Sueli Santos

Sueli Santos

20º LUTO E MELANCOLIA stars

O texto de Freud, Luto e Melancolia (1917[1915]) nos esclarece a diferença entre estes dois conceitos que nos afetam e que, nem sempre sabemos diferenciar. Por isso, nosso sofrimento se torna mais intenso, sem entender sobre o que exatamente nos produz tanta dor, mas tanto o luto quanto a melancolia envolvem uma perda. Perde de/do quê?

Nos esclarece Freud: “No Luto, de modo geral, é uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante .”(FREUD. 1917,p.249). O luto é superado com o passar do tempo e não se pode considerá-lo como algo patológico

O luto é um sentimento frente a perda de alguém que nos é significativa, nos é referência, que admiramos. É um pouco o que sentimos atualmente, quando temos perdido tantas pessoas importantes. Uma delas em especial, uma mulher lutadora, trabalhadora, que de forma corajosa batalhava por uma sociedade mais justa e democrática. Gostaria de falar sobre Marielle Franco, socióloga, militante dos Direitos Humanos, feminista, líder comunitária, organizadora dos movimentos em prol da cultura e das artes das comunidades pobres do Rio de Janeiro e moradora da favela da Maré.

Marielle vinha denunciando as arbitrariedades que estão acontecendo na intervenção atual das policias militares e federais, que promovem revistas de identificação das pessoas, moradora dos morros no Rio de Janeiro, a título de um controle dito de organização de um laboratório de informações para ações policiais que deverão ser estendidos a todos os Estados do país.

Mas se Marielle não é daqui, porque o sentimento de luto por sua morte? Porque ela representava a voz de todas as mulheres, das trabalhadoras, das mães que perdem seus filhos por balas perdidas, ou sumária execução por seus filhos estarem na rua. Marielle representava as mulheres negras, os movimentos negros, os pobres, do desempregados, os sem direitos garantidos.

Marielle era vereadora, Socióloga, Mestre, uma mulher das ciências, da academia, da cultura.   Ela é morta em uma emboscada covarde. Executada por quem queria calar suas denúncias e exigência de justiça por tanta violência. No dia 14 de março de 2018, o Brasil ficou mais uma vez enlutado.

O massacre cotidiano pelo qual a população pobre, negra segue sofrendo pelos excessos da ação repressiva do Estado, não tem relação com o combate à traficantes. Mas é preciso criar uma ação terrorista contra a população para que ela não possa se insurgir, reagir contra todas as mazelas pelas quais vêm passando.

Então, o luto em que mergulhamos, enquanto povo brasileiro é por Marielle e por tantas outras Marielles, Marias, Clarices, Leticias, Marisas, Zuzus, Dolores, que a cada dia enfrentam também outro tipo de morte. Ou seja, morrem de medo, o que representa uma morte de sua crença na possibilidade de poder sonhar em ter um dia comum, como em qualquer país civilizado em que as pessoas têm direito a estudar, trabalhar, ver sua família florescer, se divertir, progredir economicamente, intelectualmente, com igualdade de oportunidades, poder ser protagonista de sua própria vida, sem medo.

E aqui, já falamos de melancolia, ou seja, de um sentimento de perda de algo que não se viveu, mas que se sabe que em algum lugar, essa vida imaginada, sonhada foi vivida ou é vivida por outros que não somos nós e, nós perdemos a oportunidade de vivê-la. Mas como só vivemos imaginariamente essa vida que não nos pertence, sonhamos o sonho dos outros, ficamos à deriva, no desamparo de algo que não se viveu e não somos nós.

Esse sentimento de perda de algo que não se viveu, nos despotencializa, nos fragiliza, nos rouba o futuro porque essa história vivida em algum outro tempo, talvez em um passado que não nos corresponde. Então estamos sem perspectivas no presente, melancolicamente. Adoecemos de desesperança. Sem valor, incapazes de qualquer realização e moralmente nos sentimos desprezíveis.

E mais, nos diz Freud: “O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto - uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego.”(FREUD.1917,p.251)

A tristeza e o luto da perda de alguém como Marielle, no entanto , vai passar porque é preciso honrar sua história, sua luta, sua força, sua coragem de lutar pela igualdade de direitos, pela democracia, pela liberdade de expressão, pela alegria de viver com liberdade. Sigamos, somos todos Marielle.

Retorno da esperança não é o mesmo que ficar esperando: ainda sobre as razões do inconsciente - por Sueli Santos

No texto anterior, relembrei um trecho da obra: O chiste e sua relação com o inconsciente (FREUD. 1905) para dizer de sua atualidade. Esse texto faz um profundo e detalhado estudo sobre as manifestações dos conteúdos do inconsciente, que apesar das forças do recalcamento, resultantes de marcas traumáticas, das censuras, da repressão, ele, o inconsciente, vai buscar alguma via colateral para alivio e vazão do que produz sofrimento, desprazer.

Como o inconsciente faz isso? De muitas formas, uma delas é o chiste. Mas temos outras formações do inconsciente, como por exemplo, os atos falhos, os esquecimentos, os equívocos, os sonhos, os sintomas. Para esse texto, vou me debruçar um pouco sobre o chiste, que via linguagem, em suas múltimas formas de expressão, irrompe desavisadamente. Instrumentado pelas palavras, pelos ditos ou em muitas manifestações artísticas, podemos identificar o chiste como vias colaterais, ou vicinais, ou marginais de escoamento do que estava recalcado, interditado, mas que pelos capilares caminhos do inconsciente trazem à tona os outros sentidos possíveis das palavras. Nas alegorias, na poesia, na literatura, nas sátiras encontramos com facilidade o uso do chiste, que é distinto do cômico e também diferente da piada.

Além disso podemos aprender que a linguagem, enquanto forma de expressão em diversos sentidos, pode ser estudada através de expressões artísticas de todos os matizes. Mas não só. A palavra, seja ela falada ou escrita, é um dispositivo subjetivo, uma expressão do inconsciente em sua implicação com os contextos e a forma como vivenciamos estes contextos. Por isso, dizemos muito mais do que pensamos dizer quando falamos. Mas aqui já estamos apontando outra diferença. Não é a mesma coisa a linguagem, a palavra, a fala.

Credo! Como assim? Muita calma, devagar, para não nos perdermos de nosso eixo, o chiste. Não é tão difícil de pensar. Retomemos o recorte que já foi transcrito anteriormente do texto do Freud. O recorte é: ”As palavras são um material plástico, que se presta a todo tipo de coisas. Há palavras que, usadas em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.”(FREUD. 1905.p,41)

Vamos por partes, como diria... um vampiro sugando a jugular do povo.

Ai alguém pode dizer: Ah, de novo essa história do carnaval, da Tuiuti! etc.

Calma, afinal água mole em pedra dura... respinga pra todo o lado!

