, né? Eu nunca vou beber vinho. Tenho nojo de vinho. Vinho faz muito mal.
Uma: é muito ruim as pessoas sabem que faz mal.
A outra: mas agente não pode beber por que é proibido, a nossa religião não permite.
Uma: é a nossa religião não permite, mas tem gente que gosta. Olha só quantas garrafas!
A outra: é tem gente que gosta, mas vinho é só para rico porque é caro. Só os ricos podem tomar.
Uma: é mesmo, é bebida de rico.

Olharam em volta e só estávamos eu e elas ali. Se afastaram um momento. Procuraram as mães e voltaram para o mesmo lugar e tema. Talvez com esse diálogo possamos entender, o quanto, apesar de proibido, aquele lugar era interessante. Era proibido gostar de vinho, tomar vinho, as famílias não permitiam, a religião proibia, mas elas olhavam tudo com muito interesse. Quem sabe possamos pensar que esse lugar era tão interessante por ser um lugar de transgressão, aquilo não era permitido, e por isso estivessem tão animadas. Mas também falavam do proibido e de uma divisão de classes, afinal, só os ricos podem beber vinho, outra interdição. Por que algumas coisas são para os pobres e outras para os ricos?

Fiquei pensando, porque os refrigerantes, que são uma bomba de sódio e açúcar, que produz um risco à saúde, que pode desenvolver diabetes, obesidade, celulite, alterar a pressão artéria, não é proibido. Além disso, é vendido em embalagem de dois litros e meio. Não há nenhuma restrição em vender para crianças. Está nas casas de pobres e ricos, sem que se faça qualquer questionamento. Não há religião que proíba o refrigerante, apesar de seus malefícios para a saúde e produza uma verdadeira epidemia de sobrepeso. Mas as meninas não questionavam essa bebida, tampouco estavam interessadas nas gôndolas onde estão expostas.

A conversa avança. A mais velha pergunta à mais nova: tu vai querer um dia experimentar o vinho? A outra: não podemos, a gente é criança. Uma: sim, mas quando tu for adolescente, quando tu trabalhar, tu vai querer experimentar? A outra: quando eu crescer e tiver meu dinheiro, acho eu vou querer, só pra ver como é o gosto. Eu também, disse a mais velha. Mas agora a gente não pode. A mais velha, é agora não pode.

A essa altura as mães já chamavam, elas me deram uma olhadinha marota e se foram. Fiquei pensando, que maravilha de diálogo. As crianças formulavam suas hipóteses sobre o que ouviam, sobre o proibido, sobre o permitido, e parece também que encontraram uma forma de resolver a questão sobre as proibições. Um dia crescerão, serão mais independentes pois trabalharão. Terão seu dinheiro e aí poderão decidir se o proibido é realmente o que faz mal.

As proibições de fora para dentro, as verdades absolutas: isso é do mal, isso não pode, isso não se deve, isso é bonito, isso é certo, entram na formação da subjetivação das crianças com a força de um código que vem da cultura da família, de sua história, de suas crenças, de sua classe social, e tudo vai sendo formador de classificações que podem impedir de questionar se esses valores ensinados são absolutos ou se são formas de ver o mundo, de se colocar no mundo.

De certa forma, essas meninas tinham questões, hipóteses e sabiam que a proibição estava ligada ao que aprendiam nos valores de suas famílias e religião, mas que outras pessoas pensavam diferente. Viviam de forma diferente e quem sabe, quando tivessem autonomia, crescessem poderiam fazer sua experiência sobre o que para elas, todos esses princípios significavam.

Escutar crianças é bem importante, elas são inquietas e embora respeitem o que aprendem com a família, na escola, na igreja, na conversa com os amigos, podem ter um eu distinto, podem pensar diferente. É importante respeitar as interrogações, as dúvidas das crianças. As dúvidas têm a função de produzir novos sentidos sobre o quê se possa vir a ser ou fazer.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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