O Desafio - Divulgar, Registrar, Publicar - Por Sueli Santos

O Desafio - Divulgar, Registrar, Publicar - Por Sueli Santos

Muito se fala sobre perversão. A frequência com que esse termo vem sendo empregado em todos os meios de comunicação se justifica. A utilização da palavra indiscriminadamente define ou equipara seu sentido à transgressão, comportamentos anti-social, violento, anti-ético ou imoral, podendo também ter suas versões de ordem fetichista, masoquista, sádica, exibicionista, entre tantas outras. Em geral o termo perversão vem sendo usado para apontar ou classificar aqueles que não respeitam os direitos dos outros, que desafiam a lei e os valores sociais.

A perversão não é apenas atribuída às pessoas que são marginais, ou de camadas mais pobres da população. O comportamento perverso também pode ser identificado nas classes mais abastadas, em pessoas que são privilegiadas, com cultura, educação e que jamais tiveram ou sofreram qualquer tipo de carência ou de discriminação. Portanto, não é decorrente de uma classe social específica.

Então se dizemos que é um comportamento, estamos falando de algo que se inscreve como um elemento constitutivo da personalidade. Algo que foi estruturado ao longo do desenvolvimento da pessoa. Está na origem da estrutura de sua subjetivação, independente da formação familiar, das condições sócio-econômicas ou culturais, também não tem a ver com a etnia, credo religioso ou opção sexual.

Em qualquer grupo social podemos identificar pessoas de caráter duvidoso, oportunista, usurpador, que tenta manipular os afetos, as crenças, os valores de outros. Dizendo de outra forma, a perversão está para além de um comportamento, mas caracteriza uma estrutura psíquica, uma forma de se relacionar com o mundo desconsiderando os valores e as leis que norteiam as relações sociais.

Encontramos esse tipo de pessoas ao longo da história, em todos os períodos da humanidade. São os que fazem guerras para justificar interesses escusos de poder e/ou domínio econômico. Muitas vezes, ao ocuparem cargos dos sistemas de proteção e regulação das leis e da justiça como representantes da lei, ao invés disso, se colocam no lugar da lei, se fazem a lei. São os que ao transgredir, violar os direitos dos outros, os direitos humanos, fazem uso da divulgação de fatos, documentos, vídeos e áudios, produzindo efeitos de intimidação, na tentativa de desmoralizar os outros, expô-los e assim disseminar o medo, o terror, a intimidação, a difamação, a injuria ou chantageando aos supostos inimigos ou desafetos.

Vivemos um momento de exposição sem precedentes. As redes sociais, e os meios de comunicação em geral, muito além de democratizar as informações, romperam os limites entre o público e o privado. Em todos os quadrantes, para o bem e para o mal. A vulgarização do que se publica, se divulga, rompeu as barreiras da razão, quer com relação a vida privada das pessoas comuns, ou daquelas que se pretendem famosas. Abarcam também o comportamento da sociedade em geral, em seus diversos matizes, ou seja, abrangendo o conjunto do social, político, científico ou pseudo científico.

A divulgação de notícias em tempo quase real do que acontece no mundo, em todos os níveis de interesses, aturde os espectadores no assombro da precipitação dos acontecimentos. Vivemos em um mundo de imagens, de saturação de informações que não conseguimos processar porque nos intoxicam. Ficamos sem memória, inundados de eventos múltiplos e envoltos em informações desconexas, para além de nossa realidade.

O mundo da globalização, da informação em redes, por sua falta de limites, de fronteiras, de barreiras, está sendo regido pela ausência de leis que respeitem a justiça, mas privilegie a interpretação de ultima hora, oportuna, cínica, onde a verdade parece, ‘não vem ao caso.’

Casuística, a lei particular, a parajustiça , me permitindo aqui um neologismo, resulta não ser justa. Iguala alguns privilégios para uns e interpreta o que lhe faculta interpretar para outros, independente dos valores comprobatórios de provas ou ausência delas. A lei em sua aplicação para todos, tem nesse caso a prerrogativa de determinar que o para todos, ‘não vem ao caso’ em suas especificidades. E a ausência de leis de caráter universal é um dos elementos determinantes da perversão. O psicanalista Joël Dor em seu estudo sobre as perversões, afirma:

Não há meio mais oportuno de assegurar-se da existência da Lei do que se esforçando para transgredir as interdições, e as leis que as instituem simbolicamente. Aliás, o perverso sempre encontra a sanção que procura neste deslocamento metonímico da transgressão das interdições já que essa sanção é o limite que remete, ela própria metonimicamente, ao limite da interdição do incesto. (JOËL DOR.1991,p.129)
Tomemos aqui a interdição do incesto como uma lei a que todos estamos submetidos, ou seja, impõe a todos nós uma castração, o que para o perverso não vigora. A ele tudo parece possível e sem interdição, por isso desafia a lei tentando se assegurar que a lei paterna, ou seja, a castração, deve ser desafiada. Por isso aceita o risco de transpô-la. Neste sentido, Dor nos diz que: ”a volúpia da estratégia não poderia ser adquirida sem cumplicidade - imaginário ou real - de uma testemunha que assiste, petrificada, ‘a escamoteação’ fantasmática na qual se encerra o perverso face à castração.”(DOR.1991.p,135)

Quem sabe possamos entender com essa teorização, os efeitos que se produzem em nós, o atual estado de denúncias com que somos bombardeados, a cada dia, pelos noticiários, envolvendo tantas pessoas públicas, grandes empresários, banqueiros, dos mais diversos escalões e das instituições do país. Seguramente esse sistema de informação tem como objetivo não só divulgar fatos e versões sobre pessoas investigadas, mas também servir de cortina de fumaça para encobrir tantas outras organizações e pessoas de diversos escalões da vida pública e de bastidores.

Principalmente, paralisa qualquer possibilidade de reação, nos impondo um silenciamento frente a absurda impotência em que somos colocados no desmonte de nossas crenças nos valores das instituições, da perda de nossos direitos mais fundamentais de garantia de trabalho, moradia, educação, saúde, segurança. Enquanto isso, aos ‘denunciados’, cabem os recursos das leis, dos direitos a prisão domiciliar, de seguir desfrutando de delações premiadas, de sob alguma multa de pequena monta, considerando as grandes fortunas amealhadas, responder à seus crimes em liberdade.

Se nos paralisarmos frente a tudo isso, ficando apenas como espectadores desses tristes episódios que vão da pantomima à tragédia sem fim. Se nos paralisarmos frente a isso, corremos o risco de perdemos nossas referências e de nos transformarmos em estatuas de sal.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

 

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