Aqui temos dois exemplos de chiste, ou seja: “Há palavras que, usadas em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.”(FREUD. 1905.p,41)

No primeiro exemplo, damos novo sentido ao dito: Vamos por partes, diria Jack o estripador. O segundo, se espera o dito popular: Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Assim, ao romper o sentido esperado e culturalmente consagrado, cria-se um novo sentido que produz a reação de surpresa ou o inusitado. Isso tem o valor de um chiste, algo engraçado porque desconserta e oferece o rompimento do sentido já determinado, abre outras ligações possíveis.

Então, quando no texto anterior, se falava de retorno da esperança, não se trata de passividade, ou ficar esperando, ou da ingenuidade de acreditar que uma mudança virá de uma alegoria, ou de um chiste, ou de uma leitura semiótica sem conseqüências sobre a realidade e as forças de poder que sobre ela, a realidade, se impõe pelos donos do dinheiro, ou das mídias ou das estruturas de estado.

Mas a esperança de que se trata, para cada um, o que fez sentido a cada um que viu o desfile da Paraiso do Tuiuti, tem motivações de ordens diferentes. Produziu um efeito de chiste, talvez. Abriu novos sentidos, dizendo coisas que tantos gostariam de dizer, ou entender o que acontecia no país e não sabiam como formular. A Paraiso da Tuiuti, descobriu um jeito de esclarecer com seu bombardeio semiótico.

Por que semiótico? Porque a partir da decifração dos signos, dos sistemas de significação, dos sinais da asfixia da concessão da embriagues da festa dos pobres, ou festa para gringos verem, o desfile desmoralizou outro mito. O carnaval como pura alienação concedendo aos pobres alguns momentos de reconhecimento e holofotes, de “liberdade e bondade cruel “, como diz o samba da Escola, pudemos desconstruir um discurso midiático amparado, financiado e imposto à milhões de brasileiros.

Foram decifradas mentiras dos três últimos anos que a cada dia, orquestrado pelos patrocinadores do desmonte de nossas conquistas de direitos, da manipulação dos valores culturais, como um mantra, impuseram muitas ou meias mentiras como verdades e máximas morais. A casa caiu.

A exemplo disso, a para e passo, as organizações midiáticas que detém os direitos de transmissão do carnaval para o país e para o resto do mundo, juntamente com o empresário que patrocina a Escola da Beija Flor, apresentaram um enredo com o discurso do patrimonialismo, mostrando uma sociedade de bandidos, corruptos, que desmonta nosso patrimônio público, roubam, matam inocentes nas escolas, nas ruas. Tentando com esse enredo enredar a todos em sua trama moralista e sem mácula. Afinal, os meios de comunicação e os bons empresários, não têm contas em paraísos fiscais, nem sonegam impostos, também não compram direitos de concessões.

O desconforto imposto pela primeira escola, que surpreendentemente escancarou a denúncia das manipulações, rompeu um silencio que se impunha frente às falsas verdades. Nesse desfile irrompeu, a verdade fez furo no muro da mentira. O desfile da Tuiuti, que precedeu a Beija Flor, e construiu a libertação das palavras proibidas pelas mentiras oficiais com relação a uma leitura da realidade social dos últimos três anos, surpreendeu os organizadores da festa, denunciando para o mundo o que não poderia vir à tona.

Quando falo de retorno de esperança, se trata de relembrar uma verdade do inconsciente, qual seja, que novos sentidos sempre são possíveis de emergir, que as verdades inconscientes, via palavra surgirão, não importa o tempo que for necessário. O que era proibido dizer, ou pensar, não pode mais ser amordaçado ou não entendido. Isso não muda o passado, mas resignifica os efeitos dessa libertação no que se segue.

Exemplo, o desfile de premiação das duas escolas, Tuiuti e Beija Flor, neste final de semana, seguiu repercutindo no mundo, na medida em que Leonardo de Morais, professor de história que representa o Vampirão presidente, foi proibido de desfilar com a faixa presidencial. Quem proibiu?... a ordem foi: ou desfila sem a faixa ou não desfilará. O Vampirão desfilou sem a faixa presidencial. Mas de qualquer forma, o estrago já estava feito. A faixa esta lá, em ausência, na presença do estranhamento da falta. E não há nada, nem ninguém que não enxergue mais a verdade das mãos que manipulam o país no ultimo carro alegórico da Paraiso da Tuiuti.

Quando falo do retorno da esperança, se trata de não esquecer que, para o inconsciente, nada fica impune. Sempre virá à tona, assim como sempre faremos destes gestos de aparente fragilidade a resistência à impunidade. A verdade prevalecerá, e quanto mais tentarem justificar, mais mentiras virão à tona.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa/Serra

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Freud continua com razão, com a "PARAISO DO TUIUTÍ”, retomo a esperança.

