Quando ficar longe é preciso... Aprendendo a se despedir (e a tolerar!) - por Thainá Rocha

Quando ficar longe é preciso... Aprendendo a se despedir (e a tolerar!) - por Thainá Rocha

Sim... tempos modernos! Tem se tornado cada vez mais comum que um dos pais tenha uma vida profissional em que precise estar ausente. O fato de ter que permanecer longe de um filho, especialmente se for pequeno, pode gerar muito sofrimento, tanto para o adulto quanto para a criança. Portanto, é necessária a colaboração de toda família para que esta ausência não seja traumatizante.

Crianças pequenas, especialmente as que têm até seis anos de idade, apresentam comumente medo do abandono dos pais ou de sua perda. Então, é extremamente recomendado que ela sempre seja reforçada em saber que os pais irão voltar e quanto tempo ficarão longe. Mesmo que ela não tenha a noção de tempo bem organizada ainda, este tipo de orientação diminui sua angústia e constrói um vínculo de confiança com seus pais. Da mesma forma, é importante que o pai que for ficar longe demonstre que confia nos cuidadores substitutos, sejam os avós, uma babá ou outro familiar. Toda criança sente quando estamos inseguros e isto pode gerar angústia.

Algumas dicas práticas de como abordar a situação com a criança:

  • Explique o que é saudade e que é natural sentirmos falta de alguém que gostamos quando estamos longe;
  • Demonstre confiança no cuidador que ficará com a criança, explique que você sabe que ele ficará bem cuidado e que você só está indo viajar porque existe essa confiança;
  • Utilize algum recurso visual e concreto, que tenha a função de calendário, para que a criança possa acompanhar a passagem do tempo. Muitas vezes, principalmente quando se trata de crianças pequenas, elas não tem a noção de temporalidade e isto precisa ser construído através da orientação dos adultos e amadurecimento cognitivo. Por isso, tornar este processo visual, concreto e divertido auxilia a angústia de estar temporariamente separados de um dos pais;
  • Procure não aliviar sua culpa trazendo grandes presentes, mas é recomendado sim trazer algo significativo de sua viagem;
  • Deixe fotos suas para que a criança possa sentir-se acompanhada por você.

Estas dicas auxiliam bastante, porém o mais importante é sentir que a decisão de viajar é benéfica para os dois lados. Transparecer insegurança, sem sombra de dúvidas, é bastante prejudicial. Preparar a criança é essencial, mas esteja preparado você também!

É importante lembrar que, a respeito de estar longe, não necessariamente seja o caso que envolva uma viagem. Muitas vezes ficar algumas horas na casa da avó, os primeiros dias na nova escola, uma noite na casa de um coleguinha ou de um familiar, enfim, geram ansiedade na criança (e nos pais também, muitas vezes ainda mais do que na criança!) e parte do mesmo princípio fundamental já citado anteriormente: NÃO DEMONSTRAR INSEGURANÇA.

Na cabecinha da criança, a mensagem enviada vai mais ou menos assim: “se minha mãe está sentindo medo de me deixar aqui, isso pode ser perigoso para mim!”

É aí que entra também a famosa “Ansiedade de Separação”, e a origem dela começa mais cedo do que se imagina. 

Ela acontece por que, inicialmente, o bebê não tem a percepção de que ele e a mãe são seres distintos. É uma simbiose completa. Em torno dos seis meses (mas pode estar presente até em torno dos dois anos de idade), o bebê começa a moldar o que depois se transformará em independência. Mas nesta fase, ele ainda não se dá conta da constância dos objetos, ou seja, tudo aquilo que “some” pode nunca mais voltar. Por isso a choradeira quando você (e as pessoas mais significativas para o bebê) sai.

Sim, trata-se de uma fase normal do desenvolvimento e que demonstra que o seu filho está percebendo o mundo à sua volta. Agora que você já sabe de tudo isso, o que fazer de forma prática?

  • Não caia na tentação de sair escondido ou “de fininho”, despeça-se da criança com tranquilidade, dando “tchau” e dizendo que irá retornar;
  • Os chamados “objetos transicionais” ajudam a aumentar a segurança do pequeno. Pode ser um paninho, brinquedo, fraldinha… Qualquer objeto que lhe traga segurança;
  • Despeça-se, mas não prolongue este momento, certamente a criança irá parar de chorar alguns minutos depois quando estiver com outra pessoa em quem confia;
  • O “treino” para esse momento já pode começar quando seu filho ainda for um bebê: A famosa brincadeira de esconde-esconde e “achou!” são ótimos exercícios para que o bebê entenda a constância de sua presença e dos objetos;
  • Nunca é demais lembrar: procure controlar a própria ansiedade. Quanto mais tranquilo o adulto estiver, maior segurança passará para a criança. 

Para concluir, acredite que este momento irá passar. Muitas vezes, esta situação transforma-se em grande angústia e sofrimento (na criança e nos pais). Nesses casos, apoie-se e busque ajuda profissional.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

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