Sucessão ecológica: a vida em movimento - por Telmo Focht

Sucessão ecológica: a vida em movimento - por Telmo Focht

Por sucessão entendemos como a mudança na composição das espécies e estrutura (ou a arquitetura/fisionomia) de uma comunidade vegetal ao longo do tempo. O termo considera mudanças ao longo de períodos maiores do que uma única estação do ano, embora tendências de prazo muito longo, como as devido a mudanças no clima, não sejam consideradas como parte da sucessão. Entretanto, em uma época de mudanças climáticas, talvez a ciência deva reconsiderar esta última afirmação. E por comunidade vegetal devemos entender o conjunto de vegetais existente em um dado local ou região. Nós é que definimos qual escala espacial a ser adotada. Se um metro quadrado até uma floresta inteira, passando por todo este intervalo de área...

A sucessão começa quando uma perturbação - um evento que remove parte ou tudo de uma comunidade – é seguida por uma colonização (o mesmo que chegada) ou o crescimento de plantas em um local alterado. Porém, os termos “sucessão” e “perturbação” podem levar a interpretações errôneas, já que ambos incluem uma ampla variedade de processos e mecanismos.

Nos atendo ao termo sucessão, em geral, o processo de sucessão passa por três estágios: inicial, intermediário e clímax. Mas agora a situação começa a mostrar suas nuances.

Chama-se de comunidade clímax quando, após passados muitos anos, comunidades simples são substituídas por populações mais complexas e, quando uma comunidade se estabiliza e consegue dar início ao processo de reprodução, essa comunidade estará momentaneamente adaptada, atingindo o clímax, ou seja, evoluída para sobreviver.

Três ambientes que considero muito didáticos para se observar uma sucessão são as dunas, desde o ponto em que em as marés altas atingem a praia, em direção ao interior do continente, aqueles locais que foram soterrados por lava, após uma erupção vulcânica, ou mesmo um campo agrícola abandonado. O primeiro caso é facilmente observável em qualquer praia, com a nossa enorme extensão de costa. O segundo já não é possível observar no Brasil, pois não temos vulcões em nosso país.

Particularmente, tenho uma certa predileção pelas dunas, pois ao longo de uma caminhada em direção ao interior podemos observar esta dinâmica. Considero o exemplo mais didático a ser observado e acompanhado. Na sua próxima ida à costa, note que existe uma variação de espécies, cobertura vegetal do solo e tamanho da vegetação, já em uma pequena distância da praia...

No terceiro caso, o de um campo agrícola abandonado, é o mais fácil de ser encontrado, já que pode ocorrer em qualquer local do país. Em seu primeiro ano, muitas espécies colonizam o local, e suas dominantes são, em sua maioria, plantas de vida curta - as anuais ou bianuais (que tem um tempo de vida de dois anos). Em poucos anos, essas espécies tendem a ser substituídas por plantas herbáceas perenes. Com o passar do tempo, começam a surgir arbustos e pequenas árvores, que passam a dominar a área. O tempo para o surgimento de arbustos geralmente é de até cinco anos. Algumas décadas depois, estas espécies arbóreas de pequeno porte e/ou vida curta são substituídas por espécies de maior porte e mais longevas, que passam a dominar o ambiente, e características de um estágio avançado (ou o clímax, que é o ponto final determinístico – considerando que há uma direção a ser seguida - hipotético de uma sequência sucessional) daquele ambiente.

Mas este é o exemplo clássico de uma sucessão, em que existe uma enorme diferença entre o seu início, com poucas espécies, e sua expressão máxima de complexidade, com uma enorme quantidade de interações entre todos os seus seres vivos componentes e o seu meio abiótico (ar, água, solo e temperatura). E as discussões a respeito das causas e da natureza do processo sucessional são parte do debate sobre a natureza das comunidades vegetais. Uma vez atingida a sua fisionomia final, as mudanças prosseguem, mas agora de uma forma muito menos evidente, pois, considerando que sua fisionomia final é de uma floresta, todos os seus organismos vão sendo substituídos ao longo do tempo. Lembre-se que a morte faz parte do processo, para dar lugar a outros seres. Só existe uma constante na Natureza: a mudança.



Até aqui comentamos apenas sobre as mudanças na vegetação. Mas ao longo de toda a mudança que ocorre na vegetação, desde uma vegetação de campo até uma grandiosa floresta, existe uma enorme quantidade de animais, bactérias, e muitos outros organismos unicelulares, assim como outros que não podem ser vistos a olho nu, tanto acima do solo, quanto a fauna em sua superfície e no interior do solo. As interações são em uma quantidade praticamente incontável. Considere que praticamente uma única árvore pode constituir um ecossistema, em razão da quantidade de organismos que pode abrigar e alimentar.

As florestas tropicais são as que melhor exemplificam esta situação. Mas não precisamos ir tão longe para termos contato com tal complexidade e beleza. Temos nossas Matas de Araucária e Atlântica, literalmente em nossos quintais.

Uma visão extrema é que a sucessão é um processo ordenado e previsível. A visão alternativa é que a sucessão é uma série de eventos imprevisíveis que resultam de interações entre os indivíduos e o meio abiótico.

Como um exemplo desta última visão, temos a Tundra, aquele grande campo de gramíneas que fica em sua maior parte no círculo ártico (nos extremos norte canadense e europeu). O seu clímax não vai além daquela fisionomia que estamos acostumados a ver, que é de uma extensa planície com umas poucas espécies herbáceas, frequentemente açoitadas pelo vento. Neste caso, este bioma tem dois fatores determinantes, que são o clima (clímax climático), onde a temperatura é muito baixa, que fica abaixo de zero boa parte do ano e o solo (clímax edáfico), frequentemente congelado. Em ambientes desérticos temos principalmente limitação de água no solo (edáfico).

Nosso planeta parece incansável em apresentar inúmeros ambientes que nos demonstram a grande possibilidade de estabelecimento de novas comunidades vegetais. Em outras palavras, nossa Natureza é pródiga em nos surpreender com sua imensa Sabedoria!!!

Fontes:
Ecologia – Eugene Odum. Editora Guanabara-Koogan. 1988.
Ecologia Vegetal – Jessica Gurevitch, Samuel M. Scheiner e Gordon A. Fox, capítulo 12. Editora Artmed. 592p. 2009.

Telmo Focht, biólogo, com doutorado em espécies exóticas invasoras. Também atua na área de licenciamentos ambientais.

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