Sueli Santos

Sueli Santos

Arderam a história e a memória do Brasil e da humanidade stars

O incêndio que devastou o Museu Nacional  de História  Natural  há uns dias é uma perda irreparável. Não há como recuperar os duzentos anos de trabalho, dedicação, estudos e descobertas científicas que esta casa guardava como registro da história do povo brasileiro e da humanidade. O incêndio foi um crime contra a humanidade.

O Museu Nacional, era guardião de mais de 20 milhões de itens. Depositário da memória brasileira nos campos de ciências naturais e antropologia, guardava  “Luzia”, o fóssil humano mais antigo encontrado no país. O Museu completaria 200 anos neste mês de setembro. Criado por D.João VI em 1818 tinha por interesse primordial a promoção do progresso cultural e econômico do país;  foi residência da família real de 1816 a 1821.

O prédio ainda testemunhou momentos importantes de nossa história pois foi lá que em 1822 D.Pedro I assinou  a declaração de independência do Brasil  e  ainda palco da primeira Assembleia Constituinte da Republica em 1891 que marcou o final do Império. O palácio tornado Museu expunha uma coleção de peças desde a época do descobrimento até a proclamação da República em 1889, guardando objetos, quadros, móveis  da nobreza de Portugal e do Brasil. Além de  fósseis, de grandes mamíferos e  o Maxakalisaurus topai, primeiro dinossauro de grande porte montado no Brasil, e vasta documentação e arquivos sobre achados e pesquisas científicas. Ao incendiar todo este acervo, queima-se não só parte de nossa história, mas da história da humanidade. 

Estamos assim. Queimamos nossa  história, vendemos nossas riquezas naturais, abrimos mão de nossa soberania e segurança nacionais em parcerias espúrias com o capital internacional. Descumprimos tratados internacionais, criamos casuísmos jurídicos ao sabor das conveniências da pirataria que assalta nossa combalida e frágil democracia.

Vivemos tempos difíceis do triunfo da ausência  de respeito às leis, posto que ela é para poucos. Tanto desmonte de conquistas sociais,  de conquistas trabalhistas, de conquistas no campo da educação, de acesso à saúde, de reconhecimento mundial de desenvolvimento econômico, tantos avanços tem sido tragados e vilipendiados pela ganância desmedida. Uma elite atrasada associada aos interesses espúrios  de capitais estrangeiros têm, sistematicamente, manipulado os destinos do país  nos levando ao retrocesso democrático. Enquanto isso, alguns poucos amealham grandes fortunas em paraísos fiscais, compram favores e vantagens, destroem nossas riquezas, nossa ciência, nossas artes, nosso futuro.

Como equacionar tanto desmando, tanta destruição, tanto rompimento  de valores democráticos que foram construídos com a superação dos anos de arbítrio que nos amordaçaram por vinte anos? Gostaria de trazer aqui nesse espaço, um trecho de um psicanalista que nos ajuda a pensar sobre esses momentos sem lei que vivemos atualmente.

Esse psicanalista italiano, Massimo Recalcati,  nos ensina sobre a astúcia do discurso capitalista que consiste em   entrelaçar a dimensão ilusória e de salvação prometida pelo objeto com sua vacuidade de fundo. Ao sabor dessas  tramas e ardis, compramos ilusões de um mundo em que tudo é vendido, descartável, transitório, em que o desejo é objeto volátil, inconsistente, em uma relação maníaca de poder, destruição do diferente, aniquilamento da fraternidade, da tolerância. Mundo paranoico em que qualquer discordância ou diferença deve ser resolvida com leis de exceção ou com as armas de aniquilação, o incentivo ao armamento de cada pessoa. 

Diz Recalcati (2011): O homem maníaco é o protótipo do homem sem inconsciente. Sua condição de urgência, a rapidez obscena define essa mescla trágica entre a volatilidade perpétua e a tendência eminentemente mortífera que caracteriza este tipo de laço social. O caráter vago do objeto- seu destino caduco, sua obsolescência constitutiva- alimenta a insatisfação permanente a que o discurso capitalista responda com a  oferta do objeto como lugar de salvação que, sem dúvida, mais que salvar, reproduz aquela mesma circularidade que prometia romper. Em efeito, a mania é uma figura clássica da psicopatologia a que temos que considerar sua grande atualidade. Não casualmente Lacan descrevia a mania como um “ rechaço do inconsciente”. (p.32-33).

Sendo assim podemos pensar, essa tragédia do incêndio do Museu Nacional, como fruto de um acidente  que já tem uma explicação: foi causado provavelmente por um balão ou curto circuito, pela falta de manutenção de algum funcionário irresponsável. Quem sabe não seria até uma ato de sabotagem de forças ocultas, ou dos descaso de D.João VI que criou esse museu no Brasil, só para comprometer a imagem do atual governo? 

Como desabafa  Rui da Cruz Jr.- servidor do museu-  “se  eles pudessem nos queimavam junto com as paredes do museu, com o prédio em si, com as salas de onde  D.Pedro II reinou, com os corredores por onde transitaram os feitores da primeira constituição da república, se eles pudessem , nos queimavam.” 

Segundo discurso oficial, será preciso avaliar os fatos, apurar responsabilidades e punir os culpados. Afinal, depois de longa investigação, sempre se pode pedir  empréstimos aos Bancos internacionais e a iniciativa privada para reconstruir  o prédio e ... recolocar virtualmente, graças a tecnologia informações sobre o que havia ali, nos espaços agora fantasmagóricos, informações sobre o que era esse espaço de história do Brasil e da humanidade, claro, todo interativo. Afinal, logo, logo esqueceremos que hoje é um dia de luto porque ainda ARDE A HISTÓRIA E A MEMÓRIA DO BRASIL E DA HUMANIDADE.

 

 

Tecnologias, mídias e redes sociais. O que foi feito do: onde era o isso o eu deve advir? Por Sueli Santos stars

São inquestionáveis os benefícios que as tecnologias proporcionaram à vida moderna. Mas, para que chegássemos ao estado atual de evolução, não podemos esquecer que a utilização da inteligência humana não foi descoberta no século XXI; ela, a inteligência humana, criou as tecnologias.

Evoquemos tempos imemoriais, plasmados nas telas de cinema (mais um dos milagres da inteligência humana), quando o primata alfa lançou um grande osso para o alto, no espaço,  na épica cena do filme 2001 Uma odisséia no espaço. Esta cena revela o momento em que, com esse gesto, o macaco descobre sua capacidade de intervir sobre a realidade e dominar o bando, metaforizando o domínio do humano sobre  a natureza e o mundo futuro.

No entanto, eras foram necessárias, para atingir essa evolução. A descoberta do fogo; a criação de instrumentos e artefatos de defesa afinando pontas de pedras para atingir, a uma certa distância, inimigos potenciais ou animais; descobrir que a manipulação do barro poderia criar artefatos para conter água ou alimentos.  Seguramente, não se passou de uma era à outra com um clique; foi preciso mais tempo, milênios de transformações para chegarmos ao mundo  que herdamos.  

