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O Antropoceno: uma nova Era Geológica? - Por Telmo Focht stars

"Enquanto não se cogitar que haja uma mudança radical no sistema econômico, o crescimento econômico a qualquer custo continua a ser objetivo de pobres sufocados pela miséria e pelo desemprego, da classe média em busca de melhores oportunidades e de ricos atrás de lucros ainda maiores. Para não falar de indivíduos, governos e empresas que não enxergam além das dificuldades presentes ou, quando muito, do tempo de vida dos atuais dirigentes."

Os atuais habitantes deste planeta desfrutam de um privilégio duvidoso, no qual podemos escolher o caminho da destruição de nosso ambiente planetário, pelo esgotamento de seus recursos, ou seguirmos pelo caminho não apenas de nossa sobrevivência, mas de toda a vida em nosso planeta, da qual também dependemos. Se não tomarmos esta decisão, e logo, a natureza vai tomá-la (o que na verdade já está acontecendo), e as consequências não serão favoráveis a nós. No livro “O Buraco Branco no Tempo”, do astrofísico Peter Russell, o autor cita o trabalho de outro cientista, onde este afirma que a humanidade, na sua relação com o seu ambiente, está se comportando como o suicida que se atira do quadragésimo andar de um edifício e, ao passar pelo trigésimo, fala: até aqui, tudo bem.

No 35º Congresso Geológico Internacional, ocorrido em meados de 2016, foi sugerido o reconhecimento oficial do início de uma nova época geológica, chamada Antropoceno.

Não há consenso entre os cientistas sobre a época, ou mesmo data, que poderia ser considerada como o início desta época, mas, certamente, ela começou no momento em que o impacto da humanidade no funcionamento do ambiente planetário tornou-se comparável a grandes forças da natureza. Muitos reconhecem que a Revolução Industrial foi o passo mais influente em direção a estas alterações ambientais.

A seguir, um breve resumo da história geológica dos 4,55 bilhões de anos da Terra.

 

Para começar, em quatro éons: Hadeano (sem vida), Arqueano (primeiras formas de vida bacteriana), Proterozoico (células complexas e primeiros multicelulares) e Fanerozoico (formas de vida diversificadas). Cada éon divide-se em várias eras, que no caso do Fanerozoico são três: Paleozoico (plantas, peixes, insetos, anfíbios e primeiros répteis), Mesozoico (“era dos dinossauros”) e Cenozoico (“era dos mamíferos”). O Mesozoico divide-se em três períodos, Triássico, Jurássico e Cretáceo, e o Cenozoico em outros três: Paleogeno, Neogeno e Antropogeno (mais conhecido como Quaternário).

O Antropoceno é, portanto, a 38ª época do Fanerozoico e a terceira do Quaternário. O Nobel de Química Paul Crutzen, em 2000 propôs a ideia com seriedade, e indicou 1800 como o início do “primeiro estágio”, de difusão das máquinas a vapor industriais, início do consumo maciço de combustíveis fósseis e aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, e 1945 como o “segundo estágio”, de aceleração súbita da industrialização e do crescimento demográfico.

Por nossa influência, a concentração de CO2 e metano (gases que aumentam o efeito estufa na atmosfera) aumentaram nos dois últimos séculos, com efeitos na temperatura média do planeta, no clima e na acidificação dos oceanos e, em breve, no nível do mar. Isótopos e compostos químicos persistentes e inexistentes na natureza, do plutônio ao PVC, misturaram-se ao solo e à água e deixam marcas indeléveis nos sedimentos marinhos e lacustres, nas geleiras e nas estalactites e estalagmites das cavernas, sem contar os efeitos sobre a nossa saúde. O PET apresenta efeito de imitar hormônios masculinos, o que está reduzindo a fertilidade masculina. A adição de agrotóxicos para aumentar e (pretensamente) melhorar a disponibilidade de alimentos a um população crescente; o esgotamento dos recursos planetários para atender uma demanda também crescente, para atender as necessidades desta população.

Há que considerarmos que o nosso consumismo está prejudicando o nosso ambiente. Muitas pessoas pensam que a partir do momento que colocam seus resíduos na lixeira, e o caminhão os recolhe, os problemas estão resolvidos. Aí reside um engano, pela falta de informação, e mesmo desinteresse, sobre para onde vai e como será processado este resíduo a partir daí.

