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Tecnologias, mídias e redes sociais. O que foi feito do: onde era o isso o eu deve advir? Por Sueli Santos stars

São inquestionáveis os benefícios que as tecnologias proporcionaram à vida moderna. Mas, para que chegássemos ao estado atual de evolução, não podemos esquecer que a utilização da inteligência humana não foi descoberta no século XXI; ela, a inteligência humana, criou as tecnologias.

Evoquemos tempos imemoriais, plasmados nas telas de cinema (mais um dos milagres da inteligência humana), quando o primata alfa lançou um grande osso para o alto, no espaço,  na épica cena do filme 2001 Uma odisséia no espaço. Esta cena revela o momento em que, com esse gesto, o macaco descobre sua capacidade de intervir sobre a realidade e dominar o bando, metaforizando o domínio do humano sobre  a natureza e o mundo futuro.

No entanto, eras foram necessárias, para atingir essa evolução. A descoberta do fogo; a criação de instrumentos e artefatos de defesa afinando pontas de pedras para atingir, a uma certa distância, inimigos potenciais ou animais; descobrir que a manipulação do barro poderia criar artefatos para conter água ou alimentos.  Seguramente, não se passou de uma era à outra com um clique; foi preciso mais tempo, milênios de transformações para chegarmos ao mundo  que herdamos.  

Como podemos ver, a tecnologia está presente na vida humana desde a era em que o primata originário iniciou seu processo de evolução lenta, e foi se transformando através de mudanças climáticas, de alterações produzidas por acidentes geológicos, até atingirmos estágios de  desenvolvimento dos processos civilizatórios. No entanto,  essas mudanças, por eras sucessivas, foram resguardadas ficando escondidas nas profundezas da terra, para só muito tempo depois explicar a existência e a evolução do humano na terra.

Só chegamos a acessar esses diferentes períodos de evolução da história da humanidade porque a natureza protegeu esses tesouros, quais sejam: restos de artefatos, ossadas, pinturas ruprestes. Marcas originárias da inteligência do homem primitivo, dos ainda não humanos. Esses verdadeiros tesouros foram descobertos nas entranhas de cavernas, escondidas por efeitos de terremotos, explosões vulcânicas e maremotos que determinaram as idades geológicas e produziram as formações e os acidentes geológicos tais como os sabemos hoje.

Com este pequeno escrito não pretendo fazer um estudo antropológico, arqueológico ou paleontológico, até porque não tenho conhecimento e competência para tanto.  Tento apenas refletir sobre meu estranhamento frente a insistente utilização da palavra ‘tecnologia’ nos dias de hoje. A tecnologia é invocada a cada momento como uma invenção milagrosa da supra, mega inteligência humana dos últimos séculos. 

Não podemos nos esquecer das descobertas desses achados, sob pena de revelar a falta de inteligência para interpretar os textos, registros históricos e os estudos da origem do mundo que habitamos. Tampouco podemos descuidar do conhecimento sobre a evolução do  desenvolvimento do homem e tudo que o envolveu, para que pudéssemos chegar ao que hoje somos.

Continuamente, algumas afirmações tautológicas sobre a irreversibilidade da comunicação das redes sociais, na contemporaneidade, parece desconsiderar que para chegar a esse desenvolvimento, houve um processo de acumulo de saberes, que nos remetem à história do conhecimento da humanidade.  Não tomemos o fim pelo princípio na construção dos saberes. 

 A criação das mídias em geral, e das redes sociais em particular, possibilitaram  uma nova forma de comunicação humana, tomando um caráter globalizado. Saímos do grito primal, que buscava assustar  e dominar um possível inimigo.  Nos comunicamos com agilidade com  aqueles que conhecemos, e tanto mais com aqueles não conhecemos.  Isso é um fato inegável.  Com essas ferramentas tecnológicas é possível fazer contatos, acessar conhecimento, trocar experiências, compartilhar os avanços científicos, o mundo todo ficou próximo e acessível. 

Fora do âmbito das ciências, das artes, das organizações  e sistemas sociais e políticos, a  agilidade da comunicação entre as pessoas, via as redes sociais, criou-se a possibilidade de estreitar distâncias.  Podemos nos relacionar, virtualmente, com qualquer pessoa em qualquer lugar, sem qualquer impedimento físico e/ou geográfico. Também é possível ‘encontrar’ pessoas, convocar encontros e manifestações políticas, fazer campanhas ou mesmo denúncias, tendo as mídias como  zona franca, sem barreiras.  Nos ´publicamos’ e exibimos em fotos, da unha do pé às mais pequenas intimidades. Todos sabem que ‘somos felizes’ e possuímos isso e aquilo, que viajamos, que fazemos aniversário, etc. Tudo se publica.

Com efeito, a inteligência humana ao mesmo tempo em que cria tecnologias inteligentes, a sua imagem e semelhança, pode passar a ser dominada ou dependente de sua criatura. A comunicação imediata, por descarga de excitação,  sem mediação de reflexão, ou elaboração, não deixa tempo para nenhuma depressão reconciliadora  entre um eu que se vê destituído de si mesmo e, não tem mais a quem culpar. Confundindo o virtual com o real, a ilusão da fusão narcísica não  dá espaço de discriminação possível entre um eu e um não eu.  

A maravilha de estar sempre ‘ligado’, sem perder nada, na compulsão do controle. Afinal, todos devem estar sempre plugados em várias mídias,  nos assegurando o ‘somos um’, na ilusão de completude. Tudo se pode resolver imediatamente, em rede. No entanto, qualquer pergunta ou resposta, quando esbarra na incapacidade do humano para gerenciar o sistema, se impõe ao próprio humano sua condição de castrado.  Ou pior, ao estilhaçamento  da imagem de um eu insipiente. Um euzinho...inho.

Nesses momentos, o mundo para.  Parece encapsulado na inapropriação de resolução de problemas por uma inteligência humana destreinada, por falta de uso, que só opera por  tentativa e erro. Então uma nova questão se revela: operar uma máquina, fazê-la funcionar,  necessariamente não significa saber como ela funciona? Dizem: a máquina está pensando, ou está lendo. O humano criador, espera; e quando a máquina se decidir... É ela quem decide restaurar, ou não, a comunicação. Parece que se existe um eu, este é da tecnologia autônoma, que resolve funcionar ou não funcionar.

Mas quando não é possível restituir seu funcionamento, a falta de acesso imediato a um objeto alvo, quer seja a pessoa amada, amigos, colegas de trabalho, etc, deixa o usuário da máquina infernal em estado de angústia, desamparo ou com sintomas de abstinente.  Não sabe o que pensar, pois afinal, está destreinado de pensar,  de questionar, de ter senso crítico, de duvidar do que lê ou ouve. Parece insuportável não ter, por exemplo, um telefone móvel junto ao corpo, ou ao alcance da mão para, a qualquer ‘movimento’ desse aparelhinho, podermos nos lançar dentro dele, para responder e esse som, ou demanda  chegada por cabos, fibras, satélites, sem fronteiras.

A falta de acesso imediato e contínuo ao Outro (com O maiúsculo), tomando aqui o conceito Lacaniano; ou de qualquer outro enquanto um  objeto  de desejo, via redes sociais e da milagrosa tecnologia reduz o sujeito humano a pura extensão de seus dedos. O humano submetido à máquina. Esta, a máquina, colocada como objeto de sutura da angústia e desejo de controle, remete o homem contemporâneo, ‘usuario’ das tecnologias, a se precipitar em uma queixa, inconforme por seu desejo de possuir o outro virtual a qualquer custo,  indissoluvelmente ‘ligado’ ao ‘toque’.