Como podemos ver, a tecnologia está presente na vida humana desde a era em que o primata originário iniciou seu processo de evolução lenta, e foi se transformando através de mudanças climáticas, de alterações produzidas por acidentes geológicos, até atingirmos estágios de  desenvolvimento dos processos civilizatórios. No entanto,  essas mudanças, por eras sucessivas, foram resguardadas ficando escondidas nas profundezas da terra, para só muito tempo depois explicar a existência e a evolução do humano na terra.

Só chegamos a acessar esses diferentes períodos de evolução da história da humanidade porque a natureza protegeu esses tesouros, quais sejam: restos de artefatos, ossadas, pinturas ruprestes. Marcas originárias da inteligência do homem primitivo, dos ainda não humanos. Esses verdadeiros tesouros foram descobertos nas entranhas de cavernas, escondidas por efeitos de terremotos, explosões vulcânicas e maremotos que determinaram as idades geológicas e produziram as formações e os acidentes geológicos tais como os sabemos hoje.

Com este pequeno escrito não pretendo fazer um estudo antropológico, arqueológico ou paleontológico, até porque não tenho conhecimento e competência para tanto.  Tento apenas refletir sobre meu estranhamento frente a insistente utilização da palavra ‘tecnologia’ nos dias de hoje. A tecnologia é invocada a cada momento como uma invenção milagrosa da supra, mega inteligência humana dos últimos séculos. 

Não podemos nos esquecer das descobertas desses achados, sob pena de revelar a falta de inteligência para interpretar os textos, registros históricos e os estudos da origem do mundo que habitamos. Tampouco podemos descuidar do conhecimento sobre a evolução do  desenvolvimento do homem e tudo que o envolveu, para que pudéssemos chegar ao que hoje somos.

Continuamente, algumas afirmações tautológicas sobre a irreversibilidade da comunicação das redes sociais, na contemporaneidade, parece desconsiderar que para chegar a esse desenvolvimento, houve um processo de acumulo de saberes, que nos remetem à história do conhecimento da humanidade.  Não tomemos o fim pelo princípio na construção dos saberes. 

 A criação das mídias em geral, e das redes sociais em particular, possibilitaram  uma nova forma de comunicação humana, tomando um caráter globalizado. Saímos do grito primal, que buscava assustar  e dominar um possível inimigo.  Nos comunicamos com agilidade com  aqueles que conhecemos, e tanto mais com aqueles não conhecemos.  Isso é um fato inegável.  Com essas ferramentas tecnológicas é possível fazer contatos, acessar conhecimento, trocar experiências, compartilhar os avanços científicos, o mundo todo ficou próximo e acessível. 

Fora do âmbito das ciências, das artes, das organizações  e sistemas sociais e políticos, a  agilidade da comunicação entre as pessoas, via as redes sociais, criou-se a possibilidade de estreitar distâncias.  Podemos nos relacionar, virtualmente, com qualquer pessoa em qualquer lugar, sem qualquer impedimento físico e/ou geográfico. Também é possível ‘encontrar’ pessoas, convocar encontros e manifestações políticas, fazer campanhas ou mesmo denúncias, tendo as mídias como  zona franca, sem barreiras.  Nos ´publicamos’ e exibimos em fotos, da unha do pé às mais pequenas intimidades. Todos sabem que ‘somos felizes’ e possuímos isso e aquilo, que viajamos, que fazemos aniversário, etc. Tudo se publica.

Com efeito, a inteligência humana ao mesmo tempo em que cria tecnologias inteligentes, a sua imagem e semelhança, pode passar a ser dominada ou dependente de sua criatura. A comunicação imediata, por descarga de excitação,  sem mediação de reflexão, ou elaboração, não deixa tempo para nenhuma depressão reconciliadora  entre um eu que se vê destituído de si mesmo e, não tem mais a quem culpar. Confundindo o virtual com o real, a ilusão da fusão narcísica não  dá espaço de discriminação possível entre um eu e um não eu.  

A maravilha de estar sempre ‘ligado’, sem perder nada, na compulsão do controle. Afinal, todos devem estar sempre plugados em várias mídias,  nos assegurando o ‘somos um’, na ilusão de completude. Tudo se pode resolver imediatamente, em rede. No entanto, qualquer pergunta ou resposta, quando esbarra na incapacidade do humano para gerenciar o sistema, se impõe ao próprio humano sua condição de castrado.  Ou pior, ao estilhaçamento  da imagem de um eu insipiente. Um euzinho...inho.

Nesses momentos, o mundo para.  Parece encapsulado na inapropriação de resolução de problemas por uma inteligência humana destreinada, por falta de uso, que só opera por  tentativa e erro. Então uma nova questão se revela: operar uma máquina, fazê-la funcionar,  necessariamente não significa saber como ela funciona? Dizem: a máquina está pensando, ou está lendo. O humano criador, espera; e quando a máquina se decidir... É ela quem decide restaurar, ou não, a comunicação. Parece que se existe um eu, este é da tecnologia autônoma, que resolve funcionar ou não funcionar.

Mas quando não é possível restituir seu funcionamento, a falta de acesso imediato a um objeto alvo, quer seja a pessoa amada, amigos, colegas de trabalho, etc, deixa o usuário da máquina infernal em estado de angústia, desamparo ou com sintomas de abstinente.  Não sabe o que pensar, pois afinal, está destreinado de pensar,  de questionar, de ter senso crítico, de duvidar do que lê ou ouve. Parece insuportável não ter, por exemplo, um telefone móvel junto ao corpo, ou ao alcance da mão para, a qualquer ‘movimento’ desse aparelhinho, podermos nos lançar dentro dele, para responder e esse som, ou demanda  chegada por cabos, fibras, satélites, sem fronteiras.

A falta de acesso imediato e contínuo ao Outro (com O maiúsculo), tomando aqui o conceito Lacaniano; ou de qualquer outro enquanto um  objeto  de desejo, via redes sociais e da milagrosa tecnologia reduz o sujeito humano a pura extensão de seus dedos. O humano submetido à máquina. Esta, a máquina, colocada como objeto de sutura da angústia e desejo de controle, remete o homem contemporâneo, ‘usuario’ das tecnologias, a se precipitar em uma queixa, inconforme por seu desejo de possuir o outro virtual a qualquer custo,  indissoluvelmente ‘ligado’ ao ‘toque’.

A tecnologia está aí para facilitar quê aspectos da vida humana? Se as relações estão definitivamente ligadas pelo destino das novas tecnologias, pergunta-se: Tendo acesso fácil e imediato ao acumulo de informações, de todos os campos do conhecimento, não precisaremos mais de escuta analítica?Nem precisamos pensar nos nossos sofrimentos causados por tanta solidão, pois acreditamos estar acompanhados virtualmente. Assim, estamos livres de ‘perder’ tempo para pensar, refletir e mesmo nos locomover até um consultório? As angustias serão descarregadas por sessões virtuais, imediatas, e de baixo custo claro? Haverá futuro para a psicanálise em um mundo tecnológico?

Não há por que se interrogar  mais sobre a clássica afirmação freudiana de que: onde era o isso e eu deve advir? Parece que não pois tudo está disponível via o mundo virtual. Não é preciso um eu que ponha questão ao mundo ou a si mesmo, haja vista que não há um ‘si mesmo’. Será assim? 