Espécies de animais e vegetais estão sendo extintas a um ritmo cem a mil vezes mais rápido do que em tempos normais. A maioria das espécies selvagens de médio e grande porte está hoje extinta ou aparentemente condenada – inclusive algumas das mais icônicas, como leões, rinocerontes, onças e elefantes – e os domésticos se multiplicaram absurdamente.

Nossos hábitos alimentares também não são mais comportados pelo ambiente, considerando-se que a dieta com muita proteína animal, pois muita área de terra é destinada à criação de animais, e mesmo para a produção de ração para alimentá-los, seja para nosso consumo posterior, ou mesmo para alimentar nossos animais de estimação (pets).

O pescado marinho para nosso consumo (ou de nossos pets) está sendo buscado em locais no oceano cada vez mais afastados dos locais tradicionais. Há casos em que imensas redes de arrasto são utilizadas para literalmente varrer o fundo do oceano para obter este pescado, destruindo tudo no seu caminho.

A visão de um crescimento econômico cada vez maior (ou infinito) em um espaço finito não se sustenta, fato já observado, e divulgado, pelo próprio Banco Mundial, na década de 1970. Também naquela década, em 1972, foi realizada a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, na Suécia, para discutir problemas ambientais no mundo, com a participação de representantes de 113 nações, de 250 organizações não governamentais e de organismos da ONU, que compareceram ao evento.

Enquanto não se cogitar que haja uma mudança radical no sistema econômico, o crescimento econômico a qualquer custo continua a ser objetivo de pobres sufocados pela miséria e pelo desemprego, da classe média em busca de melhores oportunidades e de ricos atrás de lucros ainda maiores. Para não falar de indivíduos, governos e empresas que não enxergam além das dificuldades presentes ou, quando muito, do tempo de vida dos atuais dirigentes.

As anunciadas viagens espaciais para colonizar novos planetas/satélites estão sendo promovidas apenas dentro do ponto de vista predatório que estamos praticando em nosso próprio planeta. Estas viagens, e uma possível colonização, se o novo ambiente permitir, mesmo após adaptação, só tem o objetivo de satisfazer nosso apetite atual por recursos.

Há uma preocupação que tem sido muito discutida nos últimos anos nos meios científicos, principalmente, dentro do conceito de “limites planetários seguros”, que envolvem a ideia da sustentabilidade do planeta como um todo, e de modo permanente.

Estas discussões têm acontecido nas Convenções sobre Mudanças Climáticas mas, como as decisões finais dependem dos políticos, praticamente não avançam, infelizmente. E no ano passado (2017), o país com a maior contribuição a estas mudanças, os Estados Unidos, decidiu sair da mesa de negociações.

Lembro-me de há vários anos ter recebido uma figura, onde a Terra teria chamado o ser humano para discutir os termos para a renovação do contrato de aluguel. Após a Terra ter nos lembrado que quando nossa espécie chegou ao planeta, o ar era muito mais puro que hoje, não havia o tipo nem a quantidade de lixo que deixamos espalhado pelo solo e oceanos, existiam muito mais espécies que agora, entre outras recordações nada agradáveis do que estamos fazendo ao nosso próprio lar, ela pergunta: vocês têm outro planeta para ir? Se temos, eu não estou sabendo.

Também não adianta nada apenas mudarmos de endereço, se nossa consciência não acompanhar esta mudança, pois repetiremos os mesmos erros que nos levaram à situação atual.

Mesmo que a mensagem do inquilino tenha tom de brincadeira, eu gostaria que não precisássemos mudar de planeta, mas de mentalidade, para uma que tivesse consciência de respeito ao nosso ambiente (ver a postagem “Ecologia Profunda”, neste site).

Por mais que tentem nos passar uma mensagem de que a tecnologia é a solução dos nossos problemas, dependemos totalmente de nosso ambiente.

 

Fontes:

http://www.cartacapital.com.br/revista/917/antropoceno-nos-humanos-criamos-uma-nova-epoca-geologica

Artaxo, Paulo. Uma nova Era em nosso planeta: o Antropoceno?. Revista USP. São Paulo, n. 103, p. 13-24. 2014.

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