A tecnologia está aí para facilitar quê aspectos da vida humana? Se as relações estão definitivamente ligadas pelo destino das novas tecnologias, pergunta-se: Tendo acesso fácil e imediato ao acumulo de informações, de todos os campos do conhecimento, não precisaremos mais de escuta analítica?Nem precisamos pensar nos nossos sofrimentos causados por tanta solidão, pois acreditamos estar acompanhados virtualmente. Assim, estamos livres de ‘perder’ tempo para pensar, refletir e mesmo nos locomover até um consultório? As angustias serão descarregadas por sessões virtuais, imediatas, e de baixo custo claro? Haverá futuro para a psicanálise em um mundo tecnológico?

Não há por que se interrogar  mais sobre a clássica afirmação freudiana de que: onde era o isso e eu deve advir? Parece que não pois tudo está disponível via o mundo virtual. Não é preciso um eu que ponha questão ao mundo ou a si mesmo, haja vista que não há um ‘si mesmo’. Será assim? 

Por que ouvimos tanto que: a comunicação em rede é uma viagem sem volta? Tomando a rede como instrumento  ancestral de trabalho e não como metáfora, o estranhamento que se revela é que, no século XXI,  os pescadores  que lançam as redes ao mar para pescar,  cada vez mais,  encontram menos peixes.  O alimento tão antigo quanto o mundo, está sendo destruído pelos avanços das tecnologias que poluem os mares, ou criam navios capazes de extrair grandes quantidades de pescados para a indústria, sem respeitar os períodos de reprodução, desova e desenvolvimento dos peixes.  Exterminando a vida marinha, nas profundezas e nas suas riquezas de vida micro orgânica. O humano civilizado,  esquece que, com seus barcos tecnológicos, que visam o lucro,  independente da ação predadora que  cessa a vida no mar, consequentemente, destrói a vida que está fora dele.  Qual o limite a ser estabelecido entre a inteligência e o uso inteligente das tecnologia, que não seja destrutiva da inteligência humana? Mas isso já é  outra história. Será?

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra

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20º LUTO E MELANCOLIA stars

O texto de Freud, Luto e Melancolia (1917[1915]) nos esclarece a diferença entre estes dois conceitos que nos afetam e que, nem sempre sabemos diferenciar. Por isso, nosso sofrimento se torna mais intenso, sem entender sobre o que exatamente nos produz tanta dor, mas tanto o luto quanto a melancolia envolvem uma perda. Perde de/do quê?

Nos esclarece Freud: “No Luto, de modo geral, é uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante .”(FREUD. 1917,p.249). O luto é superado com o passar do tempo e não se pode considerá-lo como algo patológico

O luto é um sentimento frente a perda de alguém que nos é significativa, nos é referência, que admiramos. É um pouco o que sentimos atualmente, quando temos perdido tantas pessoas importantes. Uma delas em especial, uma mulher lutadora, trabalhadora, que de forma corajosa batalhava por uma sociedade mais justa e democrática. Gostaria de falar sobre Marielle Franco, socióloga, militante dos Direitos Humanos, feminista, líder comunitária, organizadora dos movimentos em prol da cultura e das artes das comunidades pobres do Rio de Janeiro e moradora da favela da Maré.

Marielle vinha denunciando as arbitrariedades que estão acontecendo na intervenção atual das policias militares e federais, que promovem revistas de identificação das pessoas, moradora dos morros no Rio de Janeiro, a título de um controle dito de organização de um laboratório de informações para ações policiais que deverão ser estendidos a todos os Estados do país.

Mas se Marielle não é daqui, porque o sentimento de luto por sua morte? Porque ela representava a voz de todas as mulheres, das trabalhadoras, das mães que perdem seus filhos por balas perdidas, ou sumária execução por seus filhos estarem na rua. Marielle representava as mulheres negras, os movimentos negros, os pobres, do desempregados, os sem direitos garantidos.

Marielle era vereadora, Socióloga, Mestre, uma mulher das ciências, da academia, da cultura.   Ela é morta em uma emboscada covarde. Executada por quem queria calar suas denúncias e exigência de justiça por tanta violência. No dia 14 de março de 2018, o Brasil ficou mais uma vez enlutado.

O massacre cotidiano pelo qual a população pobre, negra segue sofrendo pelos excessos da ação repressiva do Estado, não tem relação com o combate à traficantes. Mas é preciso criar uma ação terrorista contra a população para que ela não possa se insurgir, reagir contra todas as mazelas pelas quais vêm passando.

Então, o luto em que mergulhamos, enquanto povo brasileiro é por Marielle e por tantas outras Marielles, Marias, Clarices, Leticias, Marisas, Zuzus, Dolores, que a cada dia enfrentam também outro tipo de morte. Ou seja, morrem de medo, o que representa uma morte de sua crença na possibilidade de poder sonhar em ter um dia comum, como em qualquer país civilizado em que as pessoas têm direito a estudar, trabalhar, ver sua família florescer, se divertir, progredir economicamente, intelectualmente, com igualdade de oportunidades, poder ser protagonista de sua própria vida, sem medo.

E aqui, já falamos de melancolia, ou seja, de um sentimento de perda de algo que não se viveu, mas que se sabe que em algum lugar, essa vida imaginada, sonhada foi vivida ou é vivida por outros que não somos nós e, nós perdemos a oportunidade de vivê-la. Mas como só vivemos imaginariamente essa vida que não nos pertence, sonhamos o sonho dos outros, ficamos à deriva, no desamparo de algo que não se viveu e não somos nós.

Esse sentimento de perda de algo que não se viveu, nos despotencializa, nos fragiliza, nos rouba o futuro porque essa história vivida em algum outro tempo, talvez em um passado que não nos corresponde. Então estamos sem perspectivas no presente, melancolicamente. Adoecemos de desesperança. Sem valor, incapazes de qualquer realização e moralmente nos sentimos desprezíveis.

E mais, nos diz Freud: “O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto - uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego.”(FREUD.1917,p.251)

A tristeza e o luto da perda de alguém como Marielle, no entanto , vai passar porque é preciso honrar sua história, sua luta, sua força, sua coragem de lutar pela igualdade de direitos, pela democracia, pela liberdade de expressão, pela alegria de viver com liberdade. Sigamos, somos todos Marielle.

O Prazer do Encontro Com os Beatles em São Chico - por Sueli Santos

Acredito que todos que estiveram no Beatles Weekend, mesmo que por algum momento, como eu, ainda sintam reverberar o que ali se passou. A alegria, a comunhão, o sentimento de pertencimento a uma história vivida nos anos sessenta, não era apenas fruto de saudosismo. Mas algo de revivência de um momento de total mudança na vida de muitas pessoas que estavam ali e haviam participado das mesmas experiência e emoções em diferentes lugares no Brasil e no mundo, através do som e dos versos dos “cabeludos” ingleses, e que afinal nem eram tão cabeludos assim.