Por que ouvimos tanto que: a comunicação em rede é uma viagem sem volta? Tomando a rede como instrumento  ancestral de trabalho e não como metáfora, o estranhamento que se revela é que, no século XXI,  os pescadores  que lançam as redes ao mar para pescar,  cada vez mais,  encontram menos peixes.  O alimento tão antigo quanto o mundo, está sendo destruído pelos avanços das tecnologias que poluem os mares, ou criam navios capazes de extrair grandes quantidades de pescados para a indústria, sem respeitar os períodos de reprodução, desova e desenvolvimento dos peixes.  Exterminando a vida marinha, nas profundezas e nas suas riquezas de vida micro orgânica. O humano civilizado,  esquece que, com seus barcos tecnológicos, que visam o lucro,  independente da ação predadora que  cessa a vida no mar, consequentemente, destrói a vida que está fora dele.  Qual o limite a ser estabelecido entre a inteligência e o uso inteligente das tecnologia, que não seja destrutiva da inteligência humana? Mas isso já é  outra história. Será?

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra

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Na parede da memória - Por Sueli Santos stars

Caro leitor, um mês atrás, da ultima vez que escrevi nesta coluna, pensei que seria difícil encontra algum outro tema que pudesse inspirar algum horizonte menos cinzento. Por que? Acredito que por efeito do que abordava sobre o tema do Luto e Melancolia, texto de Freud (1917[1915]) que eu tomava como guia para reflexão. Apesar de nos ensinar sobre esses dois conceitos e sobre as dores do existir, parece que fui afetada pela releitura dessa obra. Se produziu uma profunda saudade de tempos em que os sonhos ainda estavam no limite da crença em um futuro mais promissor, de conquistas de liberdade, dos valores de fraternidade, solidariedade estava ao alcance de nossas mãos.

Nos tempos que correm atualmente, temos tidos muitas perdas, um precipitado de acontecimentos que, por vezes, têm jeito de pesadelos. Não acredito que haja alguém que não se interrogue: que tempos bicudos são esses? Em quem confiar? Onde reencontrar a verdade da ética das relações? Qualquer tipo de relação: amorosa, profissional, de convivência entre iguais e/ou opositores. Sim porque é possível e preciso que a tenhamos ética e respeito entre iguais e opositores.

Dostoievski nos disse: se Deus não existe, tudo é permitido. Entendo essa frase no sentido que, se não há lei, pois cada um faz sua própria lei, não há nada que normatize as relações. Então tudo é permitido.

No contraponto dessa afirmação, Lacan, psicanalista Frances, nos ensina: Se Deus não existe, tudo é proibido. Isso porque, se Deus não existe, não há uma lei justa que regule as normas de convivência e seus excessos. A conseqüência disso é uma tragédia, afinal a humanidade pode ser destruída por sua irracionalidade.

Não há limite para a barbárie, isso é equivalente a violência selvagem. Em outras palavras, é a instalação do fascismo. Já tivemos essa experiência histórica nas conquistas territoriais ao longo da humanidade, nas duas grandes guerras de proporções continentais, ou nas guerras ditas religiosas com sua lógica de terror.

Atualmente as novas formas de guerras híbridas, que produzem extermínio, estão no controle dos mercados. O Deus mercado que tudo pode, no anonimato das manipulações e alianças com as mídias, com as tecnologias, com o capital financeiro internacional, com a justiça para poucos, ou seja, a justiça executada pelos donos da justiça a revelia da lei a que todos devem estar submetidos.

Esse estado de exceção, esse sem limites, pode destruir as economias emergentes e asfixiar os povos para manter a hegemonia mortífera e escravocrata do domínio e do poder de uns poucos, uma minoria sobre a maioria da população à margem do poder econômico e dos jogos de mercado econômico.

Isso aplasta, nos produz um sentimento de nadificação, de fragilidade emocional, corações e mentes se esfumaçam. É repetir, como nos esclarece Freud: “O Luto, de modo geral, é uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante .”(FREUD. 1917,p.249).

O luto é um sentimento frente a perda de alguém que nos é significativo, nos é referência, que admiramos. É um pouco o que sentimos atualmente, quando temos perdido tantas pessoas importantes; temos perdido tantos direitos adquiridos na luta dos trabalhadores, do respeito a constituição e da justiça para todos. Importante entender que estamos perdendo o elo com nossos sentimentos mais profundos com uma história construída a muitas mão, por longos anos.

Parece não haver mais espaço, no mundo atual, para a esperança, para a poesia e para os poetas. Não há mais tempo para ouvir e cantar canções de amor, para falar sobre a nossa ingenuidade de quando havia galos, noites e quintas.

Como resolvi refletir aqui sobre perdas, não esqueçamos que vai fazer um ano que perdemos Belchior. Compositor, poeta nordestino, mas antes de tudo brasileiro, que viveu e partiu da vida aqui no sul. Seu profundo sentimento de amor pela vida, pelas experiências e a aventuras que o tornaram um viajante, um navegador, um andarilho e o trouxeram para cá.

Em sua obra poética, sempre nos comoveu com sua fina sintonia com a beleza e a dor do existir. Com suas baladas dissonantes, com andamentos e ritmos desconcertantes, não nos deixava esquecer que já havíamos vivido, e que ainda continuamos vivendo, períodos de tantas lutas, mentiras, guerra que levam de nós tanta gente em campos de batalhas, em lutas ideológicas, em intolerância, em preconceito.

Também nos falava da violência da ignorância, do terrorismo dos estados de exceção no nosso continente e em nosso país. Lembrava dos desaparecidos, da invisibilidade, da solidão das pessoas dessas capitais, do corpo que cai do oitavo andar, dos humilhados dos parques com os seus jornais, perdidos na noite.

Revelava em sua obra que, na repetição mortífera de velhas histórias vividas por nós, quando ainda não havíamos tido tempos de saber o que éramos, resultava em sermos representantes de outras histórias. Sem sabermos que somos iguais àqueles que criticamos, quando diz: “ Minha dor é perceber, que apesar de termo feito tudo o fizemos. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. “  

Ele escancara que:” Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que me dói mais.” Em seus versos, podemos lembrar do que nos falta a cada dia e para sempre. Isso nos faz lembrar que faz um mês que perdemos Marielle, e nada foi apurado. Que perdemos a conta de tantos anônimo, pretos, pobres, jovens sem esperança, sem registros, sem cidadania, sem trabalho, sem tetos que perdem a vida a cada dia, fazem parte de uma estatística de humanos. Desumanizados pela nossa indiferença quando acreditamos que isso não nos diz respeito, ou está fora de nossa compreensão ou interesse.

Seguem as canções de Belchior nos lembrando, e tocando na ferida quando aponta: “Nada é divino, nada é secreto, nada é misterioso. A vida realmente é diferente. Quer dizer: Ao vivo é muito pior.“ Escutemos mais o poeta, lembremos suas músicas, pensemos sobre seus versos que buscam nos alertar que tudo, absolutamente tudo, nos diz respeito, e finalmente, não esqueçamos que também nada deve nos demover de que: “amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas, me interessam mais.”

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra

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20º LUTO E MELANCOLIA stars

O texto de Freud, Luto e Melancolia (1917[1915]) nos esclarece a diferença entre estes dois conceitos que nos afetam e que, nem sempre sabemos diferenciar. Por isso, nosso sofrimento se torna mais intenso, sem entender sobre o que exatamente nos produz tanta dor, mas tanto o luto quanto a melancolia envolvem uma perda. Perde de/do quê?

