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Na parede da memória - Por Sueli Santos stars

Caro leitor, um mês atrás, da ultima vez que escrevi nesta coluna, pensei que seria difícil encontra algum outro tema que pudesse inspirar algum horizonte menos cinzento. Por que? Acredito que por efeito do que abordava sobre o tema do Luto e Melancolia, texto de Freud (1917[1915]) que eu tomava como guia para reflexão. Apesar de nos ensinar sobre esses dois conceitos e sobre as dores do existir, parece que fui afetada pela releitura dessa obra. Se produziu uma profunda saudade de tempos em que os sonhos ainda estavam no limite da crença em um futuro mais promissor, de conquistas de liberdade, dos valores de fraternidade, solidariedade estava ao alcance de nossas mãos.

Nos tempos que correm atualmente, temos tidos muitas perdas, um precipitado de acontecimentos que, por vezes, têm jeito de pesadelos. Não acredito que haja alguém que não se interrogue: que tempos bicudos são esses? Em quem confiar? Onde reencontrar a verdade da ética das relações? Qualquer tipo de relação: amorosa, profissional, de convivência entre iguais e/ou opositores. Sim porque é possível e preciso que a tenhamos ética e respeito entre iguais e opositores.

Dostoievski nos disse: se Deus não existe, tudo é permitido. Entendo essa frase no sentido que, se não há lei, pois cada um faz sua própria lei, não há nada que normatize as relações. Então tudo é permitido.

No contraponto dessa afirmação, Lacan, psicanalista Frances, nos ensina: Se Deus não existe, tudo é proibido. Isso porque, se Deus não existe, não há uma lei justa que regule as normas de convivência e seus excessos. A conseqüência disso é uma tragédia, afinal a humanidade pode ser destruída por sua irracionalidade.

Não há limite para a barbárie, isso é equivalente a violência selvagem. Em outras palavras, é a instalação do fascismo. Já tivemos essa experiência histórica nas conquistas territoriais ao longo da humanidade, nas duas grandes guerras de proporções continentais, ou nas guerras ditas religiosas com sua lógica de terror.

Atualmente as novas formas de guerras híbridas, que produzem extermínio, estão no controle dos mercados. O Deus mercado que tudo pode, no anonimato das manipulações e alianças com as mídias, com as tecnologias, com o capital financeiro internacional, com a justiça para poucos, ou seja, a justiça executada pelos donos da justiça a revelia da lei a que todos devem estar submetidos.

Esse estado de exceção, esse sem limites, pode destruir as economias emergentes e asfixiar os povos para manter a hegemonia mortífera e escravocrata do domínio e do poder de uns poucos, uma minoria sobre a maioria da população à margem do poder econômico e dos jogos de mercado econômico.

Isso aplasta, nos produz um sentimento de nadificação, de fragilidade emocional, corações e mentes se esfumaçam. É repetir, como nos esclarece Freud: “O Luto, de modo geral, é uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante .”(FREUD. 1917,p.249).

O luto é um sentimento frente a perda de alguém que nos é significativo, nos é referência, que admiramos. É um pouco o que sentimos atualmente, quando temos perdido tantas pessoas importantes; temos perdido tantos direitos adquiridos na luta dos trabalhadores, do respeito a constituição e da justiça para todos. Importante entender que estamos perdendo o elo com nossos sentimentos mais profundos com uma história construída a muitas mão, por longos anos.

Parece não haver mais espaço, no mundo atual, para a esperança, para a poesia e para os poetas. Não há mais tempo para ouvir e cantar canções de amor, para falar sobre a nossa ingenuidade de quando havia galos, noites e quintas.

Como resolvi refletir aqui sobre perdas, não esqueçamos que vai fazer um ano que perdemos Belchior. Compositor, poeta nordestino, mas antes de tudo brasileiro, que viveu e partiu da vida aqui no sul. Seu profundo sentimento de amor pela vida, pelas experiências e a aventuras que o tornaram um viajante, um navegador, um andarilho e o trouxeram para cá.

Em sua obra poética, sempre nos comoveu com sua fina sintonia com a beleza e a dor do existir. Com suas baladas dissonantes, com andamentos e ritmos desconcertantes, não nos deixava esquecer que já havíamos vivido, e que ainda continuamos vivendo, períodos de tantas lutas, mentiras, guerra que levam de nós tanta gente em campos de batalhas, em lutas ideológicas, em intolerância, em preconceito.

Também nos falava da violência da ignorância, do terrorismo dos estados de exceção no nosso continente e em nosso país. Lembrava dos desaparecidos, da invisibilidade, da solidão das pessoas dessas capitais, do corpo que cai do oitavo andar, dos humilhados dos parques com os seus jornais, perdidos na noite.

Revelava em sua obra que, na repetição mortífera de velhas histórias vividas por nós, quando ainda não havíamos tido tempos de saber o que éramos, resultava em sermos representantes de outras histórias. Sem sabermos que somos iguais àqueles que criticamos, quando diz: “ Minha dor é perceber, que apesar de termo feito tudo o fizemos. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. “  

Ele escancara que:” Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que me dói mais.” Em seus versos, podemos lembrar do que nos falta a cada dia e para sempre. Isso nos faz lembrar que faz um mês que perdemos Marielle, e nada foi apurado. Que perdemos a conta de tantos anônimo, pretos, pobres, jovens sem esperança, sem registros, sem cidadania, sem trabalho, sem tetos que perdem a vida a cada dia, fazem parte de uma estatística de humanos. Desumanizados pela nossa indiferença quando acreditamos que isso não nos diz respeito, ou está fora de nossa compreensão ou interesse.

Seguem as canções de Belchior nos lembrando, e tocando na ferida quando aponta: “Nada é divino, nada é secreto, nada é misterioso. A vida realmente é diferente. Quer dizer: Ao vivo é muito pior.“ Escutemos mais o poeta, lembremos suas músicas, pensemos sobre seus versos que buscam nos alertar que tudo, absolutamente tudo, nos diz respeito, e finalmente, não esqueçamos que também nada deve nos demover de que: “amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas, me interessam mais.”

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra

Telefones (51)981417239 / (54)996757467

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