Corredores Ecológicos • reconectando a Natureza - por Telmo Focht

Corredores Ecológicos • reconectando a Natureza - por Telmo Focht

No mundo todo, espécies animais e vegetais estão desaparecendo num ritmo muito mais rápido do que a taxa histórica de extinção. Um dos principais motivos é a perda dos seus habitats. principalmente devido ao desmatamento e à ocupação dos territórios pelos humanos e suas atividades. Os corredores ecológicos estabelecem uma conexão entre habitats ilhados, e são urgentemente necessários para preservar muitas centenas de espécies seriamente ameaçadas de extinção.

Além destas ameaças, a vegetação não apresenta naturalmente uma distribuição uniforme. É mais comum que ocorra uma graduação em sua variação (que também é chamado de gradiente ambiental).

Os motivos destas diferenças em sua apresentação dependem de vários fatores, como tipos de solo (sua composição química predominante, fertilidade, profundidade, entre outros fatores físicos e físico-químicos), clima regional, altitude em relação ao nível do mar, desmatamento, conversão em agricultura, silvicultura, campos para pecuária, para estabelecimento de núcleos urbanos (também conhecidos como manchas urbanas), instalações industriais, entre muitos outros usos.

Todos estes tipos de uso e parcelamento do solo, para os diferentes fins, ou estágio de desenvolvimento da vegetação são muito mais facilmente visualizados a partir de imagens aéreas, como o Google Earth©. Quanto maior for a altitude considerada, mais evidente que estamos olhando para um mosaico.

Em relação às áreas florestais, que apresentam uma riqueza e diversidades muito maiores que os ambientes constituídos predominantemente por vegetação herbácea ou de pequeno porte, quando elas sofrem o duro golpe de um desmatamento, há uma descontinuidade em sua estrutura/equilíbrio originais.

Quando isto acontece, restam manchas de vegetação, que podem ter tamanhos e distâncias diferentes entre elas. Os distúrbios que imediatamente se fazem presentes, principalmente em suas margens, são: maior insolação, aumento da temperatura e consequente redução da umidade, e os organismos adaptados ao interior da mata se deslocam para o interior da mancha restante.

Dependendo da distância entre as manchas, provavelmente haverá redução do deslocamento de pássaros entre elas, assim como de pequenos organismos terrestres, pois nesta nova situação, eles estarão mais vulneráveis a predadores, ao se deslocarem de uma mancha a outra, o que não acontecia antes, pois a própria floresta possibilitava seu abrigo. O mesmo acontece com os insetos que poderiam fazer a polinização entre as plantas, agora separadas por uma exposição a predadores, que não existia. Assim, esta distância reduz o fluxo gênico (reprodução) não apenas entre as plantas, mas também com todos os animais que passam a enfrentar um ambiente mais restritivo para o seu comportamento, por permanecerem no abrigo da floresta. Animais que precisam de um espaço mínimo para acasalamento e forrageamento (busca e exploração de recursos alimentares), como os grandes felinos, por exemplo, são os organismos mais prejudicados, já no curto prazo.



O que torna-se necessário, neste caso, quando possível, é o estabelecimento de corredores ecológicos, que são ligações entre estas manchas, com o objetivo de recompor pelo menos parte do equilíbrio desfeito pela nossa intervenção. Claro que quanto maior a distância entre as manchas, mais difícil e mais demorado será o tempo para que se consiga esta ligação. Existem algumas formas de reverter, pelo menos parcialmente, o dano. Podem ser instalados poleiros artificiais, de várias alturas, para o pouso de pássaros que, ao defecarem, podem fazer a dispersão de sementes dos frutos de espécies que ocorrem na floresta remanescente. Para incrementar esta dispersão, estes poleiros podem ser conectados por cordas de material que se decomponha naturalmente. São mais pontos de pouso para os pássaros. Podem também ser montadas redes dentro da floresta para coleta de sementes de suas árvores, no período de sementação, e posterior distribuição delas sobre o local, próximo aos poleiros, por exemplo. Outro recurso é o de espalhar troncos velhos caídos no chão, coletados no interior da própria floresta pois, quando em decomposição, apresentam uma rica fauna associada, assim como muitos fungos. É possível ainda o plantio deliberado de mudas de espécies nativas da região, de estágios sucessionais iniciais, pois são aquelas que “preparam“ as condições para o estabelecimento de uma floresta, depois de um longo período. Elas geralmente são mais adaptadas às condições de grande insolação e altas temperaturas. Outra possibilidade envolve a retirada de porções de solo do interior da floresta próxima (semelhante às leivas de grama usada para iniciar um gramado no pátio de casa, mas não necessariamente do mesmo tamanho) e promover sua deposição sobre a área desmatada. E todas estas sugestões, e ainda outras, podem ser usadas ao mesmo tempo.

É preciso ter em mente que estas alternativas, bem como muitas outras que possam ser apresentadas, já que cada caso é um caso, não garante o pleno sucesso da restauração de um corredor.

É necessário esclarecer que nem sempre é possível, ou viável, pois, se a abertura foi feita para a construção de uma estrada, por exemplo, sua ligação é mais difícil. Outro caso é o de instalação de redes elétricas para transmissão de energia, que por lei e por questões técnicas, a vegetação abaixo dela deve ser periodicamente removida, e deixar o local sempre com uma vegetação herbácea ou de baixo porte, no máximo.

Apenas para citar mais um exemplo, quando existe a abertura para conversão em lavoura, ou pastagem, o local só estará disponível para sua restauração se for abandonado.

Lembre-se que o estabelecimento de um corredor ecológico também é possível dentro de uma cidade, basicamente com a arborização de ruas e avenidas, conectando praças e áreas verdes.

Em resumo, devemos utilizar o máximo possível dos recursos do próprio entorno, para ajudarmos a própria Natureza a se restaurar. Ela agradece!

Fontes:
Ecologia Vegetal – Jessica Gurevitch, Samuel M. Scheiner e Gordon A. Fox. Editora Artmed. 2009. 592p.

Telmo Focht, biólogo, com doutorado em espécies exóticas invasoras. Também atua na área de licenciamentos ambientais.

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