Como falar sobre a morte com uma criança? - por Thainá Rocha

Como falar sobre a morte com uma criança? - por Thainá Rocha

Afinal, por que e para que falar de um tema que pode ser tão triste, que nos traz e nos remete a tanto sofrimento? Por ter em si tanta dor, angústia e ansiedade, a morte é um tema bastante negado. 

E, pensando nas crianças, sabemos que muitas vezes esse assunto gera grande ansiedade por parte dos pais, assim como dificuldades em como abordá-lo e carregado de infinitas dúvidas. Como contar? Inventar uma história? Levar ao funeral? Não levar? Infelizmente, esse assunto se faz necessário a todos (sim, isso inclui a criança!).

Muitas vezes, para que a criança não sofra, a impedimos de olhar para a realidade da vida e suas perdas. Os ganhos são valorizados, e as perdas, muitas vezes, negadas. E, ao fazer isso, reforçamos a dificuldade de lidar com várias perdas vivenciadas ao longo da vida: o brinquedo que quebra, o animalzinho de estimação que morre, o amiguinho que se mudou para outra cidade, a morte de alguém...

De fato, é sim preciso ter cuidado em como falar da morte com as crianças. Porém, o adulto, em geral, adota uma atitude de negar a explicação sobre a morte e tenta, muitas vezes, afastá-la magicamente, procurando minimizar o significado que a morte pode ter como força ativa no desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança, o que acaba, na realidade, prejudicando seu desenvolvimento. Não abordar o assunto com a criança pode fazer surgir sintomas (físicos e psíquicos) de diferentes gravidades. A verdade pode ser triste, mas ignorá-la, pode adoecer!

Poupar as crianças da morte ou do conceito de morte achando que são muito pequenas para entender não é o ideal para que cresçam sem medo. Por isso os adultos são fundamentais para explicar que a morte faz parte do ciclo natural da vida.

O que elas são capazes de compreender conforme a idade?

Crianças de 0 a 2 anos: 

  • O conceito de morte não existe;
  • A morte é percebida como ausência e falta.

Crianças de 3 a 5 anos:

  • Compreendem a morte como um fenômeno temporário e reversível. Não entendem como uma ausência sem retorno;
  • Atribuem vida à morte, ou seja, não separam vida/morte. Não distinguem seres animados dos inanimados. Entendem a morte ligada à imobilidade;
  • Apresentam pensamento mágico e egocêntrico. Para elas, tudo é possível;
  • Compreendem a linguagem de modo literal/concreto.

Crianças de 6 a 9 anos:

  • Apresentam uma organização em relação a espaço e tempo;
  • Distinguem melhor os seres animados dos inanimados;
  • Entendem a oposição entre a vida e a morte, compreendendo a morte como um processo definitivo e permanente. Compreendem a irreversibilidade da morte;
  • Há uma diminuição do pensamento mágico, predominando o pensamento concreto;
  • Ainda não são capazes de explicar adequadamente as causas da morte;
  • Conseguem apreender o conceito de morte em sua totalidade (em relação à não funcionalidade, à irreversibilidade e à inevitabilidade da morte).

Crianças de 10 anos até a adolescência:

  • Devido ao pensamento formal, tornam-se mais abstratos. Já compreendem a morte como inevitável, irreversível e universal;
  • As explicações são de ordem natural, fisiológica e teológica.

Sendo assim, é possível perceber que crianças pequenas não conseguem perceber claramente que a morte é definitiva e irreversível, mas entendem que não mais brincará com o seu avô ou sua mãe não a levará mais para a escola, por exemplo. 

Já as mais velhas percebem que a morte é algo natural e precisam de explicações concretas para entender como a pessoa que morreu não vai mais se mexer, abrir os olhos, falar ou comer. 

Não é preciso esperar a ocorrência de uma morte próxima à criança para começar a falar deste assunto. Aproveite pequenas mortes (como a de insetos, plantas, etc) como oportunidades para a criança elaborar representações da morte e compreender o ciclo da vida. Explicar o processo de envelhecimento, principalmente se a criança tiver exemplos como um avô, e o porquê da morte também contribui para o entendimento menos traumatizante. Porém, não devemos enganá-las dizendo: “morremos quando formos velhinhos”. Sabemos que, lamentavelmente não é sempre assim: bebês morrem, crianças, jovens, adultos e idosos. Morremos quando a vida acaba. Tudo o que nasce, um dia morre. 

Outra forma de expor de forma concreta esse acontecimento é através de livros, que podem auxiliar os pais na hora de conversar com as crianças sobre o assunto, contendo palavras simples e de fácil assimilação por parte das crianças.