A revolução que a música dos Beatles produziu na geração dos anos sessenta e nas posteriores, não parou no tempo, é universal e um clássico, porque é atemporal. Isso ficou claro com a mistura de pessoas de todas as idades cantando e se embalando ao som de suas recordações, de suas histórias e de novas resignifiações, pois os pequenos e os jovens já escutaram, em algum momento, de seus pais, tios ou avós algumas daquelas canções.

Por outro lado, quanto ao evento em São Chico, a novidade foi a alegria do sentimento de estar fazendo parte, nesse momento, de uma virada histórica da cultura da cidade. Principalmente, esse encontro tão valioso nos fez sentir que não havia acontecido só mais uma evento na cidade, mas que São Chico tinha uma novidade. Uma proposta cultural que aponta para um outro valor que não é do consumo frenético, mas que cultura é parte do prazer com o convívio, com a natureza, com a reverência aos valores que reúnem não um espetáculo de fantasias, mas de convívio e sensibilidade, coisas que não são consumidas, mas compartidas. Que o prazer pode estar no convívio, no encontro, na descoberta da simplicidade como algo que não tem fronteiras e poder reunir gente de muitos lugares e fazê-los sentir-se em casa.

Quanto a isso, ser capaz de acolher as pessoas de fora da cidade, tornar o simples algo especial, surpreender o olhar com o vai e vem da névoa, com a oscilação do frio e calor, com a luminosidade do final de tarde, com a cantoria da passarada e os sons do ‘mensageiro dos ventos’ que repicam nas sacadas e entradas das casas, tudo isso faz o mistério e o encanto de São Chico. Porque essa simplicidade nos avisa: aqui a vida está sempre em movimento, embora, contraditoriamente se ouça muito que: “aqui o tempo parou”.

Eu diria: aqui em São Chico, o tempo é natural, segue seu curso e nos obriga a reavaliar se é preciso correr como o Coelho de Alice, acreditando estar atrasado e esquecendo que a vida tem seu tempo próprio.

A homenagem aos Beatles, me parece, foi um retorno não a um sonho de amor, fraternidade, liberdade que acabou, se perdeu no passado. Esse encontro só poderia acontecer aqui, onde esses sentimentos estão ligados a vida, ao essencial da vida, que é universal e eterno como os Beatles. Que venha o próximo Beatles Weekend e que não percamos a essencial simplicidade do encontro, isso não tem preço.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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O Desafio - Descobrir A Sua Verdade - por Sueli Santos

São muitos os mitos sobre os efeitos e a quem se destinam os tratamentos psicológicos. Também são muitas as práticas e técnicas de tratamentos, sendo muitas vezes considerados como equivalentes, posto que tratam de questões emocionais, sofrimento psíquico. No entanto se existem muitas modalidades de tratamento é por que não são exatamente iguais os sofrimentos, suas origens e causas. Assim como não se pode tratar da mesma forma todas as pessoas e todos os sofrimentos.

Ainda parece circular o equívoco que postula: tratamento psíquico é coisa para loucos ou gente sem força de vontade, gente fraca, que não sabe resolver seus problemas e não têm fé, por isso adoecem. Convido àqueles que lerem esta coluna, a pensar que buscar entender o que produz o mal estar psicológico, o sofrimento que se repete sempre da mesma forma em suas vidas, aquilo que com certa insistência se reproduz em suas escolhas, ainda que já saibam que escolhem sofrer, têm uma raiz profunda e esconde uma verdade outra, encoberta desde sua origem.

Neste escrito escolho falar sobre o trabalho da Psicanálise, pois este é meu trabalho. A Psicanálise é uma modalidade de tratamento criada por Freud, e que se destinava a investigar e escutar o sofrimento das pessoas desde os finais do século XIX. Em plena era vitoriana, Freud descobriu que parte do sofrimento que acometia as pessoas tinha origem em sua história infantil e era marcada pela teorias sexuais infantis, ou seja, sobre os efeitos da repressão sexual marcada pelo prazer e desprazer.

Dizendo de outra forma, o que produz prazer e/ou desprazer em período muito precoce do desenvolvimento de um bebê, quando esse só tem possibilidade de sentir em seu corpo essas impressões, mas não tem como discriminar o que o satisfaz ou o que o ameaça. Pode ser interpretado como amor e prazer no primeiro caso, ou de abando, morte ou desamor no segundo caso. Por não ter condições de perceber a diferença entre uma coisa e outra, nem ter como discriminar o sentido das palavras que falam os adultos, o psiquismo do bebê criará seus sentidos que não correspondem ao que lhe é dito pelos pais ou quem cuida dele.

Isso já se inscreve antes de a criança ter conhecimento da diferença anatômica biológica entre menina e menino. Portanto, quando falamos de teorias sexuais infantis não estamos falando exclusivamente da diferença genital, mas de marcas de prazer e desprazer no corpo físico e no que chamamos de aparelho psíquico. Não temos como controlar como se inscrevem as relações de cuidado com a criança e como nossos cuidados lhe produzem prazer (leia-se: amor, aceitação, aprovação, proteção) ou desprazer (leia-se: desamor, abandono, rejeição, ameaça de morte).

Quando não se tem as palavras para expressar o que se sente, o que angustia, o que ameaça, o que acalma, o que ampara, as reações do bebê podem sinalizar como ela sente nosso cuidado, nosso toque. Mas será uma interpretação do adulto que cuida da criança, que pela linguagem adulta e por sua própria referencia enquanto adulto dará sentido às reações do bebê. Daí a importância de se pensar que é na relação com os pais ou cuidadores que as primeiras experiências de satisfação e insatisfação, prazer e desprazer se inscrevem no bebê. E por essa dependência e precariedade de um aparelho psíquico tão frágil dos cuidados de outros, irá se organizando a relação com o mundo, com as demandas de afeto do mundo familiar em um primeiro momento. Esse mundo familiar é o precursor da relação com o social, como os outros agrupamentos humanos.

As dificuldades de interpretação dessa leitura de mundo, com tantas exigências, valores, contradições, expectativas, preconceitos, medos já vividos na história afetiva pelos adultos, serão determinantes como modelo do que ensinamos a nossos filhos. Muitas vezes dizemos: meus filhos não vão passar pelo que passei; quero outra vida para meus filhos; não vou fazer com meus filhos o que fizeram comigo; quando tiver filhos eles terão outro destino não serão como eu... Mas será que sabemos o que os filhos vão querer fazer de suas vidas? Ou cuidamos e educamos os filhos como se fossem pura extensão de nossa história e assim os encurralamos em nossos sentimentos de fracassos ou fantasias de sucesso?

Então entendamos que falar de repressão sexual não tem a ver apenas com poder ou não poder ter relações genitais, mas tem a ver com a proibição ou permissão em ter prazer na descoberta do que fazer com sua vida, com o direito a ter curiosidade em saber como a vida é, o que eu sou capaz de sentir com essas descobertas, o que posso transpor das dificuldades que a vida me apresenta. Por exemplo, quando me dizem: “meu filho nunca se machucou porque não deixo ele subir em uma cadeira, ou andar de escorregador, ou usar o talher para comer, ou tentar tomar banho sozinho por que não se limpa direito, etc”; o que escuto é que não vejo meu filho com condições de ser alguém que aprende com sua experiência suas possibilidades, que não descobre seus limites, não sabe fazer escolhas, que não sabe nem pedir ajuda pois não discrimina que é uma pessoa em separado, diferente de seus pais ou cuidadores.

