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O Desafio - Descobrir A Sua Verdade stars

São muitos os mitos sobre os efeitos e a quem se destinam os tratamentos psicológicos. Também são muitas as práticas e técnicas de tratamentos, sendo muitas vezes considerados como equivalentes, posto que tratam de questões emocionais, sofrimento psíquico. No entanto se existem muitas modalidades de tratamento é por que não são exatamente iguais os sofrimentos, suas origens e causas. Assim como não se pode tratar da mesma forma todas as pessoas e todos os sofrimentos.

Ainda parece circular o equívoco que postula: tratamento psíquico é coisa para loucos ou gente sem força de vontade, gente fraca, que não sabe resolver seus problemas e não têm fé, por isso adoecem. Convido àqueles que lerem esta coluna, a pensar que buscar entender o que produz o mal estar psicológico, o sofrimento que se repete sempre da mesma forma em suas vidas, aquilo que com certa insistência se reproduz em suas escolhas, ainda que já saibam que escolhem sofrer, têm uma raiz profunda e esconde uma verdade outra, encoberta desde sua origem.

Neste escrito escolho falar sobre o trabalho da Psicanálise, pois este é meu trabalho. A Psicanálise é uma modalidade de tratamento criada por Freud, e que se destinava a investigar e escutar o sofrimento das pessoas desde os finais do século XIX. Em plena era vitoriana, Freud descobriu que parte do sofrimento que acometia as pessoas tinha origem em sua história infantil e era marcada pela teorias sexuais infantis, ou seja, sobre os efeitos da repressão sexual marcada pelo prazer e desprazer.

Dizendo de outra forma, o que produz prazer e/ou desprazer em período muito precoce do desenvolvimento de um bebê, quando esse só tem possibilidade de sentir em seu corpo essas impressões, mas não tem como discriminar o que o satisfaz ou o que o ameaça. Pode ser interpretado como amor e prazer no primeiro caso, ou de abando, morte ou desamor no segundo caso. Por não ter condições de perceber a diferença entre uma coisa e outra, nem ter como discriminar o sentido das palavras que falam os adultos, o psiquismo do bebê criará seus sentidos que não correspondem ao que lhe é dito pelos pais ou quem cuida dele.

Isso já se inscreve antes de a criança ter conhecimento da diferença anatômica biológica entre menina e menino. Portanto, quando falamos de teorias sexuais infantis não estamos falando exclusivamente da diferença genital, mas de marcas de prazer e desprazer no corpo físico e no que chamamos de aparelho psíquico. Não temos como controlar como se inscrevem as relações de cuidado com a criança e como nossos cuidados lhe produzem prazer (leia-se: amor, aceitação, aprovação, proteção) ou desprazer (leia-se: desamor, abandono, rejeição, ameaça de morte).

Quando não se tem as palavras para expressar o que se sente, o que angustia, o que ameaça, o que acalma, o que ampara, as reações do bebê podem sinalizar como ela sente nosso cuidado, nosso toque. Mas será uma interpretação do adulto que cuida da criança, que pela linguagem adulta e por sua própria referencia enquanto adulto dará sentido às reações do bebê. Daí a importância de se pensar que é na relação com os pais ou cuidadores que as primeiras experiências de satisfação e insatisfação, prazer e desprazer se inscrevem no bebê. E por essa dependência e precariedade de um aparelho psíquico tão frágil dos cuidados de outros, irá se organizando a relação com o mundo, com as demandas de afeto do mundo familiar em um primeiro momento. Esse mundo familiar é o precursor da relação com o social, como os outros agrupamentos humanos.

As dificuldades de interpretação dessa leitura de mundo, com tantas exigências, valores, contradições, expectativas, preconceitos, medos já vividos na história afetiva pelos adultos, serão determinantes como modelo do que ensinamos a nossos filhos. Muitas vezes dizemos: meus filhos não vão passar pelo que passei; quero outra vida para meus filhos; não vou fazer com meus filhos o que fizeram comigo; quando tiver filhos eles terão outro destino não serão como eu... Mas será que sabemos o que os filhos vão querer fazer de suas vidas? Ou cuidamos e educamos os filhos como se fossem pura extensão de nossa história e assim os encurralamos em nossos sentimentos de fracassos ou fantasias de sucesso?