Nos esclarece Freud: “No Luto, de modo geral, é uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante .”(FREUD. 1917,p.249). O luto é superado com o passar do tempo e não se pode considerá-lo como algo patológico

O luto é um sentimento frente a perda de alguém que nos é significativa, nos é referência, que admiramos. É um pouco o que sentimos atualmente, quando temos perdido tantas pessoas importantes. Uma delas em especial, uma mulher lutadora, trabalhadora, que de forma corajosa batalhava por uma sociedade mais justa e democrática. Gostaria de falar sobre Marielle Franco, socióloga, militante dos Direitos Humanos, feminista, líder comunitária, organizadora dos movimentos em prol da cultura e das artes das comunidades pobres do Rio de Janeiro e moradora da favela da Maré.

Marielle vinha denunciando as arbitrariedades que estão acontecendo na intervenção atual das policias militares e federais, que promovem revistas de identificação das pessoas, moradora dos morros no Rio de Janeiro, a título de um controle dito de organização de um laboratório de informações para ações policiais que deverão ser estendidos a todos os Estados do país.

Mas se Marielle não é daqui, porque o sentimento de luto por sua morte? Porque ela representava a voz de todas as mulheres, das trabalhadoras, das mães que perdem seus filhos por balas perdidas, ou sumária execução por seus filhos estarem na rua. Marielle representava as mulheres negras, os movimentos negros, os pobres, do desempregados, os sem direitos garantidos.

Marielle era vereadora, Socióloga, Mestre, uma mulher das ciências, da academia, da cultura.   Ela é morta em uma emboscada covarde. Executada por quem queria calar suas denúncias e exigência de justiça por tanta violência. No dia 14 de março de 2018, o Brasil ficou mais uma vez enlutado.

O massacre cotidiano pelo qual a população pobre, negra segue sofrendo pelos excessos da ação repressiva do Estado, não tem relação com o combate à traficantes. Mas é preciso criar uma ação terrorista contra a população para que ela não possa se insurgir, reagir contra todas as mazelas pelas quais vêm passando.

Então, o luto em que mergulhamos, enquanto povo brasileiro é por Marielle e por tantas outras Marielles, Marias, Clarices, Leticias, Marisas, Zuzus, Dolores, que a cada dia enfrentam também outro tipo de morte. Ou seja, morrem de medo, o que representa uma morte de sua crença na possibilidade de poder sonhar em ter um dia comum, como em qualquer país civilizado em que as pessoas têm direito a estudar, trabalhar, ver sua família florescer, se divertir, progredir economicamente, intelectualmente, com igualdade de oportunidades, poder ser protagonista de sua própria vida, sem medo.

E aqui, já falamos de melancolia, ou seja, de um sentimento de perda de algo que não se viveu, mas que se sabe que em algum lugar, essa vida imaginada, sonhada foi vivida ou é vivida por outros que não somos nós e, nós perdemos a oportunidade de vivê-la. Mas como só vivemos imaginariamente essa vida que não nos pertence, sonhamos o sonho dos outros, ficamos à deriva, no desamparo de algo que não se viveu e não somos nós.

Esse sentimento de perda de algo que não se viveu, nos despotencializa, nos fragiliza, nos rouba o futuro porque essa história vivida em algum outro tempo, talvez em um passado que não nos corresponde. Então estamos sem perspectivas no presente, melancolicamente. Adoecemos de desesperança. Sem valor, incapazes de qualquer realização e moralmente nos sentimos desprezíveis.

E mais, nos diz Freud: “O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto - uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego.”(FREUD.1917,p.251)

A tristeza e o luto da perda de alguém como Marielle, no entanto , vai passar porque é preciso honrar sua história, sua luta, sua força, sua coragem de lutar pela igualdade de direitos, pela democracia, pela liberdade de expressão, pela alegria de viver com liberdade. Sigamos, somos todos Marielle.

Retorno da esperança não é o mesmo que ficar esperando: ainda sobre as razões do inconsciente - por Sueli Santos

No texto anterior, relembrei um trecho da obra: O chiste e sua relação com o inconsciente (FREUD. 1905) para dizer de sua atualidade. Esse texto faz um profundo e detalhado estudo sobre as manifestações dos conteúdos do inconsciente, que apesar das forças do recalcamento, resultantes de marcas traumáticas, das censuras, da repressão, ele, o inconsciente, vai buscar alguma via colateral para alivio e vazão do que produz sofrimento, desprazer.

Como o inconsciente faz isso? De muitas formas, uma delas é o chiste. Mas temos outras formações do inconsciente, como por exemplo, os atos falhos, os esquecimentos, os equívocos, os sonhos, os sintomas. Para esse texto, vou me debruçar um pouco sobre o chiste, que via linguagem, em suas múltimas formas de expressão, irrompe desavisadamente. Instrumentado pelas palavras, pelos ditos ou em muitas manifestações artísticas, podemos identificar o chiste como vias colaterais, ou vicinais, ou marginais de escoamento do que estava recalcado, interditado, mas que pelos capilares caminhos do inconsciente trazem à tona os outros sentidos possíveis das palavras. Nas alegorias, na poesia, na literatura, nas sátiras encontramos com facilidade o uso do chiste, que é distinto do cômico e também diferente da piada.

Além disso podemos aprender que a linguagem, enquanto forma de expressão em diversos sentidos, pode ser estudada através de expressões artísticas de todos os matizes. Mas não só. A palavra, seja ela falada ou escrita, é um dispositivo subjetivo, uma expressão do inconsciente em sua implicação com os contextos e a forma como vivenciamos estes contextos. Por isso, dizemos muito mais do que pensamos dizer quando falamos. Mas aqui já estamos apontando outra diferença. Não é a mesma coisa a linguagem, a palavra, a fala.

Credo! Como assim? Muita calma, devagar, para não nos perdermos de nosso eixo, o chiste. Não é tão difícil de pensar. Retomemos o recorte que já foi transcrito anteriormente do texto do Freud. O recorte é: ”As palavras são um material plástico, que se presta a todo tipo de coisas. Há palavras que, usadas em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.”(FREUD. 1905.p,41)

Vamos por partes, como diria... um vampiro sugando a jugular do povo.

Ai alguém pode dizer: Ah, de novo essa história do carnaval, da Tuiuti! etc.

Calma, afinal água mole em pedra dura... respinga pra todo o lado!

Aqui temos dois exemplos de chiste, ou seja: “Há palavras que, usadas em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.”(FREUD. 1905.p,41)

No primeiro exemplo, damos novo sentido ao dito: Vamos por partes, diria Jack o estripador. O segundo, se espera o dito popular: Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Assim, ao romper o sentido esperado e culturalmente consagrado, cria-se um novo sentido que produz a reação de surpresa ou o inusitado. Isso tem o valor de um chiste, algo engraçado porque desconserta e oferece o rompimento do sentido já determinado, abre outras ligações possíveis.

Então, quando no texto anterior, se falava de retorno da esperança, não se trata de passividade, ou ficar esperando, ou da ingenuidade de acreditar que uma mudança virá de uma alegoria, ou de um chiste, ou de uma leitura semiótica sem conseqüências sobre a realidade e as forças de poder que sobre ela, a realidade, se impõe pelos donos do dinheiro, ou das mídias ou das estruturas de estado.

