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20º LUTO E MELANCOLIA stars

O texto de Freud, Luto e Melancolia (1917[1915]) nos esclarece a diferença entre estes dois conceitos que nos afetam e que, nem sempre sabemos diferenciar. Por isso, nosso sofrimento se torna mais intenso, sem entender sobre o que exatamente nos produz tanta dor, mas tanto o luto quanto a melancolia envolvem uma perda. Perde de/do quê?

Nos esclarece Freud: “No Luto, de modo geral, é uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante .”(FREUD. 1917,p.249). O luto é superado com o passar do tempo e não se pode considerá-lo como algo patológico

O luto é um sentimento frente a perda de alguém que nos é significativa, nos é referência, que admiramos. É um pouco o que sentimos atualmente, quando temos perdido tantas pessoas importantes. Uma delas em especial, uma mulher lutadora, trabalhadora, que de forma corajosa batalhava por uma sociedade mais justa e democrática. Gostaria de falar sobre Marielle Franco, socióloga, militante dos Direitos Humanos, feminista, líder comunitária, organizadora dos movimentos em prol da cultura e das artes das comunidades pobres do Rio de Janeiro e moradora da favela da Maré.

Marielle vinha denunciando as arbitrariedades que estão acontecendo na intervenção atual das policias militares e federais, que promovem revistas de identificação das pessoas, moradora dos morros no Rio de Janeiro, a título de um controle dito de organização de um laboratório de informações para ações policiais que deverão ser estendidos a todos os Estados do país.

Mas se Marielle não é daqui, porque o sentimento de luto por sua morte? Porque ela representava a voz de todas as mulheres, das trabalhadoras, das mães que perdem seus filhos por balas perdidas, ou sumária execução por seus filhos estarem na rua. Marielle representava as mulheres negras, os movimentos negros, os pobres, do desempregados, os sem direitos garantidos.

Marielle era vereadora, Socióloga, Mestre, uma mulher das ciências, da academia, da cultura.   Ela é morta em uma emboscada covarde. Executada por quem queria calar suas denúncias e exigência de justiça por tanta violência. No dia 14 de março de 2018, o Brasil ficou mais uma vez enlutado.

O massacre cotidiano pelo qual a população pobre, negra segue sofrendo pelos excessos da ação repressiva do Estado, não tem relação com o combate à traficantes. Mas é preciso criar uma ação terrorista contra a população para que ela não possa se insurgir, reagir contra todas as mazelas pelas quais vêm passando.

Então, o luto em que mergulhamos, enquanto povo brasileiro é por Marielle e por tantas outras Marielles, Marias, Clarices, Leticias, Marisas, Zuzus, Dolores, que a cada dia enfrentam também outro tipo de morte. Ou seja, morrem de medo, o que representa uma morte de sua crença na possibilidade de poder sonhar em ter um dia comum, como em qualquer país civilizado em que as pessoas têm direito a estudar, trabalhar, ver sua família florescer, se divertir, progredir economicamente, intelectualmente, com igualdade de oportunidades, poder ser protagonista de sua própria vida, sem medo.

E aqui, já falamos de melancolia, ou seja, de um sentimento de perda de algo que não se viveu, mas que se sabe que em algum lugar, essa vida imaginada, sonhada foi vivida ou é vivida por outros que não somos nós e, nós perdemos a oportunidade de vivê-la. Mas como só vivemos imaginariamente essa vida que não nos pertence, sonhamos o sonho dos outros, ficamos à deriva, no desamparo de algo que não se viveu e não somos nós.

Esse sentimento de perda de algo que não se viveu, nos despotencializa, nos fragiliza, nos rouba o futuro porque essa história vivida em algum outro tempo, talvez em um passado que não nos corresponde. Então estamos sem perspectivas no presente, melancolicamente. Adoecemos de desesperança. Sem valor, incapazes de qualquer realização e moralmente nos sentimos desprezíveis.

E mais, nos diz Freud: “O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto - uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego.”(FREUD.1917,p.251)

A tristeza e o luto da perda de alguém como Marielle, no entanto , vai passar porque é preciso honrar sua história, sua luta, sua força, sua coragem de lutar pela igualdade de direitos, pela democracia, pela liberdade de expressão, pela alegria de viver com liberdade. Sigamos, somos todos Marielle.

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