Então entendamos que falar de repressão sexual não tem a ver apenas com poder ou não poder ter relações genitais, mas tem a ver com a proibição ou permissão em ter prazer na descoberta do que fazer com sua vida, com o direito a ter curiosidade em saber como a vida é, o que eu sou capaz de sentir com essas descobertas, o que posso transpor das dificuldades que a vida me apresenta. Por exemplo, quando me dizem: “meu filho nunca se machucou porque não deixo ele subir em uma cadeira, ou andar de escorregador, ou usar o talher para comer, ou tentar tomar banho sozinho por que não se limpa direito, etc”; o que escuto é que não vejo meu filho com condições de ser alguém que aprende com sua experiência suas possibilidades, que não descobre seus limites, não sabe fazer escolhas, que não sabe nem pedir ajuda pois não discrimina que é uma pessoa em separado, diferente de seus pais ou cuidadores.

Quem sabe possamos entender assim que uma criança criada dessa forma tão indiferenciada de seus pais ou familiares, ou cuidadores, quando pessoas adultas, sem saber sua verdade, ou seja, o que é dele, o que é dele enquanto  ser subjetivado,  se coloque como eternamente dependente de quem quer que o olhe. Talvez acredite que o mundo tem obrigação de suprir suas necessidades de amor e sobrevivência se mantendo na condição de bibelô, de objeto de decoração, a espera de um novo lugar de exposição de sua incapacidade de sobrevivência, sem se enxergar como alguém que se acredita capaz de viver sua verdade enquanto ser como é e que isso tem um valor.

A psicanálise se ocupa de escutar o sofrimento psíquico desde as historias mais primitivas da construção da subjetivação das pessoas. Por isso é diferente a sua forma de tratar as dores emocionais, retomando estas construções. Não se trata de olhar a vida olhando o retrovisor. Se trata de buscar entender, pesquisar, como se foram formando os sentidos e as interpretações que foram sendo construídas ao longo da vida das pessoas e o quanto isso os impedem de nomear e assumir sua verdade enquanto ser. O desafio em psicanálise é procurar e descobrir a sua verdade.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

O Desafio - Divulgar, Registrar, Publicar - Por Sueli Santos

Muito se fala sobre perversão. A frequência com que esse termo vem sendo empregado em todos os meios de comunicação se justifica. A utilização da palavra indiscriminadamente define ou equipara seu sentido à transgressão, comportamentos anti-social, violento, anti-ético ou imoral, podendo também ter suas versões de ordem fetichista, masoquista, sádica, exibicionista, entre tantas outras. Em geral o termo perversão vem sendo usado para apontar ou classificar aqueles que não respeitam os direitos dos outros, que desafiam a lei e os valores sociais.

A perversão não é apenas atribuída às pessoas que são marginais, ou de camadas mais pobres da população. O comportamento perverso também pode ser identificado nas classes mais abastadas, em pessoas que são privilegiadas, com cultura, educação e que jamais tiveram ou sofreram qualquer tipo de carência ou de discriminação. Portanto, não é decorrente de uma classe social específica.

Então se dizemos que é um comportamento, estamos falando de algo que se inscreve como um elemento constitutivo da personalidade. Algo que foi estruturado ao longo do desenvolvimento da pessoa. Está na origem da estrutura de sua subjetivação, independente da formação familiar, das condições sócio-econômicas ou culturais, também não tem a ver com a etnia, credo religioso ou opção sexual.

Em qualquer grupo social podemos identificar pessoas de caráter duvidoso, oportunista, usurpador, que tenta manipular os afetos, as crenças, os valores de outros. Dizendo de outra forma, a perversão está para além de um comportamento, mas caracteriza uma estrutura psíquica, uma forma de se relacionar com o mundo desconsiderando os valores e as leis que norteiam as relações sociais.

Encontramos esse tipo de pessoas ao longo da história, em todos os períodos da humanidade. São os que fazem guerras para justificar interesses escusos de poder e/ou domínio econômico. Muitas vezes, ao ocuparem cargos dos sistemas de proteção e regulação das leis e da justiça como representantes da lei, ao invés disso, se colocam no lugar da lei, se fazem a lei. São os que ao transgredir, violar os direitos dos outros, os direitos humanos, fazem uso da divulgação de fatos, documentos, vídeos e áudios, produzindo efeitos de intimidação, na tentativa de desmoralizar os outros, expô-los e assim disseminar o medo, o terror, a intimidação, a difamação, a injuria ou chantageando aos supostos inimigos ou desafetos.