Mas a esperança de que se trata, para cada um, o que fez sentido a cada um que viu o desfile da Paraiso do Tuiuti, tem motivações de ordens diferentes. Produziu um efeito de chiste, talvez. Abriu novos sentidos, dizendo coisas que tantos gostariam de dizer, ou entender o que acontecia no país e não sabiam como formular. A Paraiso da Tuiuti, descobriu um jeito de esclarecer com seu bombardeio semiótico.

Por que semiótico? Porque a partir da decifração dos signos, dos sistemas de significação, dos sinais da asfixia da concessão da embriagues da festa dos pobres, ou festa para gringos verem, o desfile desmoralizou outro mito. O carnaval como pura alienação concedendo aos pobres alguns momentos de reconhecimento e holofotes, de “liberdade e bondade cruel “, como diz o samba da Escola, pudemos desconstruir um discurso midiático amparado, financiado e imposto à milhões de brasileiros.

Foram decifradas mentiras dos três últimos anos que a cada dia, orquestrado pelos patrocinadores do desmonte de nossas conquistas de direitos, da manipulação dos valores culturais, como um mantra, impuseram muitas ou meias mentiras como verdades e máximas morais. A casa caiu.

A exemplo disso, a para e passo, as organizações midiáticas que detém os direitos de transmissão do carnaval para o país e para o resto do mundo, juntamente com o empresário que patrocina a Escola da Beija Flor, apresentaram um enredo com o discurso do patrimonialismo, mostrando uma sociedade de bandidos, corruptos, que desmonta nosso patrimônio público, roubam, matam inocentes nas escolas, nas ruas. Tentando com esse enredo enredar a todos em sua trama moralista e sem mácula. Afinal, os meios de comunicação e os bons empresários, não têm contas em paraísos fiscais, nem sonegam impostos, também não compram direitos de concessões.

O desconforto imposto pela primeira escola, que surpreendentemente escancarou a denúncia das manipulações, rompeu um silencio que se impunha frente às falsas verdades. Nesse desfile irrompeu, a verdade fez furo no muro da mentira. O desfile da Tuiuti, que precedeu a Beija Flor, e construiu a libertação das palavras proibidas pelas mentiras oficiais com relação a uma leitura da realidade social dos últimos três anos, surpreendeu os organizadores da festa, denunciando para o mundo o que não poderia vir à tona.

Quando falo de retorno de esperança, se trata de relembrar uma verdade do inconsciente, qual seja, que novos sentidos sempre são possíveis de emergir, que as verdades inconscientes, via palavra surgirão, não importa o tempo que for necessário. O que era proibido dizer, ou pensar, não pode mais ser amordaçado ou não entendido. Isso não muda o passado, mas resignifica os efeitos dessa libertação no que se segue.

Exemplo, o desfile de premiação das duas escolas, Tuiuti e Beija Flor, neste final de semana, seguiu repercutindo no mundo, na medida em que Leonardo de Morais, professor de história que representa o Vampirão presidente, foi proibido de desfilar com a faixa presidencial. Quem proibiu?... a ordem foi: ou desfila sem a faixa ou não desfilará. O Vampirão desfilou sem a faixa presidencial. Mas de qualquer forma, o estrago já estava feito. A faixa esta lá, em ausência, na presença do estranhamento da falta. E não há nada, nem ninguém que não enxergue mais a verdade das mãos que manipulam o país no ultimo carro alegórico da Paraiso da Tuiuti.

Quando falo do retorno da esperança, se trata de não esquecer que, para o inconsciente, nada fica impune. Sempre virá à tona, assim como sempre faremos destes gestos de aparente fragilidade a resistência à impunidade. A verdade prevalecerá, e quanto mais tentarem justificar, mais mentiras virão à tona.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa/Serra

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Freud continua com razão, com a "PARAISO DO TUIUTÍ”, retomo a esperança.

Depois do último Natal, quando se comemorou, mais uma vez, o nascimento de Jesus, minha inspiração para a escrita deu uma travada. Apesar do renascimento que a data propõe, havia um sentimento de perda de esperança. Afinal, a realidade que vivemos não parece muito promissora em termos de um futuro próximo, de acreditar nos valores civilizatórios, do respeito ao direitos humanos, do valor das liberdades conquistadas pela legitimidade da democracia.
Mas o que isso tem a ver com Psicanálise, com as questões da subjetivação, do sofrimento psíquico, com o inconsciente? Tudo. Somos seres sociais e emocionais, e o que se passa no nosso cotidiano, tanto em particular como no campo social, nos afeta. Tanto nos afeta no sentido de nos impulsionar, estimular, trazer força e esperança, como o seu contrário, a desesperança, a perda de crença em nossas conquistas e capacidade de luta contra as (in)justiças.
É quando, passando por um processo e sentimento de desamparo, fazendo a sistemática avaliação de fim de mais um ano sombrio do ponto de vista do esfacelamento dos três últimos anos da história de nosso país, retomei a leitura do texto: O chiste e sua relação com o inconsciente (FREUD, 1905). Um clássico, e deve ser lido por aqueles que querem entender sobre a força da insistência do inconsciente pela palavra, pela linguagem, tanto no enfrentamento como  na superação de todo tipo de opressão.
Transcrevo aqui um fragmento do texto que diz: ”As palavras são um material plástico, que se presta a todo tipo de coisas. Há palavras que, usadas  em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.” E exemplifica: “Um chiste de Lichtenberg isola cuidadosamente as circunstâncias em que as palavras esvaziadas são levadas a recuperar seu sentido pleno: ‘” como é que você anda?”-perguntou um cego a um coxo. “Como você vê”-respondeu o coxo ao cego”’.(FREUD. 1905.p,41)
Com o desfile de ontem, 12 de fevereiro de 2018, da Escola de Samba Paraiso do Tuiutí, com o tema: Meu Deus! Meu Deus! Se extinguiu a escravidão? A comunidade faz uma releitura da história da escravidão na história do mundo. Trazendo o tema até nossos dias, conclui com forte resignificação  o momento do Brasil atual, onde a escravidão se reveste de outras formas. Quando o povo trabalhador segue preso em correntes, oprimido com a perda dos direitos trabalhistas, quando a informalidade do trabalho e a exploração no campo e na cidade impõem  a humilhação do homem e retira suas conquistas.
Em forma de alegoria, uma inspirada alegoria aliás, a Escola mostra nas últimas alas, a manipulação de uma parte do povo, agora branco, como bonecos, títeres, controlados pelas mãos com fios de controle  do poder econômico, pelos meios de comunicação aliados às forças do dinheiro e das elites.
Os fantoches vestidos de patos, símbolo emblemático dos donos das Indústrias e do centro financeiro da capital paulista, são manobrados  batendo panelas alegremente, sem se dar conta que  fazem parte  do mesmo jogo de exploração e quem sabe, escravos da ilusão do poder branco.
Metáforas sobre uma realidade que nos afeta à todos e que os carnavalescos, amparados em um forte enredo para contar essa história, puxados por uma música contagiante e poesia emocionante, conseguem trazer para a avenida uma síntese precisa, clara e bem humorada, uma sinopse da nossa história recente, sem ser leviana ou superficial.
 Eficiente, inteligente e sem mordaça, haja vista que foi filmada,  e via satélite, enviada para o mundo inteiro por uma rede de comunicação que vem, aliada aos sistemas de poder, manipulando corações e mentes, entorpecendo  boa parte da população que se veste com a camisa da seleção brasileira,  e cobertos com a bandeira como manto, como se fosse esse o maior ato de resistência e patriotismo dos puros, brancos e da honesta elite. Patos que não se entendem como parte dos explorados.
A esperança me volta.  Freud tem razão,  a palavra, a linguagem nos liberta. O mutismo dos comentadores televisivos aumentava à medida em que a Escola avançava e ia implicando a todos nessa história da manipulação midiática, à medida em que as arquibancadas cantando, aplaudindo, soltavam o grito até então que estava entalado na garganta.  Esse desfile do povo na rua, protagonizando o maior espetáculo da terra e o canto ensurdecedor das arquibancadas, instantes apoteóticos que  me trouxe, e a muitas pessoas, a esperança de volta.
A mordaça imposta pela Escola aos meios de comunicação, promotores das farsas, do arbítrio, do desrespeito por nossa história de conquista da democracia, surpreendeu e paralisou as vozes dos comentadores,  impedidos de desligar ou interromper o sinal do satélite. O povo das comunidades tem muito a dizer, a ensinar como se resiste com alegria, bom humor e sem ofensa, sem violência, sem ameaça.  E esse povo termina seu canto dizendo:
Meu Deus, meu Deus; Se eu chorar não leva a mal; Pela luz do candieiro; Liberte o cativeiro Social.
Obrigada Paraiso da Tuiutí e obrigada ao carnavalesco Jack Vasconcelos.  Obrigada compositor Moacyr Luz por sua música e poesia dignas, e finalmente,  como não poderia deixar de dizer,  obrigada por nos ensinar tanto sobre a força da palavra e da linguagem, Freud.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra
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Afinal, é Natal!

