Tecnologias, mídias e redes sociais. O que foi feito do: onde era o isso o eu deve advir? Por Sueli Santos

Tecnologias, mídias e redes sociais. O que foi feito do: onde era o isso o eu deve advir? Por Sueli Santos

São inquestionáveis os benefícios que as tecnologias proporcionaram à vida moderna. Mas, para que chegássemos ao estado atual de evolução, não podemos esquecer que a utilização da inteligência humana não foi descoberta no século XXI; ela, a inteligência humana, criou as tecnologias.

Evoquemos tempos imemoriais, plasmados nas telas de cinema (mais um dos milagres da inteligência humana), quando o primata alfa lançou um grande osso para o alto, no espaço,  na épica cena do filme 2001 Uma odisséia no espaço. Esta cena revela o momento em que, com esse gesto, o macaco descobre sua capacidade de intervir sobre a realidade e dominar o bando, metaforizando o domínio do humano sobre  a natureza e o mundo futuro.

No entanto, eras foram necessárias, para atingir essa evolução. A descoberta do fogo; a criação de instrumentos e artefatos de defesa afinando pontas de pedras para atingir, a uma certa distância, inimigos potenciais ou animais; descobrir que a manipulação do barro poderia criar artefatos para conter água ou alimentos.  Seguramente, não se passou de uma era à outra com um clique; foi preciso mais tempo, milênios de transformações para chegarmos ao mundo  que herdamos.  

Como podemos ver, a tecnologia está presente na vida humana desde a era em que o primata originário iniciou seu processo de evolução lenta, e foi se transformando através de mudanças climáticas, de alterações produzidas por acidentes geológicos, até atingirmos estágios de  desenvolvimento dos processos civilizatórios. No entanto,  essas mudanças, por eras sucessivas, foram resguardadas ficando escondidas nas profundezas da terra, para só muito tempo depois explicar a existência e a evolução do humano na terra.

Só chegamos a acessar esses diferentes períodos de evolução da história da humanidade porque a natureza protegeu esses tesouros, quais sejam: restos de artefatos, ossadas, pinturas ruprestes. Marcas originárias da inteligência do homem primitivo, dos ainda não humanos. Esses verdadeiros tesouros foram descobertos nas entranhas de cavernas, escondidas por efeitos de terremotos, explosões vulcânicas e maremotos que determinaram as idades geológicas e produziram as formações e os acidentes geológicos tais como os sabemos hoje.

Com este pequeno escrito não pretendo fazer um estudo antropológico, arqueológico ou paleontológico, até porque não tenho conhecimento e competência para tanto.  Tento apenas refletir sobre meu estranhamento frente a insistente utilização da palavra ‘tecnologia’ nos dias de hoje. A tecnologia é invocada a cada momento como uma invenção milagrosa da supra, mega inteligência humana dos últimos séculos. 

Não podemos nos esquecer das descobertas desses achados, sob pena de revelar a falta de inteligência para interpretar os textos, registros históricos e os estudos da origem do mundo que habitamos. Tampouco podemos descuidar do conhecimento sobre a evolução do  desenvolvimento do homem e tudo que o envolveu, para que pudéssemos chegar ao que hoje somos.

Continuamente, algumas afirmações tautológicas sobre a irreversibilidade da comunicação das redes sociais, na contemporaneidade, parece desconsiderar que para chegar a esse desenvolvimento, houve um processo de acumulo de saberes, que nos remetem à história do conhecimento da humanidade.  Não tomemos o fim pelo princípio na construção dos saberes. 

 A criação das mídias em geral, e das redes sociais em particular, possibilitaram  uma nova forma de comunicação humana, tomando um caráter globalizado. Saímos do grito primal, que buscava assustar  e dominar um possível inimigo.  Nos comunicamos com agilidade com  aqueles que conhecemos, e tanto mais com aqueles não conhecemos.  Isso é um fato inegável.  Com essas ferramentas tecnológicas é possível fazer contatos, acessar conhecimento, trocar experiências, compartilhar os avanços científicos, o mundo todo ficou próximo e acessível. 

Fora do âmbito das ciências, das artes, das organizações  e sistemas sociais e políticos, a  agilidade da comunicação entre as pessoas, via as redes sociais, criou-se a possibilidade de estreitar distâncias.  Podemos nos relacionar, virtualmente, com qualquer pessoa em qualquer lugar, sem qualquer impedimento físico e/ou geográfico. Também é possível ‘encontrar’ pessoas, convocar encontros e manifestações políticas, fazer campanhas ou mesmo denúncias, tendo as mídias como  zona franca, sem barreiras.  Nos ´publicamos’ e exibimos em fotos, da unha do pé às mais pequenas intimidades. Todos sabem que ‘somos felizes’ e possuímos isso e aquilo, que viajamos, que fazemos aniversário, etc. Tudo se publica.