Depois do último Natal, quando se comemorou, mais uma vez, o nascimento de Jesus, minha inspiração para a escrita deu uma travada. Apesar do renascimento que a data propõe, havia um sentimento de perda de esperança. Afinal, a realidade que vivemos não parece muito promissora em termos de um futuro próximo, de acreditar nos valores civilizatórios, do respeito ao direitos humanos, do valor das liberdades conquistadas pela legitimidade da democracia.
Mas o que isso tem a ver com Psicanálise, com as questões da subjetivação, do sofrimento psíquico, com o inconsciente? Tudo. Somos seres sociais e emocionais, e o que se passa no nosso cotidiano, tanto em particular como no campo social, nos afeta. Tanto nos afeta no sentido de nos impulsionar, estimular, trazer força e esperança, como o seu contrário, a desesperança, a perda de crença em nossas conquistas e capacidade de luta contra as (in)justiças.
É quando, passando por um processo e sentimento de desamparo, fazendo a sistemática avaliação de fim de mais um ano sombrio do ponto de vista do esfacelamento dos três últimos anos da história de nosso país, retomei a leitura do texto: O chiste e sua relação com o inconsciente (FREUD, 1905). Um clássico, e deve ser lido por aqueles que querem entender sobre a força da insistência do inconsciente pela palavra, pela linguagem, tanto no enfrentamento como  na superação de todo tipo de opressão.
Transcrevo aqui um fragmento do texto que diz: ”As palavras são um material plástico, que se presta a todo tipo de coisas. Há palavras que, usadas  em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras conexões.” E exemplifica: “Um chiste de Lichtenberg isola cuidadosamente as circunstâncias em que as palavras esvaziadas são levadas a recuperar seu sentido pleno: ‘” como é que você anda?”-perguntou um cego a um coxo. “Como você vê”-respondeu o coxo ao cego”’.(FREUD. 1905.p,41)
Com o desfile de ontem, 12 de fevereiro de 2018, da Escola de Samba Paraiso do Tuiutí, com o tema: Meu Deus! Meu Deus! Se extinguiu a escravidão? A comunidade faz uma releitura da história da escravidão na história do mundo. Trazendo o tema até nossos dias, conclui com forte resignificação  o momento do Brasil atual, onde a escravidão se reveste de outras formas. Quando o povo trabalhador segue preso em correntes, oprimido com a perda dos direitos trabalhistas, quando a informalidade do trabalho e a exploração no campo e na cidade impõem  a humilhação do homem e retira suas conquistas.
Em forma de alegoria, uma inspirada alegoria aliás, a Escola mostra nas últimas alas, a manipulação de uma parte do povo, agora branco, como bonecos, títeres, controlados pelas mãos com fios de controle  do poder econômico, pelos meios de comunicação aliados às forças do dinheiro e das elites.
Os fantoches vestidos de patos, símbolo emblemático dos donos das Indústrias e do centro financeiro da capital paulista, são manobrados  batendo panelas alegremente, sem se dar conta que  fazem parte  do mesmo jogo de exploração e quem sabe, escravos da ilusão do poder branco.
Metáforas sobre uma realidade que nos afeta à todos e que os carnavalescos, amparados em um forte enredo para contar essa história, puxados por uma música contagiante e poesia emocionante, conseguem trazer para a avenida uma síntese precisa, clara e bem humorada, uma sinopse da nossa história recente, sem ser leviana ou superficial.
 Eficiente, inteligente e sem mordaça, haja vista que foi filmada,  e via satélite, enviada para o mundo inteiro por uma rede de comunicação que vem, aliada aos sistemas de poder, manipulando corações e mentes, entorpecendo  boa parte da população que se veste com a camisa da seleção brasileira,  e cobertos com a bandeira como manto, como se fosse esse o maior ato de resistência e patriotismo dos puros, brancos e da honesta elite. Patos que não se entendem como parte dos explorados.
A esperança me volta.  Freud tem razão,  a palavra, a linguagem nos liberta. O mutismo dos comentadores televisivos aumentava à medida em que a Escola avançava e ia implicando a todos nessa história da manipulação midiática, à medida em que as arquibancadas cantando, aplaudindo, soltavam o grito até então que estava entalado na garganta.  Esse desfile do povo na rua, protagonizando o maior espetáculo da terra e o canto ensurdecedor das arquibancadas, instantes apoteóticos que  me trouxe, e a muitas pessoas, a esperança de volta.
A mordaça imposta pela Escola aos meios de comunicação, promotores das farsas, do arbítrio, do desrespeito por nossa história de conquista da democracia, surpreendeu e paralisou as vozes dos comentadores,  impedidos de desligar ou interromper o sinal do satélite. O povo das comunidades tem muito a dizer, a ensinar como se resiste com alegria, bom humor e sem ofensa, sem violência, sem ameaça.  E esse povo termina seu canto dizendo:
Meu Deus, meu Deus; Se eu chorar não leva a mal; Pela luz do candieiro; Liberte o cativeiro Social.
Obrigada Paraiso da Tuiutí e obrigada ao carnavalesco Jack Vasconcelos.  Obrigada compositor Moacyr Luz por sua música e poesia dignas, e finalmente,  como não poderia deixar de dizer,  obrigada por nos ensinar tanto sobre a força da palavra e da linguagem, Freud.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra
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Afinal, é Natal!

Mais uma vez é Natal. Comemoração da vida, do nascimento. Como se chegou a essa data emblemática e universal não está muito claro, mas temos muitas versões. Entre elas que o dia do Natal, 25 de dezembro, foi estipulado pela Igreja Católica no ano de 350 através do Papa Julio I, que propõe esse dia como comemorativo do nascimento de Jesus. Mas o que garante que a data do calendário atual tem correspondência a uma história que nos foi contada pela interpretação de escritos não muito precisos?  

Sabemos que, pela bíblia, não temos uma data exata do nascimento de Jesus, tampouco o Natal  fazia parte das tradições cristãs em princípio. Acredita-se que a celebração do Natal vem substituir a festa pagã da Saturnális,  que acontecia entre 17 e 25 de dezembro, como uma tentativa de facilitar a aceitação do cristianismo entre os pagãos. Outros estudos afirmam que Jesus teria nascido em Abril sendo esta data  modificada para 25 de dezembro pelo imperador Romano Constantino para agradar os cristãos. Também encontramos, descrita na bíblia, anterior a essa determinação imperial ou papal, nos evangelhos de Mateus e em Lucas, relatos sobre o Natal e o nascimento de Jesus.

No entanto, independente do significado religioso e cristão desta data enquanto uma comemoração universal, esta data não corresponde a uma verdade absoluta, haja vista que nem toda a humanidade compartilha da mesma fé cristã. No tempo em que vivemos, com tanta intolerância e que lutamos pelo respeito às diferenças, isso não pode passar sem reflexão. Afinal, é Natal.

Mas há algo universal na humanidade. É a necessidade de acreditar em algo, em uma fundação e em um Deus que justifique nossa existência como ela se apresenta. Nós, humanos, buscamos origens, sentidos, destinos, um conjunto de dogmas, ou crenças que nos garantam o sentido de existência e do estar nesse mundo. Mas não é possível seguir justificando o mundo em que vivemos, tendo como origem uma única fé e, supô-la verdadeira. Quanto à fé, cada povo tem a sua, e para cada um é a que dá sentido e verdade norteadora a sua existência. Portanto, não nos cabe duvidar da fé de cada um, o que expressaria nossa intolerância à diferença de credo. Afinal, é Natal.

Como universalmente, cada dia é um novo dia, marcado por nascimentos e mortes, o mistério da vida poderia ser pensado e vivido com o que se chama “espírito de Natal”, todos os dias. Assim, cada dia, poderíamos exercitar a tolerância, a solidariedade, a fraternidade, o cuidado com as pessoas, os vizinhos, os amigos, os parentes. Também se poderia reavaliar as situações difíceis e de desafetos sob vários ângulos, não super-dimencionando os desencontros e deslizes nas relações. Poderíamos então comemorar esse Natal diário não comprando presente, mas celebrando ter ganho mais sabedoria e sensibilidade para a vida, como ela é, a cada dia. Afinal, é Natal

Embora só possamos viver o presente, insistimos em buscar uma referência em experiências de nossa história, de nossos antepassados, em nossa herança genética, cultural e afetiva.  Atribuímos muitas vezes a esse passado a possibilidade ou impossibilidade de um futuro. Esquecemos que, construir uma nova história, sem colocar como impedimento a origem em que estamos implicados, só está comprometida por nossa indolência em cuidar do próprio presente. 

Embora só tenhamos um dia de cada vez para viver, insistimos em materialmente significar nosso amor, acumulando objetos, bens materiais móveis e imóveis, como se isso atestasse o quanto melhoramos em nossa humanidade. O paradoxal é que embora saibamos que a finitude é o que marca cada tempo vivido, seguimos fazendo planos para amanhã, e assim também acreditamos que amanhã podemos ser melhores ou a vida será melhor. 