Mais uma vez é Natal. Comemoração da vida, do nascimento. Como se chegou a essa data emblemática e universal não está muito claro, mas temos muitas versões. Entre elas que o dia do Natal, 25 de dezembro, foi estipulado pela Igreja Católica no ano de 350 através do Papa Julio I, que propõe esse dia como comemorativo do nascimento de Jesus. Mas o que garante que a data do calendário atual tem correspondência a uma história que nos foi contada pela interpretação de escritos não muito precisos?  

Sabemos que, pela bíblia, não temos uma data exata do nascimento de Jesus, tampouco o Natal  fazia parte das tradições cristãs em princípio. Acredita-se que a celebração do Natal vem substituir a festa pagã da Saturnális,  que acontecia entre 17 e 25 de dezembro, como uma tentativa de facilitar a aceitação do cristianismo entre os pagãos. Outros estudos afirmam que Jesus teria nascido em Abril sendo esta data  modificada para 25 de dezembro pelo imperador Romano Constantino para agradar os cristãos. Também encontramos, descrita na bíblia, anterior a essa determinação imperial ou papal, nos evangelhos de Mateus e em Lucas, relatos sobre o Natal e o nascimento de Jesus.

No entanto, independente do significado religioso e cristão desta data enquanto uma comemoração universal, esta data não corresponde a uma verdade absoluta, haja vista que nem toda a humanidade compartilha da mesma fé cristã. No tempo em que vivemos, com tanta intolerância e que lutamos pelo respeito às diferenças, isso não pode passar sem reflexão. Afinal, é Natal.

Mas há algo universal na humanidade. É a necessidade de acreditar em algo, em uma fundação e em um Deus que justifique nossa existência como ela se apresenta. Nós, humanos, buscamos origens, sentidos, destinos, um conjunto de dogmas, ou crenças que nos garantam o sentido de existência e do estar nesse mundo. Mas não é possível seguir justificando o mundo em que vivemos, tendo como origem uma única fé e, supô-la verdadeira. Quanto à fé, cada povo tem a sua, e para cada um é a que dá sentido e verdade norteadora a sua existência. Portanto, não nos cabe duvidar da fé de cada um, o que expressaria nossa intolerância à diferença de credo. Afinal, é Natal.

Como universalmente, cada dia é um novo dia, marcado por nascimentos e mortes, o mistério da vida poderia ser pensado e vivido com o que se chama “espírito de Natal”, todos os dias. Assim, cada dia, poderíamos exercitar a tolerância, a solidariedade, a fraternidade, o cuidado com as pessoas, os vizinhos, os amigos, os parentes. Também se poderia reavaliar as situações difíceis e de desafetos sob vários ângulos, não super-dimencionando os desencontros e deslizes nas relações. Poderíamos então comemorar esse Natal diário não comprando presente, mas celebrando ter ganho mais sabedoria e sensibilidade para a vida, como ela é, a cada dia. Afinal, é Natal

Embora só possamos viver o presente, insistimos em buscar uma referência em experiências de nossa história, de nossos antepassados, em nossa herança genética, cultural e afetiva.  Atribuímos muitas vezes a esse passado a possibilidade ou impossibilidade de um futuro. Esquecemos que, construir uma nova história, sem colocar como impedimento a origem em que estamos implicados, só está comprometida por nossa indolência em cuidar do próprio presente. 

Embora só tenhamos um dia de cada vez para viver, insistimos em materialmente significar nosso amor, acumulando objetos, bens materiais móveis e imóveis, como se isso atestasse o quanto melhoramos em nossa humanidade. O paradoxal é que embora saibamos que a finitude é o que marca cada tempo vivido, seguimos fazendo planos para amanhã, e assim também acreditamos que amanhã podemos ser melhores ou a vida será melhor. 

Afinal, como é Natal, proponho que façamos um exercício de tolerância com nossa fragilidade, com nossas falhas, como nossa humanidade a cada dia. Quem sabe assim, a intolerância com nossa própria frágil humanidade, simplesmente se reverta em tolerância e nos fortaleçamos no renascimento de cada dia. 

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra

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O Prazer do Encontro Com os Beatles em São Chico - por Sueli Santos

Acredito que todos que estiveram no Beatles Weekend, mesmo que por algum momento, como eu, ainda sintam reverberar o que ali se passou. A alegria, a comunhão, o sentimento de pertencimento a uma história vivida nos anos sessenta, não era apenas fruto de saudosismo. Mas algo de revivência de um momento de total mudança na vida de muitas pessoas que estavam ali e haviam participado das mesmas experiência e emoções em diferentes lugares no Brasil e no mundo, através do som e dos versos dos “cabeludos” ingleses, e que afinal nem eram tão cabeludos assim.

A revolução que a música dos Beatles produziu na geração dos anos sessenta e nas posteriores, não parou no tempo, é universal e um clássico, porque é atemporal. Isso ficou claro com a mistura de pessoas de todas as idades cantando e se embalando ao som de suas recordações, de suas histórias e de novas resignifiações, pois os pequenos e os jovens já escutaram, em algum momento, de seus pais, tios ou avós algumas daquelas canções.

