O Mal-estar na Cultura: reverberações do estado de exceção em que vivemos - por Sueli Santos

O Mal-estar na Cultura: reverberações do estado de exceção em que vivemos - por Sueli Santos

O ensaio de Freud (1930) intitulado O mal-estar na cultura, nos ensina sobre o estatuto da agressividade e da pulsão de morte. Aponta para dois momentos de alto grau de mal-estar. Talvez, para quem não está iniciado nos estudos da psicanálise, seja interessante esclarecer o que se entende pelo conceito de pulsão de morte. Esse conceito nos remete ao que está além da ordem.

Para Freud, criador da Psicanálise, o aparelho psíquico, abarca uma região onde situamos o inconsciente e o pré-consciente/consciente; uma outra instância, para além do princípio do prazer, situaríamos as pulsões. Na primeira região se ocuparia das representações do mundo, esse seria o lugar da ordem, aí se ordenam o pré-consciente/consciente e a ordem inconsciente que confere sentido ao princípio de prazer e o princípio de realidade.

As pulsões, por sua vez, seriam inscrições de duas ordens, ou seja, a pulsão de vida liga as ordenações das instâncias psíquicas já mencionadas e a pulsão de morte entendida como pulsão de destruição, cujas origens podemos remontar ao conceito de narcisismo. Estas são rápidas informações para situar o leitor pois não caberia aqui, neste curto texto, desenvolver a teoria das formações do inconsciente e das pulsões. Mas fica como uma sugestão a quem se interessar por entender um pouco sobre a importância de estudarmos a psicanálise para entendimento sobre o funcionamento da mente humana.

Neste texto paradigmático, podemos entender os tempos escuros em que vivemos, como uma subversão dos valores, da verdade, onde a delação é premiada. Os transgressores são protegidos e negociam sua liberdade em troca de áudios, vídeos e inconfidências de caráter duvidoso e, porque não dizer, de caráter perverso e pornográfico. Podemos entender, a partir do estudo dos textos de Freud, qual é a dinâmica do mal-estar que se instala, como dispositivo legal de destruição dos valores sociais.

Neste texto, O Mal-estar na cultura (1930), Freud aponta que a agressão e destruição colocam o próximo, o outro, como um possível objeto sexual, onde se evidencia uma tentação de se satisfazer. No outro, suposto semelhante, a realização da agressão se expressa pela exploração de sua força de trabalho sem recompensá-lo, usá-lo sexualmente sem seu consentimento, despojá-lo e assassiná-lo. Enquanto pulsão de morte, a sexualidade não se trata mais de uma sexualidade que, regida pelo princípio do prazer, lança mão da agressividade para atingir seu objetivo.

O que se observa, no momento atual em que vivemos é o primado de uma sociedade sem ordem, sem progresso e principalmente sem independência. O que resta, o que triunfa é a morte, enquanto pulsão mortífera, disjuntiva, que vampiriza em todos os sentidos os valores, as aspirações de um povo, pulverizando todos os esforços empreendidos por aqueles que se empenharam em uma luta digna contra as forças da ditadura e pela reconstrução da democracia em nosso país.

É importante entender que quando se estuda a psicanálise, podemos compreender as tramas do psiquismo humano em sua força na construção da subjetividade e também em suas linhas de força sobre a construção do laço social. O humano é um ser social. Pelo menos é o que acreditamos que deveria ser. Mas enquanto humano, é constituído por essas duas dimensões de Eros e Thanatos.

O que estamos vivendo e vendo divulgado à exaustão, no entanto, fere a nossa dignidade enquanto humanos e povo brasileiro. São imagens midiáticas, divulgadas para o mundo inteiro de um país onde graça o desmando, o escárnio dos poderosos em seu jogo sem limite pelo poder. São apreensões de malas e caixas de dinheiro em apartamentos de luxo, armazenados como na caixa forte do Tio Patinhas, personagem emblemático do capitalismo selvagem. Enquanto isso, milhares de pessoas sobrevivem com um mísero salário de fome, quando a maior parte da população não tem escola, saúde, saneamento.

Também podemos identificar os irmãos metralhas ‘Batista’, se vangloriando de destruir os poderes da república e por fim, como golpe de misericórdia fazer terra arrasada do judiciário e o ministério público. Os famosos e trapalhões irmãos fazem questão, como estratégia típica dos perversos, em gravar e divulgar suas tramas e trampas, para escandalizar e ameaçar o público, as instituições, a quem quer que seja, com seu poder.

Tão imbuídos estão de sua força de destruição, que a comparam à bomba atômica, convencidos de sua superioridade pois compram qualquer coisa, no entanto, tropeçam em operar um gravador, ficando presos na própria ratoeira. Mas esse engano, também não seria uma cena? Por que ficar gravando suas bravatas e confissões de traição à sua própria família, a intenção de seduzir autoridades, de contratar pessoas para jogos sexuais? Que febril narcisismo, pensando gozar, produzem essas exposições, antevendo o horror em um público hipotético deste patético espetáculo?

Por que escrever sobre isso, no dia de comemoração  histórica da Independência do Brasil?

Talvez porque, apesar de tantos séculos passados, ainda seguimos dependentes da nossa doença infantil de copiar os pais fundadores, exploradores, escravocratas, evangelizadores, que se apresentam para o povo brasileiro com suas miçangas, olhados por nós como o ideal de ser. Ideal de eu, a ser copiado ou imitado, como aqueles que sabem, que são poderosos e por isso têm a autoridade de extorquir, torturar, humilhar, que têm direito a decidir sobre vida e morte de um povo que morre a míngua, sem trabalho, sem esperança, sem vontade, sem ter porque lutar pela independência ou ...

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

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