“Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte II - por Thainá Rocha

“Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte II - por Thainá Rocha

Dando continuidade ao tema da última postagem, hoje quero lançar outras reflexões antes de dar início à parte prática do nosso assunto. Para quem leu o texto anterior, conseguiram pensar sobre quais seus objetivos ao educar e qual pessoa querem formar?

Hoje separei mais alguns tópicos para pensarmos juntos... como é educar nos tempos de hoje? Quais as consequências nas crianças diante da ausência de autoridade? Filho é um projeto e a educação é um processo... como assim? Qual a importância do que os pais fazem? 

Vamos lá...

Educar nos tempos de hoje

Você já ouviu falar que as crianças de hoje são muito mais desobedientes do que as de antigamente? E que os pais atualmente não sabem dar limite aos filhos?

Percebo que há uma questão que tem tornado o ato de educar ainda mais desafiador: os tempos atuais. Hoje vivemos em uma sociedade de valores instáveis, em um mundo que tudo pode e que nada mais surpreende ninguém. O que isso significa? Que o mundo atual é guiado por algumas características que dificultam a educação dos filhos, como a instabilidade de valores, a busca desenfreada pelo prazer imediato a qualquer custo, o consumismo, o individualismo e a dificuldade que muitos adultos tem de dar sentido à vida. (LA TAILLE, 2009).

O que isso tem a ver com a educação das crianças?

A liberdade completa não pode ser oferecida às crianças e aos adolescentes, pelo simples fato de que elas ainda estão em desenvolvimento e não têm como opinar ou escolher a respeito de determinadas situações ou fatos. Assim, os pais são responsáveis por ensinar o certo e o errado aos filhos. Então, em uma sociedade que tudo pode e nada mais parece estar certo ou errado, ampliam-se as dificuldades. Outra questão muito importante aqui é que hoje em dia é bastante comum ouvir os pais dizerem que querem dar aos filhos tudo aquilo que não tiveram. Aqui cabe um alerta: será que ser bom pai é dar ao filho tudo aquilo que ele quer? A resposta correta é “não”. O motivo? Primeiro porque “tudo” é demais e inalcançável e segundo, ao dar tudo o que o filho quer o impede de experimentar a conquista, a espera, o desejo, a valorização e até a possibilidade de aprender a se frustrar. Como chegam no consultório crianças que não sabem lidar com a frustração, característica tão importante para aprender a encarar a vida e não adoecer emocionalmente! E como tenho atendido pais que se frustram ao não saberem lidar com a frustração do filho!

Outra característica da sociedade atual é: falta de tempo. Pais trabalham enlouquecidamente (inclusive para oferecer aos filhos exatamente tudo o que não tiveram). Mesmo as agendas infantis são abarrotadas de compromissos. Os pais sabem que no meio de toda essa correria, não tem tempo de ficar com os filhos. Sentem-se então culpados de, nos poucos minutos que tem junto a eles, impor-lhes limites... compensam a ausência com presentes... enquanto isso, falta tempo para ficar junto, para refletir sobre essa correria toda. Falta-se tempo até mesmo para se ter filhos!

Li uma vez que uma boa forma de caracterizar o homem nos dias de hoje é a figura do turista. O turista é aquele que está de férias. Está ali só de passagem. O tempo é curto e tem que cumprir um protocolo de visitas a todos os pontos turísticos, para sentir que passou por ali nem que seja por 5 minutos, o tempo de tirar algumas fotos já é o suficiente. O turista vive relações frágeis com as pessoas que conhece na viagem, pois muitas vezes não voltará a vê-las. Como ser pai e mãe em tempos de gente “turista”? O papel de pais não pode ser de turista na vida dos filhos. 

Para refletir...

  • Você tem sido um turista na vida do seu filho?

Ausência de autoridade

Pai e mãe são os adultos da relação. Não se pode negar a necessidade da autoridade do adulto para a criação e a educação das crianças. A criança e o jovem são os mais novos e não estão prontos para o mundo, portanto, precisam de ajuda dos mais velhos para crescer e se desenvolver. Isso explica a importância da autoridade. Pais “turistas” negam sua autoridade na relação com os filhos e não assumem o seu papel de adulto na relação. Existem várias formas de negar a própria autoridade na relação com os filhos, vou citar as que mais percebo. Uma delas diz respeito aos pais que abrem mão dela na ansiedade de não reproduzirem a educação autoritária que receberam. Os pais confundirem educação com agressão, humilhação, etc. É possível ter autoridade sem precisar feri-los (por dentro e por fora). Outra forma de negar a autoridade são os pais que querem ser “amigos” dos filhos. Ao assumirem a relação de amizade, eles abrem mão do verdadeiro papel, que é o de ser pai ou mãe. Isso não quer dizer que o pai não deva ser próximo ou amigo do filho. Mas tem que haver um entendimento de que não é uma relação entre iguais. 

Li também, certa vez, que nos tempos de hoje, a autoridade tem sido substituída pelas celebridades. O que significa ser celebridade: Ter tudo o que se quer (consumismo); fazer tudo o que se quer (busca pela satisfação a todo o custo); ser o mais famoso, o mais conhecido e o vencedor (individualismo). Mas quanto tempo dura, muitas vezes, uma celebridade? (relações descartáveis). 