Por outro lado, quanto ao evento em São Chico, a novidade foi a alegria do sentimento de estar fazendo parte, nesse momento, de uma virada histórica da cultura da cidade. Principalmente, esse encontro tão valioso nos fez sentir que não havia acontecido só mais uma evento na cidade, mas que São Chico tinha uma novidade. Uma proposta cultural que aponta para um outro valor que não é do consumo frenético, mas que cultura é parte do prazer com o convívio, com a natureza, com a reverência aos valores que reúnem não um espetáculo de fantasias, mas de convívio e sensibilidade, coisas que não são consumidas, mas compartidas. Que o prazer pode estar no convívio, no encontro, na descoberta da simplicidade como algo que não tem fronteiras e poder reunir gente de muitos lugares e fazê-los sentir-se em casa.

Quanto a isso, ser capaz de acolher as pessoas de fora da cidade, tornar o simples algo especial, surpreender o olhar com o vai e vem da névoa, com a oscilação do frio e calor, com a luminosidade do final de tarde, com a cantoria da passarada e os sons do ‘mensageiro dos ventos’ que repicam nas sacadas e entradas das casas, tudo isso faz o mistério e o encanto de São Chico. Porque essa simplicidade nos avisa: aqui a vida está sempre em movimento, embora, contraditoriamente se ouça muito que: “aqui o tempo parou”.

Eu diria: aqui em São Chico, o tempo é natural, segue seu curso e nos obriga a reavaliar se é preciso correr como o Coelho de Alice, acreditando estar atrasado e esquecendo que a vida tem seu tempo próprio.

A homenagem aos Beatles, me parece, foi um retorno não a um sonho de amor, fraternidade, liberdade que acabou, se perdeu no passado. Esse encontro só poderia acontecer aqui, onde esses sentimentos estão ligados a vida, ao essencial da vida, que é universal e eterno como os Beatles. Que venha o próximo Beatles Weekend e que não percamos a essencial simplicidade do encontro, isso não tem preço.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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O Desafio - Descobrir A Sua Verdade - por Sueli Santos

São muitos os mitos sobre os efeitos e a quem se destinam os tratamentos psicológicos. Também são muitas as práticas e técnicas de tratamentos, sendo muitas vezes considerados como equivalentes, posto que tratam de questões emocionais, sofrimento psíquico. No entanto se existem muitas modalidades de tratamento é por que não são exatamente iguais os sofrimentos, suas origens e causas. Assim como não se pode tratar da mesma forma todas as pessoas e todos os sofrimentos.

Ainda parece circular o equívoco que postula: tratamento psíquico é coisa para loucos ou gente sem força de vontade, gente fraca, que não sabe resolver seus problemas e não têm fé, por isso adoecem. Convido àqueles que lerem esta coluna, a pensar que buscar entender o que produz o mal estar psicológico, o sofrimento que se repete sempre da mesma forma em suas vidas, aquilo que com certa insistência se reproduz em suas escolhas, ainda que já saibam que escolhem sofrer, têm uma raiz profunda e esconde uma verdade outra, encoberta desde sua origem.

Neste escrito escolho falar sobre o trabalho da Psicanálise, pois este é meu trabalho. A Psicanálise é uma modalidade de tratamento criada por Freud, e que se destinava a investigar e escutar o sofrimento das pessoas desde os finais do século XIX. Em plena era vitoriana, Freud descobriu que parte do sofrimento que acometia as pessoas tinha origem em sua história infantil e era marcada pela teorias sexuais infantis, ou seja, sobre os efeitos da repressão sexual marcada pelo prazer e desprazer.

Dizendo de outra forma, o que produz prazer e/ou desprazer em período muito precoce do desenvolvimento de um bebê, quando esse só tem possibilidade de sentir em seu corpo essas impressões, mas não tem como discriminar o que o satisfaz ou o que o ameaça. Pode ser interpretado como amor e prazer no primeiro caso, ou de abando, morte ou desamor no segundo caso. Por não ter condições de perceber a diferença entre uma coisa e outra, nem ter como discriminar o sentido das palavras que falam os adultos, o psiquismo do bebê criará seus sentidos que não correspondem ao que lhe é dito pelos pais ou quem cuida dele.

Isso já se inscreve antes de a criança ter conhecimento da diferença anatômica biológica entre menina e menino. Portanto, quando falamos de teorias sexuais infantis não estamos falando exclusivamente da diferença genital, mas de marcas de prazer e desprazer no corpo físico e no que chamamos de aparelho psíquico. Não temos como controlar como se inscrevem as relações de cuidado com a criança e como nossos cuidados lhe produzem prazer (leia-se: amor, aceitação, aprovação, proteção) ou desprazer (leia-se: desamor, abandono, rejeição, ameaça de morte).

Quando não se tem as palavras para expressar o que se sente, o que angustia, o que ameaça, o que acalma, o que ampara, as reações do bebê podem sinalizar como ela sente nosso cuidado, nosso toque. Mas será uma interpretação do adulto que cuida da criança, que pela linguagem adulta e por sua própria referencia enquanto adulto dará sentido às reações do bebê. Daí a importância de se pensar que é na relação com os pais ou cuidadores que as primeiras experiências de satisfação e insatisfação, prazer e desprazer se inscrevem no bebê. E por essa dependência e precariedade de um aparelho psíquico tão frágil dos cuidados de outros, irá se organizando a relação com o mundo, com as demandas de afeto do mundo familiar em um primeiro momento. Esse mundo familiar é o precursor da relação com o social, como os outros agrupamentos humanos.

As dificuldades de interpretação dessa leitura de mundo, com tantas exigências, valores, contradições, expectativas, preconceitos, medos já vividos na história afetiva pelos adultos, serão determinantes como modelo do que ensinamos a nossos filhos. Muitas vezes dizemos: meus filhos não vão passar pelo que passei; quero outra vida para meus filhos; não vou fazer com meus filhos o que fizeram comigo; quando tiver filhos eles terão outro destino não serão como eu... Mas será que sabemos o que os filhos vão querer fazer de suas vidas? Ou cuidamos e educamos os filhos como se fossem pura extensão de nossa história e assim os encurralamos em nossos sentimentos de fracassos ou fantasias de sucesso?

Então entendamos que falar de repressão sexual não tem a ver apenas com poder ou não poder ter relações genitais, mas tem a ver com a proibição ou permissão em ter prazer na descoberta do que fazer com sua vida, com o direito a ter curiosidade em saber como a vida é, o que eu sou capaz de sentir com essas descobertas, o que posso transpor das dificuldades que a vida me apresenta. Por exemplo, quando me dizem: “meu filho nunca se machucou porque não deixo ele subir em uma cadeira, ou andar de escorregador, ou usar o talher para comer, ou tentar tomar banho sozinho por que não se limpa direito, etc”; o que escuto é que não vejo meu filho com condições de ser alguém que aprende com sua experiência suas possibilidades, que não descobre seus limites, não sabe fazer escolhas, que não sabe nem pedir ajuda pois não discrimina que é uma pessoa em separado, diferente de seus pais ou cuidadores.

Quem sabe possamos entender assim que uma criança criada dessa forma tão indiferenciada de seus pais ou familiares, ou cuidadores, quando pessoas adultas, sem saber sua verdade, ou seja, o que é dele, o que é dele enquanto  ser subjetivado,  se coloque como eternamente dependente de quem quer que o olhe. Talvez acredite que o mundo tem obrigação de suprir suas necessidades de amor e sobrevivência se mantendo na condição de bibelô, de objeto de decoração, a espera de um novo lugar de exposição de sua incapacidade de sobrevivência, sem se enxergar como alguém que se acredita capaz de viver sua verdade enquanto ser como é e que isso tem um valor.