Afinal, como é Natal, proponho que façamos um exercício de tolerância com nossa fragilidade, com nossas falhas, como nossa humanidade a cada dia. Quem sabe assim, a intolerância com nossa própria frágil humanidade, simplesmente se reverta em tolerância e nos fortaleçamos no renascimento de cada dia. 

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos Poa /Serra

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O Prazer do Encontro Com os Beatles em São Chico - por Sueli Santos

Acredito que todos que estiveram no Beatles Weekend, mesmo que por algum momento, como eu, ainda sintam reverberar o que ali se passou. A alegria, a comunhão, o sentimento de pertencimento a uma história vivida nos anos sessenta, não era apenas fruto de saudosismo. Mas algo de revivência de um momento de total mudança na vida de muitas pessoas que estavam ali e haviam participado das mesmas experiência e emoções em diferentes lugares no Brasil e no mundo, através do som e dos versos dos “cabeludos” ingleses, e que afinal nem eram tão cabeludos assim.

A revolução que a música dos Beatles produziu na geração dos anos sessenta e nas posteriores, não parou no tempo, é universal e um clássico, porque é atemporal. Isso ficou claro com a mistura de pessoas de todas as idades cantando e se embalando ao som de suas recordações, de suas histórias e de novas resignifiações, pois os pequenos e os jovens já escutaram, em algum momento, de seus pais, tios ou avós algumas daquelas canções.

Por outro lado, quanto ao evento em São Chico, a novidade foi a alegria do sentimento de estar fazendo parte, nesse momento, de uma virada histórica da cultura da cidade. Principalmente, esse encontro tão valioso nos fez sentir que não havia acontecido só mais uma evento na cidade, mas que São Chico tinha uma novidade. Uma proposta cultural que aponta para um outro valor que não é do consumo frenético, mas que cultura é parte do prazer com o convívio, com a natureza, com a reverência aos valores que reúnem não um espetáculo de fantasias, mas de convívio e sensibilidade, coisas que não são consumidas, mas compartidas. Que o prazer pode estar no convívio, no encontro, na descoberta da simplicidade como algo que não tem fronteiras e poder reunir gente de muitos lugares e fazê-los sentir-se em casa.

Quanto a isso, ser capaz de acolher as pessoas de fora da cidade, tornar o simples algo especial, surpreender o olhar com o vai e vem da névoa, com a oscilação do frio e calor, com a luminosidade do final de tarde, com a cantoria da passarada e os sons do ‘mensageiro dos ventos’ que repicam nas sacadas e entradas das casas, tudo isso faz o mistério e o encanto de São Chico. Porque essa simplicidade nos avisa: aqui a vida está sempre em movimento, embora, contraditoriamente se ouça muito que: “aqui o tempo parou”.

Eu diria: aqui em São Chico, o tempo é natural, segue seu curso e nos obriga a reavaliar se é preciso correr como o Coelho de Alice, acreditando estar atrasado e esquecendo que a vida tem seu tempo próprio.

A homenagem aos Beatles, me parece, foi um retorno não a um sonho de amor, fraternidade, liberdade que acabou, se perdeu no passado. Esse encontro só poderia acontecer aqui, onde esses sentimentos estão ligados a vida, ao essencial da vida, que é universal e eterno como os Beatles. Que venha o próximo Beatles Weekend e que não percamos a essencial simplicidade do encontro, isso não tem preço.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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O Desafio - Descobrir A Sua Verdade - por Sueli Santos

São muitos os mitos sobre os efeitos e a quem se destinam os tratamentos psicológicos. Também são muitas as práticas e técnicas de tratamentos, sendo muitas vezes considerados como equivalentes, posto que tratam de questões emocionais, sofrimento psíquico. No entanto se existem muitas modalidades de tratamento é por que não são exatamente iguais os sofrimentos, suas origens e causas. Assim como não se pode tratar da mesma forma todas as pessoas e todos os sofrimentos.

Ainda parece circular o equívoco que postula: tratamento psíquico é coisa para loucos ou gente sem força de vontade, gente fraca, que não sabe resolver seus problemas e não têm fé, por isso adoecem. Convido àqueles que lerem esta coluna, a pensar que buscar entender o que produz o mal estar psicológico, o sofrimento que se repete sempre da mesma forma em suas vidas, aquilo que com certa insistência se reproduz em suas escolhas, ainda que já saibam que escolhem sofrer, têm uma raiz profunda e esconde uma verdade outra, encoberta desde sua origem.

Neste escrito escolho falar sobre o trabalho da Psicanálise, pois este é meu trabalho. A Psicanálise é uma modalidade de tratamento criada por Freud, e que se destinava a investigar e escutar o sofrimento das pessoas desde os finais do século XIX. Em plena era vitoriana, Freud descobriu que parte do sofrimento que acometia as pessoas tinha origem em sua história infantil e era marcada pela teorias sexuais infantis, ou seja, sobre os efeitos da repressão sexual marcada pelo prazer e desprazer.

Dizendo de outra forma, o que produz prazer e/ou desprazer em período muito precoce do desenvolvimento de um bebê, quando esse só tem possibilidade de sentir em seu corpo essas impressões, mas não tem como discriminar o que o satisfaz ou o que o ameaça. Pode ser interpretado como amor e prazer no primeiro caso, ou de abando, morte ou desamor no segundo caso. Por não ter condições de perceber a diferença entre uma coisa e outra, nem ter como discriminar o sentido das palavras que falam os adultos, o psiquismo do bebê criará seus sentidos que não correspondem ao que lhe é dito pelos pais ou quem cuida dele.

Isso já se inscreve antes de a criança ter conhecimento da diferença anatômica biológica entre menina e menino. Portanto, quando falamos de teorias sexuais infantis não estamos falando exclusivamente da diferença genital, mas de marcas de prazer e desprazer no corpo físico e no que chamamos de aparelho psíquico. Não temos como controlar como se inscrevem as relações de cuidado com a criança e como nossos cuidados lhe produzem prazer (leia-se: amor, aceitação, aprovação, proteção) ou desprazer (leia-se: desamor, abandono, rejeição, ameaça de morte).

Quando não se tem as palavras para expressar o que se sente, o que angustia, o que ameaça, o que acalma, o que ampara, as reações do bebê podem sinalizar como ela sente nosso cuidado, nosso toque. Mas será uma interpretação do adulto que cuida da criança, que pela linguagem adulta e por sua própria referencia enquanto adulto dará sentido às reações do bebê. Daí a importância de se pensar que é na relação com os pais ou cuidadores que as primeiras experiências de satisfação e insatisfação, prazer e desprazer se inscrevem no bebê. E por essa dependência e precariedade de um aparelho psíquico tão frágil dos cuidados de outros, irá se organizando a relação com o mundo, com as demandas de afeto do mundo familiar em um primeiro momento. Esse mundo familiar é o precursor da relação com o social, como os outros agrupamentos humanos.