Quem sabe possamos entender assim que uma criança criada dessa forma tão indiferenciada de seus pais ou familiares, ou cuidadores, quando pessoas adultas, sem saber sua verdade, ou seja, o que é dele, o que é dele enquanto  ser subjetivado,  se coloque como eternamente dependente de quem quer que o olhe. Talvez acredite que o mundo tem obrigação de suprir suas necessidades de amor e sobrevivência se mantendo na condição de bibelô, de objeto de decoração, a espera de um novo lugar de exposição de sua incapacidade de sobrevivência, sem se enxergar como alguém que se acredita capaz de viver sua verdade enquanto ser como é e que isso tem um valor.

A psicanálise se ocupa de escutar o sofrimento psíquico desde as historias mais primitivas da construção da subjetivação das pessoas. Por isso é diferente a sua forma de tratar as dores emocionais, retomando estas construções. Não se trata de olhar a vida olhando o retrovisor. Se trata de buscar entender, pesquisar, como se foram formando os sentidos e as interpretações que foram sendo construídas ao longo da vida das pessoas e o quanto isso os impedem de nomear e assumir sua verdade enquanto ser. O desafio em psicanálise é procurar e descobrir a sua verdade.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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O Desafio - Divulgar, Registrar, Publicar - Por Sueli Santos

Muito se fala sobre perversão. A frequência com que esse termo vem sendo empregado em todos os meios de comunicação se justifica. A utilização da palavra indiscriminadamente define ou equipara seu sentido à transgressão, comportamentos anti-social, violento, anti-ético ou imoral, podendo também ter suas versões de ordem fetichista, masoquista, sádica, exibicionista, entre tantas outras. Em geral o termo perversão vem sendo usado para apontar ou classificar aqueles que não respeitam os direitos dos outros, que desafiam a lei e os valores sociais.

A perversão não é apenas atribuída às pessoas que são marginais, ou de camadas mais pobres da população. O comportamento perverso também pode ser identificado nas classes mais abastadas, em pessoas que são privilegiadas, com cultura, educação e que jamais tiveram ou sofreram qualquer tipo de carência ou de discriminação. Portanto, não é decorrente de uma classe social específica.

Então se dizemos que é um comportamento, estamos falando de algo que se inscreve como um elemento constitutivo da personalidade. Algo que foi estruturado ao longo do desenvolvimento da pessoa. Está na origem da estrutura de sua subjetivação, independente da formação familiar, das condições sócio-econômicas ou culturais, também não tem a ver com a etnia, credo religioso ou opção sexual.

Em qualquer grupo social podemos identificar pessoas de caráter duvidoso, oportunista, usurpador, que tenta manipular os afetos, as crenças, os valores de outros. Dizendo de outra forma, a perversão está para além de um comportamento, mas caracteriza uma estrutura psíquica, uma forma de se relacionar com o mundo desconsiderando os valores e as leis que norteiam as relações sociais.

Encontramos esse tipo de pessoas ao longo da história, em todos os períodos da humanidade. São os que fazem guerras para justificar interesses escusos de poder e/ou domínio econômico. Muitas vezes, ao ocuparem cargos dos sistemas de proteção e regulação das leis e da justiça como representantes da lei, ao invés disso, se colocam no lugar da lei, se fazem a lei. São os que ao transgredir, violar os direitos dos outros, os direitos humanos, fazem uso da divulgação de fatos, documentos, vídeos e áudios, produzindo efeitos de intimidação, na tentativa de desmoralizar os outros, expô-los e assim disseminar o medo, o terror, a intimidação, a difamação, a injuria ou chantageando aos supostos inimigos ou desafetos.

Vivemos um momento de exposição sem precedentes. As redes sociais, e os meios de comunicação em geral, muito além de democratizar as informações, romperam os limites entre o público e o privado. Em todos os quadrantes, para o bem e para o mal. A vulgarização do que se publica, se divulga, rompeu as barreiras da razão, quer com relação a vida privada das pessoas comuns, ou daquelas que se pretendem famosas. Abarcam também o comportamento da sociedade em geral, em seus diversos matizes, ou seja, abrangendo o conjunto do social, político, científico ou pseudo científico.

A divulgação de notícias em tempo quase real do que acontece no mundo, em todos os níveis de interesses, aturde os espectadores no assombro da precipitação dos acontecimentos. Vivemos em um mundo de imagens, de saturação de informações que não conseguimos processar porque nos intoxicam. Ficamos sem memória, inundados de eventos múltiplos e envoltos em informações desconexas, para além de nossa realidade.

O mundo da globalização, da informação em redes, por sua falta de limites, de fronteiras, de barreiras, está sendo regido pela ausência de leis que respeitem a justiça, mas privilegie a interpretação de ultima hora, oportuna, cínica, onde a verdade parece, ‘não vem ao caso.’

Casuística, a lei particular, a parajustiça , me permitindo aqui um neologismo, resulta não ser justa. Iguala alguns privilégios para uns e interpreta o que lhe faculta interpretar para outros, independente dos valores comprobatórios de provas ou ausência delas. A lei em sua aplicação para todos, tem nesse caso a prerrogativa de determinar que o para todos, ‘não vem ao caso’ em suas especificidades. E a ausência de leis de caráter universal é um dos elementos determinantes da perversão. O psicanalista Joël Dor em seu estudo sobre as perversões, afirma:

Não há meio mais oportuno de assegurar-se da existência da Lei do que se esforçando para transgredir as interdições, e as leis que as instituem simbolicamente. Aliás, o perverso sempre encontra a sanção que procura neste deslocamento metonímico da transgressão das interdições já que essa sanção é o limite que remete, ela própria metonimicamente, ao limite da interdição do incesto. (JOËL DOR.1991,p.129)
Tomemos aqui a interdição do incesto como uma lei a que todos estamos submetidos, ou seja, impõe a todos nós uma castração, o que para o perverso não vigora. A ele tudo parece possível e sem interdição, por isso desafia a lei tentando se assegurar que a lei paterna, ou seja, a castração, deve ser desafiada. Por isso aceita o risco de transpô-la. Neste sentido, Dor nos diz que: ”a volúpia da estratégia não poderia ser adquirida sem cumplicidade - imaginário ou real - de uma testemunha que assiste, petrificada, ‘a escamoteação’ fantasmática na qual se encerra o perverso face à castração.”(DOR.1991.p,135)

Quem sabe possamos entender com essa teorização, os efeitos que se produzem em nós, o atual estado de denúncias com que somos bombardeados, a cada dia, pelos noticiários, envolvendo tantas pessoas públicas, grandes empresários, banqueiros, dos mais diversos escalões e das instituições do país. Seguramente esse sistema de informação tem como objetivo não só divulgar fatos e versões sobre pessoas investigadas, mas também servir de cortina de fumaça para encobrir tantas outras organizações e pessoas de diversos escalões da vida pública e de bastidores.

Principalmente, paralisa qualquer possibilidade de reação, nos impondo um silenciamento frente a absurda impotência em que somos colocados no desmonte de nossas crenças nos valores das instituições, da perda de nossos direitos mais fundamentais de garantia de trabalho, moradia, educação, saúde, segurança. Enquanto isso, aos ‘denunciados’, cabem os recursos das leis, dos direitos a prisão domiciliar, de seguir desfrutando de delações premiadas, de sob alguma multa de pequena monta, considerando as grandes fortunas amealhadas, responder à seus crimes em liberdade.