Com efeito, a inteligência humana ao mesmo tempo em que cria tecnologias inteligentes, a sua imagem e semelhança, pode passar a ser dominada ou dependente de sua criatura. A comunicação imediata, por descarga de excitação,  sem mediação de reflexão, ou elaboração, não deixa tempo para nenhuma depressão reconciliadora  entre um eu que se vê destituído de si mesmo e, não tem mais a quem culpar. Confundindo o virtual com o real, a ilusão da fusão narcísica não  dá espaço de discriminação possível entre um eu e um não eu.  

A maravilha de estar sempre ‘ligado’, sem perder nada, na compulsão do controle. Afinal, todos devem estar sempre plugados em várias mídias,  nos assegurando o ‘somos um’, na ilusão de completude. Tudo se pode resolver imediatamente, em rede. No entanto, qualquer pergunta ou resposta, quando esbarra na incapacidade do humano para gerenciar o sistema, se impõe ao próprio humano sua condição de castrado.  Ou pior, ao estilhaçamento  da imagem de um eu insipiente. Um euzinho...inho.

Nesses momentos, o mundo para.  Parece encapsulado na inapropriação de resolução de problemas por uma inteligência humana destreinada, por falta de uso, que só opera por  tentativa e erro. Então uma nova questão se revela: operar uma máquina, fazê-la funcionar,  necessariamente não significa saber como ela funciona? Dizem: a máquina está pensando, ou está lendo. O humano criador, espera; e quando a máquina se decidir... É ela quem decide restaurar, ou não, a comunicação. Parece que se existe um eu, este é da tecnologia autônoma, que resolve funcionar ou não funcionar.

Mas quando não é possível restituir seu funcionamento, a falta de acesso imediato a um objeto alvo, quer seja a pessoa amada, amigos, colegas de trabalho, etc, deixa o usuário da máquina infernal em estado de angústia, desamparo ou com sintomas de abstinente.  Não sabe o que pensar, pois afinal, está destreinado de pensar,  de questionar, de ter senso crítico, de duvidar do que lê ou ouve. Parece insuportável não ter, por exemplo, um telefone móvel junto ao corpo, ou ao alcance da mão para, a qualquer ‘movimento’ desse aparelhinho, podermos nos lançar dentro dele, para responder e esse som, ou demanda  chegada por cabos, fibras, satélites, sem fronteiras.

A falta de acesso imediato e contínuo ao Outro (com O maiúsculo), tomando aqui o conceito Lacaniano; ou de qualquer outro enquanto um  objeto  de desejo, via redes sociais e da milagrosa tecnologia reduz o sujeito humano a pura extensão de seus dedos. O humano submetido à máquina. Esta, a máquina, colocada como objeto de sutura da angústia e desejo de controle, remete o homem contemporâneo, ‘usuario’ das tecnologias, a se precipitar em uma queixa, inconforme por seu desejo de possuir o outro virtual a qualquer custo,  indissoluvelmente ‘ligado’ ao ‘toque’.

A tecnologia está aí para facilitar quê aspectos da vida humana? Se as relações estão definitivamente ligadas pelo destino das novas tecnologias, pergunta-se: Tendo acesso fácil e imediato ao acumulo de informações, de todos os campos do conhecimento, não precisaremos mais de escuta analítica?Nem precisamos pensar nos nossos sofrimentos causados por tanta solidão, pois acreditamos estar acompanhados virtualmente. Assim, estamos livres de ‘perder’ tempo para pensar, refletir e mesmo nos locomover até um consultório? As angustias serão descarregadas por sessões virtuais, imediatas, e de baixo custo claro? Haverá futuro para a psicanálise em um mundo tecnológico?

Não há por que se interrogar  mais sobre a clássica afirmação freudiana de que: onde era o isso e eu deve advir? Parece que não pois tudo está disponível via o mundo virtual. Não é preciso um eu que ponha questão ao mundo ou a si mesmo, haja vista que não há um ‘si mesmo’. Será assim? 

Por que ouvimos tanto que: a comunicação em rede é uma viagem sem volta? Tomando a rede como instrumento  ancestral de trabalho e não como metáfora, o estranhamento que se revela é que, no século XXI,  os pescadores  que lançam as redes ao mar para pescar,  cada vez mais,  encontram menos peixes.  O alimento tão antigo quanto o mundo, está sendo destruído pelos avanços das tecnologias que poluem os mares, ou criam navios capazes de extrair grandes quantidades de pescados para a indústria, sem respeitar os períodos de reprodução, desova e desenvolvimento dos peixes.  Exterminando a vida marinha, nas profundezas e nas suas riquezas de vida micro orgânica. O humano civilizado,  esquece que, com seus barcos tecnológicos, que visam o lucro,  independente da ação predadora que  cessa a vida no mar, consequentemente, destrói a vida que está fora dele.  Qual o limite a ser estabelecido entre a inteligência e o uso inteligente das tecnologia, que não seja destrutiva da inteligência humana? Mas isso já é  outra história. Será?

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra

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