As dificuldades de interpretação dessa leitura de mundo, com tantas exigências, valores, contradições, expectativas, preconceitos, medos já vividos na história afetiva pelos adultos, serão determinantes como modelo do que ensinamos a nossos filhos. Muitas vezes dizemos: meus filhos não vão passar pelo que passei; quero outra vida para meus filhos; não vou fazer com meus filhos o que fizeram comigo; quando tiver filhos eles terão outro destino não serão como eu... Mas será que sabemos o que os filhos vão querer fazer de suas vidas? Ou cuidamos e educamos os filhos como se fossem pura extensão de nossa história e assim os encurralamos em nossos sentimentos de fracassos ou fantasias de sucesso?

Então entendamos que falar de repressão sexual não tem a ver apenas com poder ou não poder ter relações genitais, mas tem a ver com a proibição ou permissão em ter prazer na descoberta do que fazer com sua vida, com o direito a ter curiosidade em saber como a vida é, o que eu sou capaz de sentir com essas descobertas, o que posso transpor das dificuldades que a vida me apresenta. Por exemplo, quando me dizem: “meu filho nunca se machucou porque não deixo ele subir em uma cadeira, ou andar de escorregador, ou usar o talher para comer, ou tentar tomar banho sozinho por que não se limpa direito, etc”; o que escuto é que não vejo meu filho com condições de ser alguém que aprende com sua experiência suas possibilidades, que não descobre seus limites, não sabe fazer escolhas, que não sabe nem pedir ajuda pois não discrimina que é uma pessoa em separado, diferente de seus pais ou cuidadores.

Quem sabe possamos entender assim que uma criança criada dessa forma tão indiferenciada de seus pais ou familiares, ou cuidadores, quando pessoas adultas, sem saber sua verdade, ou seja, o que é dele, o que é dele enquanto  ser subjetivado,  se coloque como eternamente dependente de quem quer que o olhe. Talvez acredite que o mundo tem obrigação de suprir suas necessidades de amor e sobrevivência se mantendo na condição de bibelô, de objeto de decoração, a espera de um novo lugar de exposição de sua incapacidade de sobrevivência, sem se enxergar como alguém que se acredita capaz de viver sua verdade enquanto ser como é e que isso tem um valor.

A psicanálise se ocupa de escutar o sofrimento psíquico desde as historias mais primitivas da construção da subjetivação das pessoas. Por isso é diferente a sua forma de tratar as dores emocionais, retomando estas construções. Não se trata de olhar a vida olhando o retrovisor. Se trata de buscar entender, pesquisar, como se foram formando os sentidos e as interpretações que foram sendo construídas ao longo da vida das pessoas e o quanto isso os impedem de nomear e assumir sua verdade enquanto ser. O desafio em psicanálise é procurar e descobrir a sua verdade.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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O Desafio - Divulgar, Registrar, Publicar - Por Sueli Santos

Muito se fala sobre perversão. A frequência com que esse termo vem sendo empregado em todos os meios de comunicação se justifica. A utilização da palavra indiscriminadamente define ou equipara seu sentido à transgressão, comportamentos anti-social, violento, anti-ético ou imoral, podendo também ter suas versões de ordem fetichista, masoquista, sádica, exibicionista, entre tantas outras. Em geral o termo perversão vem sendo usado para apontar ou classificar aqueles que não respeitam os direitos dos outros, que desafiam a lei e os valores sociais.

A perversão não é apenas atribuída às pessoas que são marginais, ou de camadas mais pobres da população. O comportamento perverso também pode ser identificado nas classes mais abastadas, em pessoas que são privilegiadas, com cultura, educação e que jamais tiveram ou sofreram qualquer tipo de carência ou de discriminação. Portanto, não é decorrente de uma classe social específica.

Então se dizemos que é um comportamento, estamos falando de algo que se inscreve como um elemento constitutivo da personalidade. Algo que foi estruturado ao longo do desenvolvimento da pessoa. Está na origem da estrutura de sua subjetivação, independente da formação familiar, das condições sócio-econômicas ou culturais, também não tem a ver com a etnia, credo religioso ou opção sexual.

Em qualquer grupo social podemos identificar pessoas de caráter duvidoso, oportunista, usurpador, que tenta manipular os afetos, as crenças, os valores de outros. Dizendo de outra forma, a perversão está para além de um comportamento, mas caracteriza uma estrutura psíquica, uma forma de se relacionar com o mundo desconsiderando os valores e as leis que norteiam as relações sociais.

Encontramos esse tipo de pessoas ao longo da história, em todos os períodos da humanidade. São os que fazem guerras para justificar interesses escusos de poder e/ou domínio econômico. Muitas vezes, ao ocuparem cargos dos sistemas de proteção e regulação das leis e da justiça como representantes da lei, ao invés disso, se colocam no lugar da lei, se fazem a lei. São os que ao transgredir, violar os direitos dos outros, os direitos humanos, fazem uso da divulgação de fatos, documentos, vídeos e áudios, produzindo efeitos de intimidação, na tentativa de desmoralizar os outros, expô-los e assim disseminar o medo, o terror, a intimidação, a difamação, a injuria ou chantageando aos supostos inimigos ou desafetos.

Vivemos um momento de exposição sem precedentes. As redes sociais, e os meios de comunicação em geral, muito além de democratizar as informações, romperam os limites entre o público e o privado. Em todos os quadrantes, para o bem e para o mal. A vulgarização do que se publica, se divulga, rompeu as barreiras da razão, quer com relação a vida privada das pessoas comuns, ou daquelas que se pretendem famosas. Abarcam também o comportamento da sociedade em geral, em seus diversos matizes, ou seja, abrangendo o conjunto do social, político, científico ou pseudo científico.

A divulgação de notícias em tempo quase real do que acontece no mundo, em todos os níveis de interesses, aturde os espectadores no assombro da precipitação dos acontecimentos. Vivemos em um mundo de imagens, de saturação de informações que não conseguimos processar porque nos intoxicam. Ficamos sem memória, inundados de eventos múltiplos e envoltos em informações desconexas, para além de nossa realidade.

O mundo da globalização, da informação em redes, por sua falta de limites, de fronteiras, de barreiras, está sendo regido pela ausência de leis que respeitem a justiça, mas privilegie a interpretação de ultima hora, oportuna, cínica, onde a verdade parece, ‘não vem ao caso.’