Se nos paralisarmos frente a tudo isso, ficando apenas como espectadores desses tristes episódios que vão da pantomima à tragédia sem fim. Se nos paralisarmos frente a isso, corremos o risco de perdemos nossas referências e de nos transformarmos em estatuas de sal.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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O Mal-estar na Cultura: reverberações do estado de exceção em que vivemos - por Sueli Santos

O ensaio de Freud (1930) intitulado O mal-estar na cultura, nos ensina sobre o estatuto da agressividade e da pulsão de morte. Aponta para dois momentos de alto grau de mal-estar. Talvez, para quem não está iniciado nos estudos da psicanálise, seja interessante esclarecer o que se entende pelo conceito de pulsão de morte. Esse conceito nos remete ao que está além da ordem.

Para Freud, criador da Psicanálise, o aparelho psíquico, abarca uma região onde situamos o inconsciente e o pré-consciente/consciente; uma outra instância, para além do princípio do prazer, situaríamos as pulsões. Na primeira região se ocuparia das representações do mundo, esse seria o lugar da ordem, aí se ordenam o pré-consciente/consciente e a ordem inconsciente que confere sentido ao princípio de prazer e o princípio de realidade.

As pulsões, por sua vez, seriam inscrições de duas ordens, ou seja, a pulsão de vida liga as ordenações das instâncias psíquicas já mencionadas e a pulsão de morte entendida como pulsão de destruição, cujas origens podemos remontar ao conceito de narcisismo. Estas são rápidas informações para situar o leitor pois não caberia aqui, neste curto texto, desenvolver a teoria das formações do inconsciente e das pulsões. Mas fica como uma sugestão a quem se interessar por entender um pouco sobre a importância de estudarmos a psicanálise para entendimento sobre o funcionamento da mente humana.

Neste texto paradigmático, podemos entender os tempos escuros em que vivemos, como uma subversão dos valores, da verdade, onde a delação é premiada. Os transgressores são protegidos e negociam sua liberdade em troca de áudios, vídeos e inconfidências de caráter duvidoso e, porque não dizer, de caráter perverso e pornográfico. Podemos entender, a partir do estudo dos textos de Freud, qual é a dinâmica do mal-estar que se instala, como dispositivo legal de destruição dos valores sociais.

Neste texto, O Mal-estar na cultura (1930), Freud aponta que a agressão e destruição colocam o próximo, o outro, como um possível objeto sexual, onde se evidencia uma tentação de se satisfazer. No outro, suposto semelhante, a realização da agressão se expressa pela exploração de sua força de trabalho sem recompensá-lo, usá-lo sexualmente sem seu consentimento, despojá-lo e assassiná-lo. Enquanto pulsão de morte, a sexualidade não se trata mais de uma sexualidade que, regida pelo princípio do prazer, lança mão da agressividade para atingir seu objetivo.

O que se observa, no momento atual em que vivemos é o primado de uma sociedade sem ordem, sem progresso e principalmente sem independência. O que resta, o que triunfa é a morte, enquanto pulsão mortífera, disjuntiva, que vampiriza em todos os sentidos os valores, as aspirações de um povo, pulverizando todos os esforços empreendidos por aqueles que se empenharam em uma luta digna contra as forças da ditadura e pela reconstrução da democracia em nosso país.

É importante entender que quando se estuda a psicanálise, podemos compreender as tramas do psiquismo humano em sua força na construção da subjetividade e também em suas linhas de força sobre a construção do laço social. O humano é um ser social. Pelo menos é o que acreditamos que deveria ser. Mas enquanto humano, é constituído por essas duas dimensões de Eros e Thanatos.

O que estamos vivendo e vendo divulgado à exaustão, no entanto, fere a nossa dignidade enquanto humanos e povo brasileiro. São imagens midiáticas, divulgadas para o mundo inteiro de um país onde graça o desmando, o escárnio dos poderosos em seu jogo sem limite pelo poder. São apreensões de malas e caixas de dinheiro em apartamentos de luxo, armazenados como na caixa forte do Tio Patinhas, personagem emblemático do capitalismo selvagem. Enquanto isso, milhares de pessoas sobrevivem com um mísero salário de fome, quando a maior parte da população não tem escola, saúde, saneamento.

Também podemos identificar os irmãos metralhas ‘Batista’, se vangloriando de destruir os poderes da república e por fim, como golpe de misericórdia fazer terra arrasada do judiciário e o ministério público. Os famosos e trapalhões irmãos fazem questão, como estratégia típica dos perversos, em gravar e divulgar suas tramas e trampas, para escandalizar e ameaçar o público, as instituições, a quem quer que seja, com seu poder.

Tão imbuídos estão de sua força de destruição, que a comparam à bomba atômica, convencidos de sua superioridade pois compram qualquer coisa, no entanto, tropeçam em operar um gravador, ficando presos na própria ratoeira. Mas esse engano, também não seria uma cena? Por que ficar gravando suas bravatas e confissões de traição à sua própria família, a intenção de seduzir autoridades, de contratar pessoas para jogos sexuais? Que febril narcisismo, pensando gozar, produzem essas exposições, antevendo o horror em um público hipotético deste patético espetáculo?

Por que escrever sobre isso, no dia de comemoração  histórica da Independência do Brasil?

Talvez porque, apesar de tantos séculos passados, ainda seguimos dependentes da nossa doença infantil de copiar os pais fundadores, exploradores, escravocratas, evangelizadores, que se apresentam para o povo brasileiro com suas miçangas, olhados por nós como o ideal de ser. Ideal de eu, a ser copiado ou imitado, como aqueles que sabem, que são poderosos e por isso têm a autoridade de extorquir, torturar, humilhar, que têm direito a decidir sobre vida e morte de um povo que morre a míngua, sem trabalho, sem esperança, sem vontade, sem ter porque lutar pela independência ou ...

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

Em Barcelona ou aqui, o terror nos fere e afeta - por Sueli Santos

Como não falar sobre os efeitos do terrorismo? Como pensar que isso não nos afeta? Como ficar indiferente à essas notícias e fatos que nos oferecem, a cada dia, os noticiários e as mídias de todo o mundo? Não estamos fora do mundo e não estamos imunes à seu contágio.

Não podemos ser ingênuos e pensar que as ações terroristas são apenas decorrente de fanatismo religioso, embora se saiba que as motivações religiosas, muitas vezes os produzem. Sabemos também que esse fanatismo pode estar presente em qualquer credo. Sabemos ainda que o fanatismo religioso está a serviço do controle social. Sobre controle social, entendamos o controle dos comportamentos, o cerceamento das liberdades, a repressão sexual, o poder econômico, a disseminação do medo e da insegurança.

Independente do que se possa atribuir como fator desencadeante, seja ele ideologia, fé, cultura, etnia, regime político, a história da humanidade foi construída pelo conjunto desses elementos. Mas em qualquer época, temos como ponto fundamental, o desejo de domínio de terras e povos para usurpar suas riquezas, escravizar a população, destituir sua cultura, desnaturalizar sua língua e costumes. Encontramos estas evidências em toda a história da humanidade no mundo civilizado, desde seus mais antigos registros, nos livros sagrados, na tradição da filosofia já presente nas bibliotecas desde Alexandria.