Algumas dicas de livros:

“Um gato tem 7 vidas” de Luísa Ducla Soares

“Menina Nina – Duas razões para não chorar” de Ziraldo

Começo, meio e fim” de Frei Betto

Algumas dicas práticas:

  • Fale e ouça a criança: O melhor a se fazer é deixar a criança perguntar o que quiser, encorajando-a a expressar o que sente. Responda as perguntas com palavras simples e frases curtas para que a criança possa entender o processo natural da morte. Ouvir com atenção é muito importante, porque os adultos tendem a responder numa questão simples muito mais do que é perguntado. As perguntas das crianças devem ser ouvidas com atenção pelos pais para que eles possam de fato endereçar a resposta à questão solicitada pela criança. As respostas devem ser breves, simples e coerentes com um entorno emocional tranquilo. 
  • Não evite falar sobre o assunto se a criança demonstrar necessidade: O “não dito” é absorvido pela criança que nem sempre compreende o que de fato está ocorrendo. A criança percebe que “algo” é ocultado pelas mudanças de comportamento do entorno familiar. Nesses casos, a criança pode passar a responder apresentando comportamentos desorganizados, agitados e sonhos assustadores sem conteúdo compreensível. Resumindo, orienta-se os pais a não deixarem seus filhos sem respostas uma vez que o silêncio não simplifica a vida da criança e tampouco a dos pais, ao contrário, promove confusão e angústia.
  • E se ela perguntar “O que acontece com os mortos?” Primeiro, elabore seus próprios conceitos e crenças sobre a morte. Depois, é importante explicar que nem todos pensam da mesma forma. Seja honesto! Nem sempre você terá todas as respostas. Não há problema algum em dizer “não sei!”. 
  • E se a pessoa for muito próxima? Se a morte for por doença, a criança deve estar a par de todo o processo. Explique que a pessoa está doente e que é grave, lembre do ciclo da vida da plantinha. Se a morte for inesperada, é preciso ser direto e sincero. Abra espaço para tirar todas as dúvidas que podem estar passando pela cabeça do pequeno. Não é necessário esconder as emoções, mas observe se sua atitude não está “traumatizando” a criança.
  • E se eu inventar uma historinha? Os pais sentem com frequência que devem proteger as crianças mais novas da perda de um ente querido. Porém, devem ir além de uma explicação lúdica e contar a verdade com clareza para melhor elaboração da perda. Evite falar que a pessoa dormiu para sempre ou descansou, a criança leva tudo ao “pé da letra” (como vimos anteriormente, principalmente as mais novas) e pode ficar com medo na hora de dormir ou achar que a pessoa que morreu acordará. A expressão “foi fazer uma longa viagem” ou “foi embora” também pode confundir a criança e levá-la a acreditar que todos aqueles que farão uma viagem podem nunca mais voltar ou até mesmo que a pessoa morta poderá voltar um dia. 
  • Participar ou não do funeral? As crianças não precisam ser expostas à funerais potencialmente traumáticos. Porém, nunca decida pela criança. Pergunte à ela! Grande parte dos especialistas concordam que o funeral só deve ser assistido pela criança se ela quiser. Não faça com que ela se sinta culpada se não desejar ir. O apoio das pessoas de sua confiança é muito importante. Se a decisão for de ir, explique como será e as cenas que ela visualizará ao seu redor, assim como a existência do caixão e de pessoas chorando. Também é importante escolher o período certo: momentos com potencial expressão de desespero ou de grande comoção emocional devem ser evitados. Também é importante que tanto o portador da notícia quanto quem a acompanhe no funeral seja alguém próximo em quem a criança confia.
  • Aceite e acolha as expressões emocionais da criança sem tentar suprimi-las. Considere que a criança pode comunicar a dor da perda por diversos comportamentos e não apenas em palavras. Reações de agressividade, medo, isolamento, perda de sono e apetite podem ocorrer.
  • Ofereça possibilidades: desenhos/pinturas, brincadeiras com personagens, conversas sobre histórias lidas sobre o tema, etc, para manifestação e reconhecimento dos sentimentos que a própria criança vivencia. O entendimento alivia a dor!

Concluindo...

A criança precisa saber da existência da morte, aceitá-la para enfim criar o seu processo de luto. Cada criança mostra o seu luto de diferentes modos e esse processo é fundamental para conseguir passar por esse momento sem criar culpa, medo ou traumas. Se o adulto tem medo da morte e tenta poupar a criança, ela reagirá da mesma forma. Mas se o adulto mostrar com naturalidade o ciclo da vida, a criança lidará de forma mais saudável com esse acontecimento.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

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