Casuística, a lei particular, a parajustiça , me permitindo aqui um neologismo, resulta não ser justa. Iguala alguns privilégios para uns e interpreta o que lhe faculta interpretar para outros, independente dos valores comprobatórios de provas ou ausência delas. A lei em sua aplicação para todos, tem nesse caso a prerrogativa de determinar que o para todos, ‘não vem ao caso’ em suas especificidades. E a ausência de leis de caráter universal é um dos elementos determinantes da perversão. O psicanalista Joël Dor em seu estudo sobre as perversões, afirma:

Não há meio mais oportuno de assegurar-se da existência da Lei do que se esforçando para transgredir as interdições, e as leis que as instituem simbolicamente. Aliás, o perverso sempre encontra a sanção que procura neste deslocamento metonímico da transgressão das interdições já que essa sanção é o limite que remete, ela própria metonimicamente, ao limite da interdição do incesto. (JOËL DOR.1991,p.129)
Tomemos aqui a interdição do incesto como uma lei a que todos estamos submetidos, ou seja, impõe a todos nós uma castração, o que para o perverso não vigora. A ele tudo parece possível e sem interdição, por isso desafia a lei tentando se assegurar que a lei paterna, ou seja, a castração, deve ser desafiada. Por isso aceita o risco de transpô-la. Neste sentido, Dor nos diz que: ”a volúpia da estratégia não poderia ser adquirida sem cumplicidade - imaginário ou real - de uma testemunha que assiste, petrificada, ‘a escamoteação’ fantasmática na qual se encerra o perverso face à castração.”(DOR.1991.p,135)

Quem sabe possamos entender com essa teorização, os efeitos que se produzem em nós, o atual estado de denúncias com que somos bombardeados, a cada dia, pelos noticiários, envolvendo tantas pessoas públicas, grandes empresários, banqueiros, dos mais diversos escalões e das instituições do país. Seguramente esse sistema de informação tem como objetivo não só divulgar fatos e versões sobre pessoas investigadas, mas também servir de cortina de fumaça para encobrir tantas outras organizações e pessoas de diversos escalões da vida pública e de bastidores.

Principalmente, paralisa qualquer possibilidade de reação, nos impondo um silenciamento frente a absurda impotência em que somos colocados no desmonte de nossas crenças nos valores das instituições, da perda de nossos direitos mais fundamentais de garantia de trabalho, moradia, educação, saúde, segurança. Enquanto isso, aos ‘denunciados’, cabem os recursos das leis, dos direitos a prisão domiciliar, de seguir desfrutando de delações premiadas, de sob alguma multa de pequena monta, considerando as grandes fortunas amealhadas, responder à seus crimes em liberdade.

Se nos paralisarmos frente a tudo isso, ficando apenas como espectadores desses tristes episódios que vão da pantomima à tragédia sem fim. Se nos paralisarmos frente a isso, corremos o risco de perdemos nossas referências e de nos transformarmos em estatuas de sal.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

 

O Mal-estar na Cultura: reverberações do estado de exceção em que vivemos - por Sueli Santos

O ensaio de Freud (1930) intitulado O mal-estar na cultura, nos ensina sobre o estatuto da agressividade e da pulsão de morte. Aponta para dois momentos de alto grau de mal-estar. Talvez, para quem não está iniciado nos estudos da psicanálise, seja interessante esclarecer o que se entende pelo conceito de pulsão de morte. Esse conceito nos remete ao que está além da ordem.

Para Freud, criador da Psicanálise, o aparelho psíquico, abarca uma região onde situamos o inconsciente e o pré-consciente/consciente; uma outra instância, para além do princípio do prazer, situaríamos as pulsões. Na primeira região se ocuparia das representações do mundo, esse seria o lugar da ordem, aí se ordenam o pré-consciente/consciente e a ordem inconsciente que confere sentido ao princípio de prazer e o princípio de realidade.

As pulsões, por sua vez, seriam inscrições de duas ordens, ou seja, a pulsão de vida liga as ordenações das instâncias psíquicas já mencionadas e a pulsão de morte entendida como pulsão de destruição, cujas origens podemos remontar ao conceito de narcisismo. Estas são rápidas informações para situar o leitor pois não caberia aqui, neste curto texto, desenvolver a teoria das formações do inconsciente e das pulsões. Mas fica como uma sugestão a quem se interessar por entender um pouco sobre a importância de estudarmos a psicanálise para entendimento sobre o funcionamento da mente humana.

Neste texto paradigmático, podemos entender os tempos escuros em que vivemos, como uma subversão dos valores, da verdade, onde a delação é premiada. Os transgressores são protegidos e negociam sua liberdade em troca de áudios, vídeos e inconfidências de caráter duvidoso e, porque não dizer, de caráter perverso e pornográfico. Podemos entender, a partir do estudo dos textos de Freud, qual é a dinâmica do mal-estar que se instala, como dispositivo legal de destruição dos valores sociais.

Neste texto, O Mal-estar na cultura (1930), Freud aponta que a agressão e destruição colocam o próximo, o outro, como um possível objeto sexual, onde se evidencia uma tentação de se satisfazer. No outro, suposto semelhante, a realização da agressão se expressa pela exploração de sua força de trabalho sem recompensá-lo, usá-lo sexualmente sem seu consentimento, despojá-lo e assassiná-lo. Enquanto pulsão de morte, a sexualidade não se trata mais de uma sexualidade que, regida pelo princípio do prazer, lança mão da agressividade para atingir seu objetivo.

O que se observa, no momento atual em que vivemos é o primado de uma sociedade sem ordem, sem progresso e principalmente sem independência. O que resta, o que triunfa é a morte, enquanto pulsão mortífera, disjuntiva, que vampiriza em todos os sentidos os valores, as aspirações de um povo, pulverizando todos os esforços empreendidos por aqueles que se empenharam em uma luta digna contra as forças da ditadura e pela reconstrução da democracia em nosso país.

É importante entender que quando se estuda a psicanálise, podemos compreender as tramas do psiquismo humano em sua força na construção da subjetividade e também em suas linhas de força sobre a construção do laço social. O humano é um ser social. Pelo menos é o que acreditamos que deveria ser. Mas enquanto humano, é constituído por essas duas dimensões de Eros e Thanatos.

O que estamos vivendo e vendo divulgado à exaustão, no entanto, fere a nossa dignidade enquanto humanos e povo brasileiro. São imagens midiáticas, divulgadas para o mundo inteiro de um país onde graça o desmando, o escárnio dos poderosos em seu jogo sem limite pelo poder. São apreensões de malas e caixas de dinheiro em apartamentos de luxo, armazenados como na caixa forte do Tio Patinhas, personagem emblemático do capitalismo selvagem. Enquanto isso, milhares de pessoas sobrevivem com um mísero salário de fome, quando a maior parte da população não tem escola, saúde, saneamento.

Também podemos identificar os irmãos metralhas ‘Batista’, se vangloriando de destruir os poderes da república e por fim, como golpe de misericórdia fazer terra arrasada do judiciário e o ministério público. Os famosos e trapalhões irmãos fazem questão, como estratégia típica dos perversos, em gravar e divulgar suas tramas e trampas, para escandalizar e ameaçar o público, as instituições, a quem quer que seja, com seu poder.