Mas por que, em pleno século XXI ainda, nós, os humanos, que evoluímos tanto, que dominamos tantos saberes sobre o cosmos, sobre a natureza, sobre as ciências, sobre as artes seguimos sem conseguir dominar o ser primitivo que nos habita? O que faz com que alternemos estados de puro desamor e destruição entre povos, impondo uns aos outros esse potencial mortífero de ódio?

Quando digo alternando, se deve a evidência de que o modo de operar a violência e o domínio entre os povos e potências, pode se apresentar de forma mais brutal por vezes e mais sofisticada em outros momentos. No entanto, o elemento sempre presente, que produz e fomenta os conflitos entre os povos é a violência, independente da falsa justificativa que o represente, ou seja, por discriminação de credo ou ideologia, ou poder econômico, ou cultural, etc.

O ataque da última semana em Barcelona, matando e ferindo pessoas, indiscriminadamente, não se pode dizer que não nos diz respeito, ou que é fruto apenas de mentes doentias. Nos afeta sim, quando achamos que a violência, geograficamente longe de nós, não está em nós, em espera. Acredito que quando nos horrorizamos com as mortes de inocentes, civis, pessoas desarmadas, nos ocorra pensar que os terroristas devam ser presos e punidos exemplarmente, talvez brutalizados também.

Nosso horror parece justificar ou legitimar a sede de justiça. Afinal, parece, somos do bem. Somos melhor ou mais puros que as pessoas com mentes doentias, que têm prazer em planejar a destruição de outras pessoas. Não nos damos conta que se alguém usa bombas ou explosivos, ou compram armamentos letais, ou se organizam para destruição com o auxílio de alta tecnologia, essas pessoas não vivem de forma precário, não são ignorantes, mas têm algum nível de informação, que têm inteligência, mesmo que não tenham escola e, principalmente, são financiados para tal finalidade.

 Afinal, o treinamento dos terroristas tem um forte braço armado pelo mercado que produz e vende armas químicas e de poder  de fogo sem limites.  Então estamos falando de jogo virtuoso, amparado no poder de vida e morte entre as grandes potências econômicas, em geral de países desenvolvidos com sua indústria armamentista e  de um poder oferecido pelo ‘deus’ mercado, que lucra com a venda desses dispositivos, verdadeiras máquinas de guerra. Essa engrenagem, lucra ainda mais com a fragilização produzida pelos efeitos de impotência que o terror produz, como trauma profundo e mesmo irreparável no psiquismo das pessoas.

Freud, nos ensinou que o homem é o único ser que é capaz de ter prazer em torturar, humilhar, escravizar e matar um outro, seu semelhante. Os animais não fazem isso, não matam por puro prazer de destruir mas por sobrevivência ou por se sentirem ameaçados. A luta de poder por território ou agrupamento de sua espécie também está ligada a manutenção de sobrevivência, de descendência, de cuidado com sua espécie.

Nos horroriza saber que há gente que vive para planejar a morte, a destruição, o extermínio, o terror em pessoas com as quais nem mesmo conhecem, indiscriminadamente. Não importa se crianças, jovens, velhos, homens e/ou mulheres, mas que sua única motivação é espalhar o medo, a insegurança, a intranqüilidade, a imobilidade frente ao poder de morte dos grupos radicais, e principalmente, ganhar dinheiro com isso.

Em suas diversas formas de ação, surpreender grandes aglomerações de pessoas em situação de deslocamento, de momentos de desfrutar de lazer, férias, encontros, esse é um elemento estratégico para que as pessoas passem a ter medo da liberdade, de viver seu direito de estar no mundo compartilhando o convívio, o conhecimento, o prazer.

Não importa se o terror ataca pessoas que não conhecemos em outros países, o terror tem suas ramificações entre nós, nos trópicos, sob forma de preconceito racial, sexual, machismo, de células criminosas que se albergam nas vilas, nas comunidades carentes, aliciando crianças e jovens para o tráfico, para o consumo de drogas, para a prostituição, paralisando a vida das pessoas. A exemplo de situações de guerra, impõem toque de recolher, a lei do silêncio, extorquem trabalhadores e pequenos comércios, ‘vendendo’ segurança e favores, controlando entrada e saída de becos e bem ao lado de nossas casas. Isso já fez escola mesmo nas pequenas cidades, em suas periferias.

Não é diferente um ataque em uma grande e culta cidade como Barcelona e os ataques a pequenas agências bancárias ou pequenos mercados das comunidades onde praticamente todas as pessoas se conhecem. A escola do crime é etinerante. Amedrontar comunidades com explosões de caixas eletrônicos no meio da noite, fazer cordão humano de proteção, assustar pessoas que até então viviam confiantemente em suas casas, deve nos fazer pensar que estamos muito vulneráveis, e que o terror não tem fronteira nem credo, nem limite, e que a vida está sendo banalizada.

Para além de pedirmos mais repressão policial para nos proteger, embora seja fundamental um efetivo sistema de segurança das pessoas, das cidades, talvez tenhamos que fortalecer a idéia que nossa força maior deva nos implicar na construção de nossa segurança. Como? Resgatando os laços entre nossos iguais, nossa comunidade, nossa vizinhança, apostar na educação como elemento realmente revolucionário para que a escola seja um eixo referencial para a formação de cidadãos, de dignidade, de solidariedade. Podemos reduzir o espaço da impunidade, do cinismo do poderosos vendedores de ilusão, tendo uma posição mais crítica, pró-ativa.   O terror que nos fere e afeta a todos, não pode ser mais forte que nossa possibilidades de defendermos nosso direito à liberdade e à vida.

Dra. Sueli Souza dos Santos
Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

Como aprendemos ouvindo as crianças - por Sueli Santos

Semana passada, circulando por um grande Supermercado de São Francisco, presenciei um conversa muito interessante entre duas meninas. Este Supermercado tem uma variedade de itens e marcas que realmente não deve nada às grandes cidades. Como havia um oferta de muitos vinhos e espumantes, me dirigia a este setor, pois aí se encontram bebidas nacionais e dos países vizinhos com considerável variedade e qualidade. Eu queria comparar esses preços com os de Porto Alegre. Além do que é uma bebida que considero saudável se tomada com moderação.

Embora distraída, olhando o que se oferecia, ouvi duas meninas de aproximadamente 11 e 8 anos, comentando sobre o que viam e liam nas cartelas de preços e sobre os diferentes rótulos dos diversos países. Fiquei curiosa. Elas falavam muito animadas, pareciam mesmo excitadas como as crianças que entram em lojas de brinquedos. Estavam ali sozinhas, e comentavam sobre o que viam e da proibição de beber vinho. Em princípio, pensei que seus comentários tinham a intenção de mostrar uma à outra o quanto sabiam ler e identificar tantas variedades de uvas, e também para me impressionar, pois perceberam que eu prestava atenção em sua conversa.

Uma, a mais velha, dizia: vinho é ruim. Não é bom beber vinho.
A outra: é, é ruim, né? Eu nunca vou beber vinho. Tenho nojo de vinho. Vinho faz muito mal.
Uma: é muito ruim as pessoas sabem que faz mal.
A outra: mas agente não pode beber por que é proibido, a nossa religião não permite.
Uma: é a nossa religião não permite, mas tem gente que gosta. Olha só quantas garrafas!
A outra: é tem gente que gosta, mas vinho é só para rico porque é caro. Só os ricos podem tomar.
Uma: é mesmo, é bebida de rico.

