Seu filho tem um amigo imaginário? - por Thainá Rocha

Seu filho tem um amigo imaginário? - por Thainá Rocha

Um belo dia você entra no quarto do seu filho e o encontra brincando com alguém imaginário. Calma!

Primeiramente, é importante lembrar que a maioria das crianças gosta de brincar de “faz de conta”. Estas brincadeiras envolvem o uso de bonecos e objetos que a criança usa fingindo que são verdadeiros. Este tipo de brincadeira não só é saudável, como extremamente importante para o desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e emocionais. Ao recriar, através da brincadeira, situações reais ou de fantasia, a criança vai se apropriando do seu mundo e aprende a lidar com os outros, com as suas emoções e desenvolve novos comportamentos e pensamentos.

Algumas crianças, para além deste tipo de brincadeira, criam um amigo imaginário. Um amigo imaginário distingue-se da habitual brincadeira do faz de conta pelo fato de ser alguém invisível, que só existe na imaginação da criança. Esse tipo de comportamento é bastante comum dos 3 aos 7 anos de idade.

Muitos pais descobrem que os seus filhos têm amigos imaginários “acidentalmente”: ou porque observam a criança conversando sozinha, ou porque “sentam” no amigo imaginário que está “sentando na cadeira ao lado com a criança” ou porque a criança lhes conta aventuras que viveu com alguém que os pais sabem que não existe.

Descobrir que o filho tem um amigo imaginário pode ser motivo de grande preocupação para os pais, que muitas vezes se questionam se este será um sinal de que a criança tem dificuldades e/ou perturbações.

Confira a seguir as principais dúvidas sobre esse assunto e algumas orientações de como lidar com essa situação:

Ter um amigo imaginário na infância é normal?
Sim, como qualquer fantasia nessa fase. É algo similar, por exemplo, à criança que brinca com a boneca e crê que ela é sua filha ou àquela que crê em Papai Noel ou no Coelhinho da Páscoa. É nessa época da vida também que os pequenos acreditam na existência de monstros, vampiros e fantasmas e, por causa disso, têm medo de dormir sozinhos. Vale saber que tudo isso é considerado saudável: é com base nessa experiência que a criança começa a se relacionar com o mundo e expressar as emoções.

O que é importante que os pais observem nessa fantasia?
Na brincadeira fantasiosa, a criança mostra o que acontece no seu mundo interior. E, quando ela cria um amigo imaginário, os pais precisam observar como se dá essa relação. Se é algo normal e saudável, não há com o que se preocupar. É preciso apenas ficar atento quando ela coloca sempre a “culpa” de algo malfeito no amigo ou, o contrário, quando atribui a ele todos os elogios. No primeiro caso, isso pode sinalizar uma fuga da própria responsabilidade. No segundo, pode indicar baixa autoestima.

Ter um amigo imaginário pode ser um sinal de solidão?
Não é regra, mas pode. É preciso analisar a situação. Pais de filhos únicos, por exemplo, devem ficar atentos para que o filho tenha contato com outras crianças. Por exemplo, algo que pode acontecer é o pequeno querer ficar mais na companhia do amigo imaginário do que na do real. Daí cabe aos pais incentivá-lo a brincar com outras crianças.

Crianças que têm um amigo imaginário precisam de um acompanhamento psicológico?
Depende. Só quando os pais desconfiam que o amigo imaginário é uma válvula de escape para dificuldades de relacionamento ou mesmo de comunicação. 

O amigo imaginário pode ser tanto outra criança como um adulto?
É mais comum que seja uma criança. Agora, se for um adulto, pode ser um sinal de que alguma coisa não vai bem com um dos pais. Nesse caso, é importante investigar. A criança pode estar fazendo com esse amigo coisas que gostaria de fazer com o pai ou com a mãe. Portanto, essa observação costuma dar pistas do que está faltando na relação entre pais e filhos.

Quais são os momentos em que o amigo imaginário mais aparece?
Normalmente quando a criança está se divertindo sozinha. Se a criança, por exemplo, está brincando de casinha, pode colocar um pratinho para o amigo ou pode sentar e bater papo com ele. Às vezes, ele também aparece durante as refeições e então a criança pede para a mãe o servir, ou na hora de dormir e ela diz aos pais que o amigo deve ganhar também um boa noite.

É comum que a criança tenha mais que um amigo imaginário?
Sim, a criança pode projetar em cada um deles uma personalidade diferente que irá ajudá-la a se compreender melhor. Um amigo pode ter dificuldades escolares, o outro pode ser muito estudioso, um pode ser mais sociável e outro tímido, etc.

Por quanto tempo é considerada normal a existência desse amigo?
O tempo é variável. Podem ser meses ou anos, mas normalmente esse tipo de fantasia se desfaz até os 7 anos de idade. Um dia a criança simplesmente pára de falar dele da mesma forma que larga o paninho ou o ursinho, que vivia com ela e lhe dava segurança. Quando o amigo desaparece é porque o pequeno não tem mais necessidade dele por perto. Quando isso acontece, a criança percebe que ele não faz mais sentido porque já encontrou outros caminhos para lidar com a realidade. O que antes vinha do pensamento é transformado em sentimentos reais, próprios da maturidade emocional e cognitiva. 

Para concluir, se você desconfiar que essa interação passa dos limites, observe se o seu filho está se isolando, se não quer mais ir à escola, se está deixando de comer. Se ele não quiser largar o amigo de jeito nenhum, será preciso uma investigação mais aprofundada para descobrir o que há por trás dessa fuga da realidade. Em paralelo, os pais podem estimular o convívio dele com crianças de verdade. Vale fazer festas do pijama, passeios no parque e tudo que melhore o convívio social. Na maioria dos casos, a companhia imaginária é uma fase de transição. E, enquanto ela não passa, é melhor que os pais tratem a situação com normalidade.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência. 

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