Dessa parte, posso destacar dois pensamentos importantes. O primeiro é que ser pai e ser mãe é ser os adultos da relação, o que implica assumir a autoridade. O segundo é que os tempos atuais exigem ainda mais a participação dos pais na educação dos filhos.

Para refletir...

  • Sei a diferença entre autoridade, amizade e celebridade?



Filho é um projeto

Filho é um projeto pessoal. Ainda que não tenha sido planejado, você decidiu assumi-lo. Trata-se de um projeto duradouro. Não se pode divorciar ou desistir dos filhos. Filho é alguém que necessita de cuidados e proteção até que esteja pronto para ingressar no mundo adulto. É um projeto bastante demorado. A educação de uma criança acontece diariamente, desde que ela chega ao mundo até se transformar em um adulto. Há demora e demanda para se educar uma criança. Essa realidade nem sempre é consciente para alguns pais. Nenhuma criança pede para nascer. Se você a teve, adotou-a ou assumiu sua guarda, tem que saber que, como adulto, assumiu um projeto pessoal e duradouro. Você é o adulto e, por isso, terá que se doar muito mais do que receber em troca. Não dá para trocar de filho, devolver ou desistir. Portanto, a educação dos filhos é um processo...

Para refletir...

  • Eu já pensei em desistir do meu filho? Faço isso sem perceber, quando, cansado ou estressado, deixo de lhe dar atenção, de corrigi-lo, de acompanhar o seu desenvolvimento e de educá-lo?

A educação é um processo

Nunca é demais repetir: o processo de educação de um filho nem sempre é leve e agradável. A educação é complexa, permeia todo o desenvolvimento da criança e do adolescente. Quando se tem um filho, é necessário que ele esteja incluso realmente no projeto de vida desse adulto que o trouxe ao mundo. Os adultos precisam organizar sua agenda para ter tempo de educar seus filhos. Esse tempo não se resume em dar banho e comida. O tempo não é medido em quantidade e sim, em qualidade. O tempo deve ser para dar atenção, carinho, dialogar.

Para educar, não há mágicas. Não há atitudes especificas para que a criança se eduque e se sinta amada (já me pediram checklist para isso). Educação vai além. O que ensina os filhos é a coerência das nossas atitudes para com eles todo dia e a cada dia. O que faz a criança aprender o certo e o errado é o fato de que esse certo e esse errado sejam trabalhados e vivenciados pela criança todo dia junto com o adulto responsável por ela. A educação é um processo, ou seja, é exatamente a regularidade, a continuidade, a coerência das atitudes do dia a dia para com os filhos que constroem a educação deles. Isso é educar. Não desistir nunca. Então é preciso que os pais estejam disponíveis e assumam o compromisso como parceiros desse processo de ajudar a criança a se tornar adulto. Aí entra outra questão: muitos pais tem medo desse momento, pois acreditam que estarão perdendo o filho. Na verdade não amam e sim são apegados à eles. Acabam os ensinando sobre dependência. Cuidado! O papel de ser pai é o de estar presente e participar do processo de desenvolvimento, mas também ajuda-lo a crescer. É permitir que o filho cresça e não dependa mais deles. Isso não significa que o filho vai deixar de amá-los, nem que os pais não tenham de preocupar-se mais com o filho adulto. Se você, pai ou mãe, tem dificuldade em entender essas questões, procure ajuda! Será bom para você e para seu filho.

Para refletir...

  • Educar é um processo longo. Entendo isso ou procuro soluções mágicas? Educo meu filho para ser adulto ou me esforço em mantê-lo infantilizado e eternamente dependente de mim?

A importância do que os pais fazem

Não há influencia mais importante no desenvolvimento dos filhos do que a dos pais. Nem mesmo as informações genéticas que as crianças herdam ao serem concebidas têm tanta influência sobre a vida delas quanto a educação, a orientação e a convivência com seus pais.

A ideia aqui não é assustar e menos ainda deixá-los culpados. A ideia é motivá-los a fazer o melhor que puderem. Não podemos ir levando a vida e cair em um processo automático de relacionamento com as crianças sem refletirmos sobre quais são as melhores atitudes, as melhores palavras, as melhores intervenções que podemos oferecer à eles. Não pode ser uma ação improvisada! Os pais que são conscientes da importância do seu papel na vida dos filhos têm muito mais chances de que suas crianças cresçam e se transformem em pessoas equilibradas, saudáveis, alegres e realizadas.

Bem, acho que já refletimos bastante. Fico feliz de terem lido esse texto e por terem chegado até essa parte. Isso significa que estão interessados em aprender e a saber mais sobre a educação de seus filhos. E lhes digo com toda certeza: esse é o melhor caminho, saber o que se está fazendo. As propostas práticas que apresentarei nos próximos textos são fundamentadas em pesquisas científicas, ou seja, tem seus resultados comprovados. As orientações (e mais e mais reflexões) que apresentarei a partir de agora são resultado dos meus anos de estudo, principalmente em Psicologia do Desenvolvimento da criança e do adolescente, que estou preparando para dividir com vocês com muito carinho, tendo como principal objetivo “ajudá-los a ajudar seus filhos” a crescer e se desenvolver como pessoas de bem e com o aspecto emocional saudável.

Se eu pude convencê-los nesses dois textos de reflexão de que o que os pais fazem é muiiiito importante, vamos colocar as mãos à obra!

Até a próxima! 

Referência:
LA TAILLE, Y. Limites: três dimensões educacionais. São Paulo: Ática, 2009.

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

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