A psicanálise se ocupa de escutar o sofrimento psíquico desde as historias mais primitivas da construção da subjetivação das pessoas. Por isso é diferente a sua forma de tratar as dores emocionais, retomando estas construções. Não se trata de olhar a vida olhando o retrovisor. Se trata de buscar entender, pesquisar, como se foram formando os sentidos e as interpretações que foram sendo construídas ao longo da vida das pessoas e o quanto isso os impedem de nomear e assumir sua verdade enquanto ser. O desafio em psicanálise é procurar e descobrir a sua verdade.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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O Desafio - Divulgar, Registrar, Publicar - Por Sueli Santos

Muito se fala sobre perversão. A frequência com que esse termo vem sendo empregado em todos os meios de comunicação se justifica. A utilização da palavra indiscriminadamente define ou equipara seu sentido à transgressão, comportamentos anti-social, violento, anti-ético ou imoral, podendo também ter suas versões de ordem fetichista, masoquista, sádica, exibicionista, entre tantas outras. Em geral o termo perversão vem sendo usado para apontar ou classificar aqueles que não respeitam os direitos dos outros, que desafiam a lei e os valores sociais.

A perversão não é apenas atribuída às pessoas que são marginais, ou de camadas mais pobres da população. O comportamento perverso também pode ser identificado nas classes mais abastadas, em pessoas que são privilegiadas, com cultura, educação e que jamais tiveram ou sofreram qualquer tipo de carência ou de discriminação. Portanto, não é decorrente de uma classe social específica.

Então se dizemos que é um comportamento, estamos falando de algo que se inscreve como um elemento constitutivo da personalidade. Algo que foi estruturado ao longo do desenvolvimento da pessoa. Está na origem da estrutura de sua subjetivação, independente da formação familiar, das condições sócio-econômicas ou culturais, também não tem a ver com a etnia, credo religioso ou opção sexual.

Em qualquer grupo social podemos identificar pessoas de caráter duvidoso, oportunista, usurpador, que tenta manipular os afetos, as crenças, os valores de outros. Dizendo de outra forma, a perversão está para além de um comportamento, mas caracteriza uma estrutura psíquica, uma forma de se relacionar com o mundo desconsiderando os valores e as leis que norteiam as relações sociais.

Encontramos esse tipo de pessoas ao longo da história, em todos os períodos da humanidade. São os que fazem guerras para justificar interesses escusos de poder e/ou domínio econômico. Muitas vezes, ao ocuparem cargos dos sistemas de proteção e regulação das leis e da justiça como representantes da lei, ao invés disso, se colocam no lugar da lei, se fazem a lei. São os que ao transgredir, violar os direitos dos outros, os direitos humanos, fazem uso da divulgação de fatos, documentos, vídeos e áudios, produzindo efeitos de intimidação, na tentativa de desmoralizar os outros, expô-los e assim disseminar o medo, o terror, a intimidação, a difamação, a injuria ou chantageando aos supostos inimigos ou desafetos.

Vivemos um momento de exposição sem precedentes. As redes sociais, e os meios de comunicação em geral, muito além de democratizar as informações, romperam os limites entre o público e o privado. Em todos os quadrantes, para o bem e para o mal. A vulgarização do que se publica, se divulga, rompeu as barreiras da razão, quer com relação a vida privada das pessoas comuns, ou daquelas que se pretendem famosas. Abarcam também o comportamento da sociedade em geral, em seus diversos matizes, ou seja, abrangendo o conjunto do social, político, científico ou pseudo científico.

A divulgação de notícias em tempo quase real do que acontece no mundo, em todos os níveis de interesses, aturde os espectadores no assombro da precipitação dos acontecimentos. Vivemos em um mundo de imagens, de saturação de informações que não conseguimos processar porque nos intoxicam. Ficamos sem memória, inundados de eventos múltiplos e envoltos em informações desconexas, para além de nossa realidade.

O mundo da globalização, da informação em redes, por sua falta de limites, de fronteiras, de barreiras, está sendo regido pela ausência de leis que respeitem a justiça, mas privilegie a interpretação de ultima hora, oportuna, cínica, onde a verdade parece, ‘não vem ao caso.’

Casuística, a lei particular, a parajustiça , me permitindo aqui um neologismo, resulta não ser justa. Iguala alguns privilégios para uns e interpreta o que lhe faculta interpretar para outros, independente dos valores comprobatórios de provas ou ausência delas. A lei em sua aplicação para todos, tem nesse caso a prerrogativa de determinar que o para todos, ‘não vem ao caso’ em suas especificidades. E a ausência de leis de caráter universal é um dos elementos determinantes da perversão. O psicanalista Joël Dor em seu estudo sobre as perversões, afirma:

Não há meio mais oportuno de assegurar-se da existência da Lei do que se esforçando para transgredir as interdições, e as leis que as instituem simbolicamente. Aliás, o perverso sempre encontra a sanção que procura neste deslocamento metonímico da transgressão das interdições já que essa sanção é o limite que remete, ela própria metonimicamente, ao limite da interdição do incesto. (JOËL DOR.1991,p.129)
Tomemos aqui a interdição do incesto como uma lei a que todos estamos submetidos, ou seja, impõe a todos nós uma castração, o que para o perverso não vigora. A ele tudo parece possível e sem interdição, por isso desafia a lei tentando se assegurar que a lei paterna, ou seja, a castração, deve ser desafiada. Por isso aceita o risco de transpô-la. Neste sentido, Dor nos diz que: ”a volúpia da estratégia não poderia ser adquirida sem cumplicidade - imaginário ou real - de uma testemunha que assiste, petrificada, ‘a escamoteação’ fantasmática na qual se encerra o perverso face à castração.”(DOR.1991.p,135)

Quem sabe possamos entender com essa teorização, os efeitos que se produzem em nós, o atual estado de denúncias com que somos bombardeados, a cada dia, pelos noticiários, envolvendo tantas pessoas públicas, grandes empresários, banqueiros, dos mais diversos escalões e das instituições do país. Seguramente esse sistema de informação tem como objetivo não só divulgar fatos e versões sobre pessoas investigadas, mas também servir de cortina de fumaça para encobrir tantas outras organizações e pessoas de diversos escalões da vida pública e de bastidores.

Principalmente, paralisa qualquer possibilidade de reação, nos impondo um silenciamento frente a absurda impotência em que somos colocados no desmonte de nossas crenças nos valores das instituições, da perda de nossos direitos mais fundamentais de garantia de trabalho, moradia, educação, saúde, segurança. Enquanto isso, aos ‘denunciados’, cabem os recursos das leis, dos direitos a prisão domiciliar, de seguir desfrutando de delações premiadas, de sob alguma multa de pequena monta, considerando as grandes fortunas amealhadas, responder à seus crimes em liberdade.

Se nos paralisarmos frente a tudo isso, ficando apenas como espectadores desses tristes episódios que vão da pantomima à tragédia sem fim. Se nos paralisarmos frente a isso, corremos o risco de perdemos nossas referências e de nos transformarmos em estatuas de sal.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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