Tão imbuídos estão de sua força de destruição, que a comparam à bomba atômica, convencidos de sua superioridade pois compram qualquer coisa, no entanto, tropeçam em operar um gravador, ficando presos na própria ratoeira. Mas esse engano, também não seria uma cena? Por que ficar gravando suas bravatas e confissões de traição à sua própria família, a intenção de seduzir autoridades, de contratar pessoas para jogos sexuais? Que febril narcisismo, pensando gozar, produzem essas exposições, antevendo o horror em um público hipotético deste patético espetáculo?

Por que escrever sobre isso, no dia de comemoração  histórica da Independência do Brasil?

Talvez porque, apesar de tantos séculos passados, ainda seguimos dependentes da nossa doença infantil de copiar os pais fundadores, exploradores, escravocratas, evangelizadores, que se apresentam para o povo brasileiro com suas miçangas, olhados por nós como o ideal de ser. Ideal de eu, a ser copiado ou imitado, como aqueles que sabem, que são poderosos e por isso têm a autoridade de extorquir, torturar, humilhar, que têm direito a decidir sobre vida e morte de um povo que morre a míngua, sem trabalho, sem esperança, sem vontade, sem ter porque lutar pela independência ou ...

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

Em Barcelona ou aqui, o terror nos fere e afeta - por Sueli Santos

Como não falar sobre os efeitos do terrorismo? Como pensar que isso não nos afeta? Como ficar indiferente à essas notícias e fatos que nos oferecem, a cada dia, os noticiários e as mídias de todo o mundo? Não estamos fora do mundo e não estamos imunes à seu contágio.

Não podemos ser ingênuos e pensar que as ações terroristas são apenas decorrente de fanatismo religioso, embora se saiba que as motivações religiosas, muitas vezes os produzem. Sabemos também que esse fanatismo pode estar presente em qualquer credo. Sabemos ainda que o fanatismo religioso está a serviço do controle social. Sobre controle social, entendamos o controle dos comportamentos, o cerceamento das liberdades, a repressão sexual, o poder econômico, a disseminação do medo e da insegurança.

Independente do que se possa atribuir como fator desencadeante, seja ele ideologia, fé, cultura, etnia, regime político, a história da humanidade foi construída pelo conjunto desses elementos. Mas em qualquer época, temos como ponto fundamental, o desejo de domínio de terras e povos para usurpar suas riquezas, escravizar a população, destituir sua cultura, desnaturalizar sua língua e costumes. Encontramos estas evidências em toda a história da humanidade no mundo civilizado, desde seus mais antigos registros, nos livros sagrados, na tradição da filosofia já presente nas bibliotecas desde Alexandria.

Mas por que, em pleno século XXI ainda, nós, os humanos, que evoluímos tanto, que dominamos tantos saberes sobre o cosmos, sobre a natureza, sobre as ciências, sobre as artes seguimos sem conseguir dominar o ser primitivo que nos habita? O que faz com que alternemos estados de puro desamor e destruição entre povos, impondo uns aos outros esse potencial mortífero de ódio?

Quando digo alternando, se deve a evidência de que o modo de operar a violência e o domínio entre os povos e potências, pode se apresentar de forma mais brutal por vezes e mais sofisticada em outros momentos. No entanto, o elemento sempre presente, que produz e fomenta os conflitos entre os povos é a violência, independente da falsa justificativa que o represente, ou seja, por discriminação de credo ou ideologia, ou poder econômico, ou cultural, etc.

O ataque da última semana em Barcelona, matando e ferindo pessoas, indiscriminadamente, não se pode dizer que não nos diz respeito, ou que é fruto apenas de mentes doentias. Nos afeta sim, quando achamos que a violência, geograficamente longe de nós, não está em nós, em espera. Acredito que quando nos horrorizamos com as mortes de inocentes, civis, pessoas desarmadas, nos ocorra pensar que os terroristas devam ser presos e punidos exemplarmente, talvez brutalizados também.

Nosso horror parece justificar ou legitimar a sede de justiça. Afinal, parece, somos do bem. Somos melhor ou mais puros que as pessoas com mentes doentias, que têm prazer em planejar a destruição de outras pessoas. Não nos damos conta que se alguém usa bombas ou explosivos, ou compram armamentos letais, ou se organizam para destruição com o auxílio de alta tecnologia, essas pessoas não vivem de forma precário, não são ignorantes, mas têm algum nível de informação, que têm inteligência, mesmo que não tenham escola e, principalmente, são financiados para tal finalidade.

 Afinal, o treinamento dos terroristas tem um forte braço armado pelo mercado que produz e vende armas químicas e de poder  de fogo sem limites.  Então estamos falando de jogo virtuoso, amparado no poder de vida e morte entre as grandes potências econômicas, em geral de países desenvolvidos com sua indústria armamentista e  de um poder oferecido pelo ‘deus’ mercado, que lucra com a venda desses dispositivos, verdadeiras máquinas de guerra. Essa engrenagem, lucra ainda mais com a fragilização produzida pelos efeitos de impotência que o terror produz, como trauma profundo e mesmo irreparável no psiquismo das pessoas.

Freud, nos ensinou que o homem é o único ser que é capaz de ter prazer em torturar, humilhar, escravizar e matar um outro, seu semelhante. Os animais não fazem isso, não matam por puro prazer de destruir mas por sobrevivência ou por se sentirem ameaçados. A luta de poder por território ou agrupamento de sua espécie também está ligada a manutenção de sobrevivência, de descendência, de cuidado com sua espécie.

Nos horroriza saber que há gente que vive para planejar a morte, a destruição, o extermínio, o terror em pessoas com as quais nem mesmo conhecem, indiscriminadamente. Não importa se crianças, jovens, velhos, homens e/ou mulheres, mas que sua única motivação é espalhar o medo, a insegurança, a intranqüilidade, a imobilidade frente ao poder de morte dos grupos radicais, e principalmente, ganhar dinheiro com isso.

Em suas diversas formas de ação, surpreender grandes aglomerações de pessoas em situação de deslocamento, de momentos de desfrutar de lazer, férias, encontros, esse é um elemento estratégico para que as pessoas passem a ter medo da liberdade, de viver seu direito de estar no mundo compartilhando o convívio, o conhecimento, o prazer.

Não importa se o terror ataca pessoas que não conhecemos em outros países, o terror tem suas ramificações entre nós, nos trópicos, sob forma de preconceito racial, sexual, machismo, de células criminosas que se albergam nas vilas, nas comunidades carentes, aliciando crianças e jovens para o tráfico, para o consumo de drogas, para a prostituição, paralisando a vida das pessoas. A exemplo de situações de guerra, impõem toque de recolher, a lei do silêncio, extorquem trabalhadores e pequenos comércios, ‘vendendo’ segurança e favores, controlando entrada e saída de becos e bem ao lado de nossas casas. Isso já fez escola mesmo nas pequenas cidades, em suas periferias.