Olharam em volta e só estávamos eu e elas ali. Se afastaram um momento. Procuraram as mães e voltaram para o mesmo lugar e tema. Talvez com esse diálogo possamos entender, o quanto, apesar de proibido, aquele lugar era interessante. Era proibido gostar de vinho, tomar vinho, as famílias não permitiam, a religião proibia, mas elas olhavam tudo com muito interesse. Quem sabe possamos pensar que esse lugar era tão interessante por ser um lugar de transgressão, aquilo não era permitido, e por isso estivessem tão animadas. Mas também falavam do proibido e de uma divisão de classes, afinal, só os ricos podem beber vinho, outra interdição. Por que algumas coisas são para os pobres e outras para os ricos?

Fiquei pensando, porque os refrigerantes, que são uma bomba de sódio e açúcar, que produz um risco à saúde, que pode desenvolver diabetes, obesidade, celulite, alterar a pressão artéria, não é proibido. Além disso, é vendido em embalagem de dois litros e meio. Não há nenhuma restrição em vender para crianças. Está nas casas de pobres e ricos, sem que se faça qualquer questionamento. Não há religião que proíba o refrigerante, apesar de seus malefícios para a saúde e produza uma verdadeira epidemia de sobrepeso. Mas as meninas não questionavam essa bebida, tampouco estavam interessadas nas gôndolas onde estão expostas.

A conversa avança. A mais velha pergunta à mais nova: tu vai querer um dia experimentar o vinho? A outra: não podemos, a gente é criança. Uma: sim, mas quando tu for adolescente, quando tu trabalhar, tu vai querer experimentar? A outra: quando eu crescer e tiver meu dinheiro, acho eu vou querer, só pra ver como é o gosto. Eu também, disse a mais velha. Mas agora a gente não pode. A mais velha, é agora não pode.

A essa altura as mães já chamavam, elas me deram uma olhadinha marota e se foram. Fiquei pensando, que maravilha de diálogo. As crianças formulavam suas hipóteses sobre o que ouviam, sobre o proibido, sobre o permitido, e parece também que encontraram uma forma de resolver a questão sobre as proibições. Um dia crescerão, serão mais independentes pois trabalharão. Terão seu dinheiro e aí poderão decidir se o proibido é realmente o que faz mal.

As proibições de fora para dentro, as verdades absolutas: isso é do mal, isso não pode, isso não se deve, isso é bonito, isso é certo, entram na formação da subjetivação das crianças com a força de um código que vem da cultura da família, de sua história, de suas crenças, de sua classe social, e tudo vai sendo formador de classificações que podem impedir de questionar se esses valores ensinados são absolutos ou se são formas de ver o mundo, de se colocar no mundo.

De certa forma, essas meninas tinham questões, hipóteses e sabiam que a proibição estava ligada ao que aprendiam nos valores de suas famílias e religião, mas que outras pessoas pensavam diferente. Viviam de forma diferente e quem sabe, quando tivessem autonomia, crescessem poderiam fazer sua experiência sobre o que para elas, todos esses princípios significavam.

Escutar crianças é bem importante, elas são inquietas e embora respeitem o que aprendem com a família, na escola, na igreja, na conversa com os amigos, podem ter um eu distinto, podem pensar diferente. É importante respeitar as interrogações, as dúvidas das crianças. As dúvidas têm a função de produzir novos sentidos sobre o quê se possa vir a ser ou fazer.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

O que não tem remédio - por Sueli Santos

Gostaria de dividir com os leitores um tema que vem nos afetando a todos, qual seja, quando a verdade é elucidada, sobre qualquer fato ou evento, seja de ordem pessoal ou na vida social, não se pode mais defender ou crer nas fantasias travestidas de verdade, não há remédio.

O poeta Joan Monoel Serrat nos ensina: ‘nunca es triste la verdad, lo que no tiene es remédio’. Embora seja um poema de amor que resultou em uma linda canção, trata de questões que nos afetam a todos. Quando buscamos a verdade do amor, por exemplo, tomamos uma parte pelo todo, acreditamos que essa parte garante que o todo foi conquistado. Isso vale para outras relações, humanas, afetivas sociais, ou políticas.

A busca da verdade, a tentativa de saber a verdade, a certeza da verdade, nos oferece sempre um irremediável encontro com desilusões. Isso porque temos a ilusão de que podemos ser diferentes daqueles que criticamos, ou discordamos, quer do ponto de vista intelectual, social, ideológico, étnico, religioso, etc. Podemos até conviver com a diversidade onde nos situamos nos grupos sociais, familiares, profissionais, no entanto, a ilusão é que nossas discordâncias nos colocam no lugar de observador privilegiado, alheio às próprias crítica que fazermos.

Doce ilusão. Talvez não tão doce. Somos também olhados do lugar do outro, desde o lugar dos que nos observam, e quem sabe, fazem o mesmo caminho de distanciamento que nós supomos  fazer. Dizendo de outra forma, também somos observados e considerados  diferentes  pelos outros.

O discurso do respeito às diferenças é proporcional ao desconhecimento do quando nós, a cada dia, somos diferentes frente a nós mesmos, somos contraditórios. Que ao longo do tempo, mudamos. Muda nossa compreensão de mundo, de sentido da vida, de entendimento sobre os valores que são repensados em uma sociedade tão diversa, com laços afetivos tão frágeis. Nos surpreendemos ao nos descobrirmos também com preconceitos com relação aquilo ou aqueles que são distintos de nós. Quem sabe possamos entender que somos estranhos a nós mesmos a cada fase de nossa vida. Somos assim.

O que é preciso mudar, à medida que a vida passa, que a sociedade muda, que as relações  não tem os mesmos enlaces, é que não existe A verdade. Mas que precisamos aprender, ao longo da vida, que não podemos tomar uma parte pelo todo, escolher apenas uma parte como a verdade total. Ninguém detém a verdade, ninguém é dono da verdade, ninguém sabe qual a verdade de si mesmo.

Me preocupa quando encontro alguém, que não via há muitos anos, diz: Não mudaste em nada, continuas igual. Como isso seria possível se passaram tantos anos? Se tanta coisa foi vivida, perdida, retomada, esquecida. Como se pode seguir igual na vida se é vivida de tantas formas, com tantas mudanças. Como o tempo e o vivido não fizeram marcas?

No reencontro com pessoas ou lembranças do passado, a estranheza é necessária. É preciso que mudemos, que não nos vangloriemos de sermos sempre iguais, que o tempo não nos fez diferença. Isso não quer dizer que podemos virar casaca, ou seja, questionar os valores éticos fundamentais e aderir a total ou parcial falta de princípios. Mudamos. E finalmente, nunca é triste a verdade, o que não é remédio.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul 

As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam - por Sueli Santos

Como diz o poeta Tunai: “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam, por que o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões”. Para quem não conhece, esse poema foi musicado por Sergio Natureza, gravado e eternizado magistralmente por Elis Regina.

O que nos faz pensar no amor e no ódio como irmanados está relacionado a uma questão muito particular, as intensidades de energia que geram estes dois afetos. Freud, criador da psicanálise, afirmava que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. Então, quando o ódio está em atividade, algo do amor ainda não se dissolveu.

