Freud continua com razão, com a "PARAISO DO TUIUTÍ”, retomo a esperança.

Freud continua com razão, com a "PARAISO DO TUIUTÍ”, retomo a esperança.

Depois do último Natal, quando se comemorou, mais uma vez, o nascimento de Jesus, minha inspiração para a escrita deu uma travada. Apesar do renascimento que a data propõe, havia um sentimento de perda de esperança. Afinal, a realidade que vivemos não parece muito promissora em termos de um futuro próximo, de acreditar nos valores civilizatórios, do respeito ao direitos humanos, do valor das liberdades conquistadas pela legitimidade da democracia.
Mas o que isso tem a ver com Psicanálise, com as questões da subjetivação, do sofrimento psíquico, com o inconsciente? Tudo. Somos seres sociais e emocionais, e o que se passa no nosso cotidiano, tanto em particular como no campo social, nos afeta. Tanto nos afeta no sentido de nos impulsionar, estimular, trazer força e esperança, como o seu contrário, a desesperança, a perda de crença em nossas conquistas e capacidade de luta contra as (in)justiças.
É quando, passando por um processo e sentimento de desamparo, fazendo a sistemática avaliação de fim de mais um ano sombrio do ponto de vista do esfacelamento dos três últimos anos da história de nosso país, retomei a leitura do texto: O chiste e sua relação com o inconsciente (FREUD, 1905). Um clássico, e deve ser lido por aqueles que querem entender sobre a força da insistência do inconsciente pela palavra, pela linguagem, tanto no enfrentamento como  na superação de todo tipo de opressão.
Transcrevo aqui um fragmento do texto que diz: ”As palavras são um material plástico, que se presta a todo tipo de coisas. Há palavras que, usadas  em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.” E exemplifica: “Um chiste de Lichtenberg isola cuidadosamente as circunstâncias em que as palavras esvaziadas são levadas a recuperar seu sentido pleno: ‘” como é que você anda?”-perguntou um cego a um coxo. “Como você vê”-respondeu o coxo ao cego”’.(FREUD. 1905.p,41)
Com o desfile de ontem, 12 de fevereiro de 2018, da Escola de Samba Paraiso do Tuiutí, com o tema: Meu Deus! Meu Deus! Se extinguiu a escravidão? A comunidade faz uma releitura da história da escravidão na história do mundo. Trazendo o tema até nossos dias, conclui com forte resignificação  o momento do Brasil atual, onde a escravidão se reveste de outras formas. Quando o povo trabalhador segue preso em correntes, oprimido com a perda dos direitos trabalhistas, quando a informalidade do trabalho e a exploração no campo e na cidade impõem  a humilhação do homem e retira suas conquistas.
Em forma de alegoria, uma inspirada alegoria aliás, a Escola mostra nas últimas alas, a manipulação de uma parte do povo, agora branco, como bonecos, títeres, controlados pelas mãos com fios de controle  do poder econômico, pelos meios de comunicação aliados às forças do dinheiro e das elites.
Os fantoches vestidos de patos, símbolo emblemático dos donos das Indústrias e do centro financeiro da capital paulista, são manobrados  batendo panelas alegremente, sem se dar conta que  fazem parte  do mesmo jogo de exploração e quem sabe, escravos da ilusão do poder branco.
Metáforas sobre uma realidade que nos afeta à todos e que os carnavalescos, amparados em um forte enredo para contar essa história, puxados por uma música contagiante e poesia emocionante, conseguem trazer para a avenida uma síntese precisa, clara e bem humorada, uma sinopse da nossa história recente, sem ser leviana ou superficial.
 Eficiente, inteligente e sem mordaça, haja vista que foi filmada,  e via satélite, enviada para o mundo inteiro por uma rede de comunicação que vem, aliada aos sistemas de poder, manipulando corações e mentes, entorpecendo  boa parte da população que se veste com a camisa da seleção brasileira,  e cobertos com a bandeira como manto, como se fosse esse o maior ato de resistência e patriotismo dos puros, brancos e da honesta elite. Patos que não se entendem como parte dos explorados.
A esperança me volta.  Freud tem razão,  a palavra, a linguagem nos liberta. O mutismo dos comentadores televisivos aumentava à medida em que a Escola avançava e ia implicando a todos nessa história da manipulação midiática, à medida em que as arquibancadas cantando, aplaudindo, soltavam o grito até então que estava entalado na garganta.  Esse desfile do povo na rua, protagonizando o maior espetáculo da terra e o canto ensurdecedor das arquibancadas, instantes apoteóticos que  me trouxe, e a muitas pessoas, a esperança de volta.
A mordaça imposta pela Escola aos meios de comunicação, promotores das farsas, do arbítrio, do desrespeito por nossa história de conquista da democracia, surpreendeu e paralisou as vozes dos comentadores,  impedidos de desligar ou interromper o sinal do satélite. O povo das comunidades tem muito a dizer, a ensinar como se resiste com alegria, bom humor e sem ofensa, sem violência, sem ameaça.  E esse povo termina seu canto dizendo:
Meu Deus, meu Deus; Se eu chorar não leva a mal; Pela luz do candieiro; Liberte o cativeiro Social.
Obrigada Paraiso da Tuiutí e obrigada ao carnavalesco Jack Vasconcelos.  Obrigada compositor Moacyr Luz por sua música e poesia dignas, e finalmente,  como não poderia deixar de dizer,  obrigada por nos ensinar tanto sobre a força da palavra e da linguagem, Freud.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

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