Não é diferente um ataque em uma grande e culta cidade como Barcelona e os ataques a pequenas agências bancárias ou pequenos mercados das comunidades onde praticamente todas as pessoas se conhecem. A escola do crime é etinerante. Amedrontar comunidades com explosões de caixas eletrônicos no meio da noite, fazer cordão humano de proteção, assustar pessoas que até então viviam confiantemente em suas casas, deve nos fazer pensar que estamos muito vulneráveis, e que o terror não tem fronteira nem credo, nem limite, e que a vida está sendo banalizada.

Para além de pedirmos mais repressão policial para nos proteger, embora seja fundamental um efetivo sistema de segurança das pessoas, das cidades, talvez tenhamos que fortalecer a idéia que nossa força maior deva nos implicar na construção de nossa segurança. Como? Resgatando os laços entre nossos iguais, nossa comunidade, nossa vizinhança, apostar na educação como elemento realmente revolucionário para que a escola seja um eixo referencial para a formação de cidadãos, de dignidade, de solidariedade. Podemos reduzir o espaço da impunidade, do cinismo do poderosos vendedores de ilusão, tendo uma posição mais crítica, pró-ativa.   O terror que nos fere e afeta a todos, não pode ser mais forte que nossa possibilidades de defendermos nosso direito à liberdade e à vida.

Dra. Sueli Souza dos Santos
Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Telefones: (51)981417239 / (54)996757467

Como aprendemos ouvindo as crianças - por Sueli Santos

Semana passada, circulando por um grande Supermercado de São Francisco, presenciei um conversa muito interessante entre duas meninas. Este Supermercado tem uma variedade de itens e marcas que realmente não deve nada às grandes cidades. Como havia um oferta de muitos vinhos e espumantes, me dirigia a este setor, pois aí se encontram bebidas nacionais e dos países vizinhos com considerável variedade e qualidade. Eu queria comparar esses preços com os de Porto Alegre. Além do que é uma bebida que considero saudável se tomada com moderação.

Embora distraída, olhando o que se oferecia, ouvi duas meninas de aproximadamente 11 e 8 anos, comentando sobre o que viam e liam nas cartelas de preços e sobre os diferentes rótulos dos diversos países. Fiquei curiosa. Elas falavam muito animadas, pareciam mesmo excitadas como as crianças que entram em lojas de brinquedos. Estavam ali sozinhas, e comentavam sobre o que viam e da proibição de beber vinho. Em princípio, pensei que seus comentários tinham a intenção de mostrar uma à outra o quanto sabiam ler e identificar tantas variedades de uvas, e também para me impressionar, pois perceberam que eu prestava atenção em sua conversa.

Uma, a mais velha, dizia: vinho é ruim. Não é bom beber vinho.
A outra: é, é ruim, né? Eu nunca vou beber vinho. Tenho nojo de vinho. Vinho faz muito mal.
Uma: é muito ruim as pessoas sabem que faz mal.
A outra: mas agente não pode beber por que é proibido, a nossa religião não permite.
Uma: é a nossa religião não permite, mas tem gente que gosta. Olha só quantas garrafas!
A outra: é tem gente que gosta, mas vinho é só para rico porque é caro. Só os ricos podem tomar.
Uma: é mesmo, é bebida de rico.

Olharam em volta e só estávamos eu e elas ali. Se afastaram um momento. Procuraram as mães e voltaram para o mesmo lugar e tema. Talvez com esse diálogo possamos entender, o quanto, apesar de proibido, aquele lugar era interessante. Era proibido gostar de vinho, tomar vinho, as famílias não permitiam, a religião proibia, mas elas olhavam tudo com muito interesse. Quem sabe possamos pensar que esse lugar era tão interessante por ser um lugar de transgressão, aquilo não era permitido, e por isso estivessem tão animadas. Mas também falavam do proibido e de uma divisão de classes, afinal, só os ricos podem beber vinho, outra interdição. Por que algumas coisas são para os pobres e outras para os ricos?

Fiquei pensando, porque os refrigerantes, que são uma bomba de sódio e açúcar, que produz um risco à saúde, que pode desenvolver diabetes, obesidade, celulite, alterar a pressão artéria, não é proibido. Além disso, é vendido em embalagem de dois litros e meio. Não há nenhuma restrição em vender para crianças. Está nas casas de pobres e ricos, sem que se faça qualquer questionamento. Não há religião que proíba o refrigerante, apesar de seus malefícios para a saúde e produza uma verdadeira epidemia de sobrepeso. Mas as meninas não questionavam essa bebida, tampouco estavam interessadas nas gôndolas onde estão expostas.

A conversa avança. A mais velha pergunta à mais nova: tu vai querer um dia experimentar o vinho? A outra: não podemos, a gente é criança. Uma: sim, mas quando tu for adolescente, quando tu trabalhar, tu vai querer experimentar? A outra: quando eu crescer e tiver meu dinheiro, acho eu vou querer, só pra ver como é o gosto. Eu também, disse a mais velha. Mas agora a gente não pode. A mais velha, é agora não pode.

A essa altura as mães já chamavam, elas me deram uma olhadinha marota e se foram. Fiquei pensando, que maravilha de diálogo. As crianças formulavam suas hipóteses sobre o que ouviam, sobre o proibido, sobre o permitido, e parece também que encontraram uma forma de resolver a questão sobre as proibições. Um dia crescerão, serão mais independentes pois trabalharão. Terão seu dinheiro e aí poderão decidir se o proibido é realmente o que faz mal.

As proibições de fora para dentro, as verdades absolutas: isso é do mal, isso não pode, isso não se deve, isso é bonito, isso é certo, entram na formação da subjetivação das crianças com a força de um código que vem da cultura da família, de sua história, de suas crenças, de sua classe social, e tudo vai sendo formador de classificações que podem impedir de questionar se esses valores ensinados são absolutos ou se são formas de ver o mundo, de se colocar no mundo.

De certa forma, essas meninas tinham questões, hipóteses e sabiam que a proibição estava ligada ao que aprendiam nos valores de suas famílias e religião, mas que outras pessoas pensavam diferente. Viviam de forma diferente e quem sabe, quando tivessem autonomia, crescessem poderiam fazer sua experiência sobre o que para elas, todos esses princípios significavam.

Escutar crianças é bem importante, elas são inquietas e embora respeitem o que aprendem com a família, na escola, na igreja, na conversa com os amigos, podem ter um eu distinto, podem pensar diferente. É importante respeitar as interrogações, as dúvidas das crianças. As dúvidas têm a função de produzir novos sentidos sobre o quê se possa vir a ser ou fazer.

Dra. Sueli Souza dos Santos: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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