Ser águia - Fabrício Safadi

Ser águia - Fabrício Safadi

Em nosso nascedouro - este momento irrecuperável e inatingível em sua totalidade -, já devíamos saber que, apesar dos pesares, nunca é tarde para aprender algo novo em nossa sinuosa estrada em constante manutenção. Entretanto, se soubéssemos disto mais cedo do que o usual, poderíamos deixar de aprender várias fórmulas matemáticas, diversas esquematizações abstratas, inúmeras técnicas de ciclismo que salvaguardassem os nossos joelhos e cotovelos quando crianças. Afinal de contas, esta crendice referida na linha primeira nos faz afirmar a teleologia de nossos saberes.

Em outras palavras, faz com que creiamos na existência de uma confiança depositada sobre a esotérica presunção de nossos sentidos na qual afirma, de forma acintosa, que o futuro deve e vai se encarregar de atualizar nosso manual de instruções com algum novo aprendizado ou lição, como Anjo Gabriel ao pé do ouvido de Maomé.

Neste sentido, enveredando por esta senda, podemos ser vítimas de nosso próprio engodo. O tempo passa, a noite beija o dia, o dia trai a noite em uma adúltera relação com a Lua (muito raramente), e o que temos em mãos é muito pouco perto do que desejávamos.   

Observe-se a águia, este animal imponente, visionário, altivo e orgulhoso, que, certa feita, no inverno de sua vida procura uma altíssima montanha para sacrificar, contra as inanimadas rochas, as feições de suas garras e a protuberância de seu bico amarelo, tal qual o diadema de uma bela princesa. Eis o que devemos saber, mesmo sendo tarde.

O sacrifício dolorido de um animal que se recria com seus movimentos bruscos, vestindo armadura alvinegra, dona de um pescoço branco, tão limpo quanto a áurea de um santo. Exaltações à parte, admiremo-las, enaltecemo-las, aprendamos com elas a arte de renovar-se, a experiência de refletir sobre nossa própria vida. Todos nós precisamos encontrar a rocha da renovação, sem deixar de fora o nosso fio de Ariadne, nosso passaporte para o recomeço de tudo.

Enfim, se o mutismo esvoaçante desse belo pássaro fosse capaz de nos dizer algo em palavras, diria o seguinte: “Sigam em frente!”, “Olhem bem!”, “Pensem no que estão a fazer”, “Em disparada!”, “Sapere Aude!”. Para tanto, diria tudo em alto e bom som, sem referência bibliográfica alguma. Quem é sublime e está tão alto não se importa com as regras daqui de baixo. E com razão.

Fabrício Safadi - Novo Hamburgo, RS

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