Vivemos um momento de exposição sem precedentes. As redes sociais, e os meios de comunicação em geral, muito além de democratizar as informações, romperam os limites entre o público e o privado. Em todos os quadrantes, para o bem e para o mal. A vulgarização do que se publica, se divulga, rompeu as barreiras da razão, quer com relação a vida privada das pessoas comuns, ou daquelas que se pretendem famosas. Abarcam também o comportamento da sociedade em geral, em seus diversos matizes, ou seja, abrangendo o conjunto do social, político, científico ou pseudo científico.

A divulgação de notícias em tempo quase real do que acontece no mundo, em todos os níveis de interesses, aturde os espectadores no assombro da precipitação dos acontecimentos. Vivemos em um mundo de imagens, de saturação de informações que não conseguimos processar porque nos intoxicam. Ficamos sem memória, inundados de eventos múltiplos e envoltos em informações desconexas, para além de nossa realidade.

O mundo da globalização, da informação em redes, por sua falta de limites, de fronteiras, de barreiras, está sendo regido pela ausência de leis que respeitem a justiça, mas privilegie a interpretação de ultima hora, oportuna, cínica, onde a verdade parece, ‘não vem ao caso.’

Casuística, a lei particular, a parajustiça , me permitindo aqui um neologismo, resulta não ser justa. Iguala alguns privilégios para uns e interpreta o que lhe faculta interpretar para outros, independente dos valores comprobatórios de provas ou ausência delas. A lei em sua aplicação para todos, tem nesse caso a prerrogativa de determinar que o para todos, ‘não vem ao caso’ em suas especificidades. E a ausência de leis de caráter universal é um dos elementos determinantes da perversão. O psicanalista Joël Dor em seu estudo sobre as perversões, afirma:

Não há meio mais oportuno de assegurar-se da existência da Lei do que se esforçando para transgredir as interdições, e as leis que as instituem simbolicamente. Aliás, o perverso sempre encontra a sanção que procura neste deslocamento metonímico da transgressão das interdições já que essa sanção é o limite que remete, ela própria metonimicamente, ao limite da interdição do incesto. (JOËL DOR.1991,p.129)
Tomemos aqui a interdição do incesto como uma lei a que todos estamos submetidos, ou seja, impõe a todos nós uma castração, o que para o perverso não vigora. A ele tudo parece possível e sem interdição, por isso desafia a lei tentando se assegurar que a lei paterna, ou seja, a castração, deve ser desafiada. Por isso aceita o risco de transpô-la. Neste sentido, Dor nos diz que: ”a volúpia da estratégia não poderia ser adquirida sem cumplicidade - imaginário ou real - de uma testemunha que assiste, petrificada, ‘a escamoteação’ fantasmática na qual se encerra o perverso face à castração.”(DOR.1991.p,135)

Quem sabe possamos entender com essa teorização, os efeitos que se produzem em nós, o atual estado de denúncias com que somos bombardeados, a cada dia, pelos noticiários, envolvendo tantas pessoas públicas, grandes empresários, banqueiros, dos mais diversos escalões e das instituições do país. Seguramente esse sistema de informação tem como objetivo não só divulgar fatos e versões sobre pessoas investigadas, mas também servir de cortina de fumaça para encobrir tantas outras organizações e pessoas de diversos escalões da vida pública e de bastidores.

Principalmente, paralisa qualquer possibilidade de reação, nos impondo um silenciamento frente a absurda impotência em que somos colocados no desmonte de nossas crenças nos valores das instituições, da perda de nossos direitos mais fundamentais de garantia de trabalho, moradia, educação, saúde, segurança. Enquanto isso, aos ‘denunciados’, cabem os recursos das leis, dos direitos a prisão domiciliar, de seguir desfrutando de delações premiadas, de sob alguma multa de pequena monta, considerando as grandes fortunas amealhadas, responder à seus crimes em liberdade.

Se nos paralisarmos frente a tudo isso, ficando apenas como espectadores desses tristes episódios que vão da pantomima à tragédia sem fim. Se nos paralisarmos frente a isso, corremos o risco de perdemos nossas referências e de nos transformarmos em estatuas de sal.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

 

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