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Retorno da esperança não é o mesmo que ficar esperando: ainda sobre as razões do inconsciente - por Sueli Santos

No texto anterior, relembrei um trecho da obra: O chiste e sua relação com o inconsciente (FREUD. 1905) para dizer de sua atualidade. Esse texto faz um profundo e detalhado estudo sobre as manifestações dos conteúdos do inconsciente, que apesar das forças do recalcamento, resultantes de marcas traumáticas, das censuras, da repressão, ele, o inconsciente, vai buscar alguma via colateral para alivio e vazão do que produz sofrimento, desprazer.

Como o inconsciente faz isso? De muitas formas, uma delas é o chiste. Mas temos outras formações do inconsciente, como por exemplo, os atos falhos, os esquecimentos, os equívocos, os sonhos, os sintomas. Para esse texto, vou me debruçar um pouco sobre o chiste, que via linguagem, em suas múltimas formas de expressão, irrompe desavisadamente. Instrumentado pelas palavras, pelos ditos ou em muitas manifestações artísticas, podemos identificar o chiste como vias colaterais, ou vicinais, ou marginais de escoamento do que estava recalcado, interditado, mas que pelos capilares caminhos do inconsciente trazem à tona os outros sentidos possíveis das palavras. Nas alegorias, na poesia, na literatura, nas sátiras encontramos com facilidade o uso do chiste, que é distinto do cômico e também diferente da piada.

Além disso podemos aprender que a linguagem, enquanto forma de expressão em diversos sentidos, pode ser estudada através de expressões artísticas de todos os matizes. Mas não só. A palavra, seja ela falada ou escrita, é um dispositivo subjetivo, uma expressão do inconsciente em sua implicação com os contextos e a forma como vivenciamos estes contextos. Por isso, dizemos muito mais do que pensamos dizer quando falamos. Mas aqui já estamos apontando outra diferença. Não é a mesma coisa a linguagem, a palavra, a fala.

Credo! Como assim? Muita calma, devagar, para não nos perdermos de nosso eixo, o chiste. Não é tão difícil de pensar. Retomemos o recorte que já foi transcrito anteriormente do texto do Freud. O recorte é: ”As palavras são um material plástico, que se presta a todo tipo de coisas. Há palavras que, usadas em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.”(FREUD. 1905.p,41)

Vamos por partes, como diria... um vampiro sugando a jugular do povo.

Ai alguém pode dizer: Ah, de novo essa história do carnaval, da Tuiuti! etc.

Calma, afinal água mole em pedra dura... respinga pra todo o lado!

Aqui temos dois exemplos de chiste, ou seja: “Há palavras que, usadas em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.”(FREUD. 1905.p,41)

No primeiro exemplo, damos novo sentido ao dito: Vamos por partes, diria Jack o estripador. O segundo, se espera o dito popular: Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Assim, ao romper o sentido esperado e culturalmente consagrado, cria-se um novo sentido que produz a reação de surpresa ou o inusitado. Isso tem o valor de um chiste, algo engraçado porque desconserta e oferece o rompimento do sentido já determinado, abre outras ligações possíveis.

Então, quando no texto anterior, se falava de retorno da esperança, não se trata de passividade, ou ficar esperando, ou da ingenuidade de acreditar que uma mudança virá de uma alegoria, ou de um chiste, ou de uma leitura semiótica sem conseqüências sobre a realidade e as forças de poder que sobre ela, a realidade, se impõe pelos donos do dinheiro, ou das mídias ou das estruturas de estado.

Mas a esperança de que se trata, para cada um, o que fez sentido a cada um que viu o desfile da Paraiso do Tuiuti, tem motivações de ordens diferentes. Produziu um efeito de chiste, talvez. Abriu novos sentidos, dizendo coisas que tantos gostariam de dizer, ou entender o que acontecia no país e não sabiam como formular. A Paraiso da Tuiuti, descobriu um jeito de esclarecer com seu bombardeio semiótico.

Por que semiótico? Porque a partir da decifração dos signos, dos sistemas de significação, dos sinais da asfixia da concessão da embriagues da festa dos pobres, ou festa para gringos verem, o desfile desmoralizou outro mito. O carnaval como pura alienação concedendo aos pobres alguns momentos de reconhecimento e holofotes, de “liberdade e bondade cruel “, como diz o samba da Escola, pudemos desconstruir um discurso midiático amparado, financiado e imposto à milhões de brasileiros.

Foram decifradas mentiras dos três últimos anos que a cada dia, orquestrado pelos patrocinadores do desmonte de nossas conquistas de direitos, da manipulação dos valores culturais, como um mantra, impuseram muitas ou meias mentiras como verdades e máximas morais. A casa caiu.

A exemplo disso, a para e passo, as organizações midiáticas que detém os direitos de transmissão do carnaval para o país e para o resto do mundo, juntamente com o empresário que patrocina a Escola da Beija Flor, apresentaram um enredo com o discurso do patrimonialismo, mostrando uma sociedade de bandidos, corruptos, que desmonta nosso patrimônio público, roubam, matam inocentes nas escolas, nas ruas. Tentando com esse enredo enredar a todos em sua trama moralista e sem mácula. Afinal, os meios de comunicação e os bons empresários, não têm contas em paraísos fiscais, nem sonegam impostos, também não compram direitos de concessões.

O desconforto imposto pela primeira escola, que surpreendentemente escancarou a denúncia das manipulações, rompeu um silencio que se impunha frente às falsas verdades. Nesse desfile irrompeu, a verdade fez furo no muro da mentira. O desfile da Tuiuti, que precedeu a Beija Flor, e construiu a libertação das palavras proibidas pelas mentiras oficiais com relação a uma leitura da realidade social dos últimos três anos, surpreendeu os organizadores da festa, denunciando para o mundo o que não poderia vir à tona.

Quando falo de retorno de esperança, se trata de relembrar uma verdade do inconsciente, qual seja, que novos sentidos sempre são possíveis de emergir, que as verdades inconscientes, via palavra surgirão, não importa o tempo que for necessário. O que era proibido dizer, ou pensar, não pode mais ser amordaçado ou não entendido. Isso não muda o passado, mas resignifica os efeitos dessa libertação no que se segue.

Exemplo, o desfile de premiação das duas escolas, Tuiuti e Beija Flor, neste final de semana, seguiu repercutindo no mundo, na medida em que Leonardo de Morais, professor de história que representa o Vampirão presidente, foi proibido de desfilar com a faixa presidencial. Quem proibiu?... a ordem foi: ou desfila sem a faixa ou não desfilará. O Vampirão desfilou sem a faixa presidencial. Mas de qualquer forma, o estrago já estava feito. A faixa esta lá, em ausência, na presença do estranhamento da falta. E não há nada, nem ninguém que não enxergue mais a verdade das mãos que manipulam o país no ultimo carro alegórico da Paraiso da Tuiuti.

Quando falo do retorno da esperança, se trata de não esquecer que, para o inconsciente, nada fica impune. Sempre virá à tona, assim como sempre faremos destes gestos de aparente fragilidade a resistência à impunidade. A verdade prevalecerá, e quanto mais tentarem justificar, mais mentiras virão à tona.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa/Serra

Telefones: (51)981417239/(54)996757467

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