É comum ouvirmos relatos de pessoas apaixonadas dizerem: encontrei a pessoa perfeita, temos tudo em comum, pensamos da mesma forma, gostamos das mesmas coisas, parece que nos conhecemos há muito tempo. Tivemos um encontro incrível, conversamos mais de três horas e não vimos passar o tempo. E concluem, ele(a) tem uma cabeça ótima.

Mais incrível ainda, quando esses relatos falam de uma relação virtual, quando as pessoas nunca estiveram presencialmente, juntas. O que se dá aí, que mesmo sem falar pessoalmente, ou mesmo, em um encontro pela primeira vez com alguém em uma situação casual, supomos o encontro com a alma gêmea?

Encontrar alguém igual, quem sabe, seja encontrar a imagem do espelho. Mesmo quando se diz: gostei de tal pessoa por que era bem diferente de tudo que eu encontrava por aí. Mas como saber que uma pessoa é diferente do que se encontrava por aí, se não sabemos quem é, como é essa pessoa? Talvez se possa pensar que a procura de alguém igual a mim ou diferente de mim, tenha a mesma origem. Ou seja, sou eu que estou criando um ideal de completude, de unidade que não poderá ser sustentado pelo outro, posto que o quê encontro é uma fantasia que deposito no outro, a ilusão imaginária do encontro com esse ideal.

Então, quando busco alguém igual a mim, o que vejo pode ser o que eu criei e não o que realmente o outro é. Às vezes, confirmando essa idéia do engano, ouvimos da pessoa que se diz apaixonada, observações do tipo: ‘claro que ele(a) não é perfeito(a), mas com o tempo eu consigo mudar o jeito dele(a)’. Então ... se é preciso mudar alguém para que se pareça com meu ideal, de quem ou do quê realmente estamos falando, a não ser de uma fantasia de transformar a realidade do outro para que se aproxime do que eu quero, e não desta pessoa como ele é.

Mesmo assim, esse engano de um encontro ideal é inevitável na paixão. É preciso encontrar uma fantasia no que vemos para que tenhamos coragem de arriscar, colocar fora de nós essa possibilidade de que, fora de mim, algo se materialize para o encontro imaginário do objeto amoroso. Essa fogueira que queima com intensidade aquece os corações. Afinal, esse órgão, o coração, cantado em verso e prosa desde o inicio dos tempos, sempre foi nomeado para colocar aí nossos sentimentos. Talvez porque ele altere seu ritmo e nos diga que algo pulsa, nos implica, nos desestabiliza, nos excita, nos altera emocionalmente e fisicamente toda vez que nosso inconsciente identifica, no que vemos, algo que nos faz pulsar no desejo de completude.

Seguindo nosso poeta, em uma segunda estrofe, ele diz: “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam, por que o amor e o ódio se irmanam na geleira da paixões”.

A fantasia de que, com o tempo, se pode dar um jeitinho para que o outro venha a ser como queremos, muitas vezes se torna ligeira insatisfação, depois impaciência, queixa, acusação de desinvestimento nas coisas e interesses comuns. Quando essas pressões já não produzem qualquer reação por parte daquele que se mostra desconfortável, por que a relação não anda conforme a fantasia, pode resultar em uma nova estratégia, com o intuito de criar, também imaginariamente, um novo projeto comum.

Se buscam recursos para além da dupla. Ou seja, o foco da queixa muda para o planejamento, quem sabe, de aumento de família para quem já o fez; ou de ter filhos para aqueles que não têm, ou reformar da casa, mudança de cidade, ou trabalho. E assim, o que está tão próximo como a discussão sobre a relação e suas dificuldades, do que não liga mais esse enlace, do que perdeu o ímpeto, é projetado em novas fantasias para fora do investimento da relação amorosa, mas deriva para a burocratização da convivência. Ao invés de busca de solução, temos a dissolução e o desencontro.

Pode emergir dessa estratégia uma nova frustração, marcado aparentemente pela raiva ou o ódio. Ou seja, o ódio endereçado a alguém, quando uma relação amorosa se rompe, evidencia que esse desfecho, esse término, deixou um resto, algo por dizer ou fazer, que não foi possível resgatar. Algo se perdeu sem que soubéssemos como isso aconteceu. Nos perdemos.

Muitas vezes o ódio endereçado ao outro que nos trocou por outro sonho, ou simplesmente não deseja mais seguir nesta ligação, deixa naquele que se sente preterido, uma sensação de que a pessoa abandonada falhou, fracassou, foi insuficiente para corresponder ao que o outro esperava.

Algo se rompe, gela, ‘vai esfriando por dentro o ser’, a paixão tórrida se transforma, dissolve o que antes unia. O sofrimento causado pela quebra da magia do encontro, da fantasia de amor perfeito parece ter sido traído, enganado, falseado, a confiança quebrada. Mas o quê ou quem falhou? Ninguém falhou ou os dois falharam?

Porque não foi possível seguir com o ideal de perfeição, não quer dizer que o amor não foi verdadeiro, que o vivido foi mentira ou falsidade. Porque ambos embarcaram em uma viagem comum, em um sonho comum, talvez não tenha sido o bastante para que seguissem no mesmo destino, no mesmo projeto, não determina que alguém seja culpado. Ninguém falhou.

Ao longo do tempo, é esperado que as pessoas mudem, reconfigurem seus interesses, seus desejos, seus prazeres. É bom que seja assim. Não é possível que alguém com vinte anos continue igual aos trinta ou aos cinqüenta. A passagem do tempo, tanto externo como internamente, vai amadurecendo as pessoas, fazendo com que o quê em um tempo era prazeroso mude seu foco de interesse. Por si só, a mudança, o amadurecimento, não produz separação ou perda da capacidade de amar ou se apaixonar.

Se há uma mudança por parte das duas pessoas em uma relação amorosa, a relação segue amadurecendo, terna, e mesmo tórrida, mas agora construída a dois, nos processos mútuos de revisão, reconquista, encantamento de um com o outro, com a mudança de um e outro. Isso é possível pelo respeito à alteridade. Ambos não se tornaram um só, mas cada um fez sua viagem e compartilharam suas experiências, enriqueceram um ao outro.

Quando entendemos que colocamos no outro a responsabilidade de um esfriamento na relação de amor, quem sabe possamos pensar que, se nós notamos isso, talvez em nós se denuncie que não estamos mais satisfeitos porque em nós algo a mais nos fez ou deixou de fazer sentido nesse enlace. Portanto,  a falta de correspondência da união perfeita passa pelos dois envolvidos, e que por algum motivo, e mesmo quem sabe, por acomodação, se deixou que tudo seguisse o fluxo do cotidiano que foi regelando o amor.

Uma relação amorosa ou de paixão, envolve reciprocidade. Quando isso acontece, quando o amor não está mais lá onde o colocamos, talvez tenhamos que pensar se queremos tentar reaquecer ou reencontrar algo que se perdeu. Mas também podemos pensar que esse ciclo se fechou e que podemos resguardar tudo que foi vivido e prazeroso como parte da nossa história de um momento determinado da vida. Não há porque tentar destruir essa história ou as pessoas em que depositamos tanto amor e dedicação. Quando isso é possível, estamos livres para ressignificar nossas possibilidades de amar novamente e agora em outro momento, com uma experiência acumulada sobre o que se pode esperar, mas principalmente com o que se aprendeu a não esperar. Ou seja, a realidade é mais segura que a fantasia e a vida é maior que o sonho. Amar é sempre uma possibilidade à nossa mão.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul 

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