“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte III - por Thainá Rocha

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte III - por Thainá Rocha

REGRAS

Quando a criança nasce, já começamos a ensiná-la algumas regras, como por exemplo, na amamentação. Algumas mães conseguem organizar uma rotina para seus bebês desde os primeiros meses. Com carinho, respeito e atenção, estabelecem limites, já ensinando-lhes concretamente algumas delas.

Os seres humanos desde o nascimento estão inseridos em um mundo com regras, sendo extremamente necessárias para uma convivência harmoniosa. As crianças devem aprender, ao se relacionar com os adultos, o conhecimento das regras que organizam a convivência do grupo ou da família na qual estão inseridas. É quando as crianças podem começar a aprender sobre elas e também sobre como as aprendem.

As crianças nascem sem nenhum conhecimento sobre o certo e o errado. Os bebês estão descobrindo o mundo através de suas ações, percepções e sensações. O começo de tudo acontece no sentimento de obrigação que a criança desenvolve em relação aos mais velhos, especialmente aos pais e professores. Esse sentimento, que a leva a obedecer, é a soma de outros dois sentimentos, segundo Jean Piaget, biólogo e psicólogo que se empenhou a estudar o desenvolvimento infantil. O primeiro é o de afeto pelos adultos, o amor. O segundo, o respeito.

Há pais que têm medo de perder o amor dos filhos e acreditam que não podem negar nada a eles. Acreditam muitas vezes que se os corrigirem, eles não gostarão mais deles.  Ainda há pais que não suportam ver os filhos contrariados ou chorando e, para evitar isso, acabam cedendo a todas as vontades e birras. E há ainda outra “categoria” de pais: os vencidos pelo cansaço. É um dos mais comuns, devido às exigências da vida que causam o estresse, a falta de tempo, e por aí vai, fazendo com que os pais “se rendam” aos filhos. É aí que a fórmula de Jean Piaget (equilíbrio entre amor e respeito) vai por água abaixo...

Mas então, como as crianças aprendem regras?

A resposta é essa: a partir do sentimento (em equilíbrio) de respeito e amor/afeto que a criança sente pelo adulto, é que se inicia um processo de imitação das regras recebidas e a utilização individual desses exemplos. Ou seja, a criança necessita que os pais ensinem-lhe as regras. E aqui cabe uma diferenciação muito importante: os pais podem ensinar os filhos a obedecer a eles próprios ou a obedecer às regras de forma geral.

Como assim? Isso não é muito fácil de se perceber no dia-a-dia, mas faz uma diferença muito grande quando o objetivo é educar e não simplesmente ser obedecido naquela hora, no momento em que a situação que a criança necessita ser corrigida acontece.

Um exemplo:

Um menino de quatro anos sobe em cima da mesa. O pai o ameaça dizendo “Desça daí agora, senão você vai apanhar”. O menino, com medo de apanhar, desce rapidamente da mesa.

O menino obedeceu por medo de apanhar. Mas o pai não explicou a ele para que servem as mesas, nem o orientou sobre quais lugares pode brincar ou não, não fez com que a criança tivesse tomada de consciência e o conhecimento do perigo.

Essa criança aprendeu a obedecer o pai (por medo de apanhar), e não a obedecer uma regra. Está aí a grande diferença! Saberia essa criança que não se pode subir nas mesas em nenhuma situação e em qualquer lugar que estiver, até quando o pai não está por perto para ameaçar? Aprendeu esta regra? Provavelmente não. Esse é um exemplo claro onde não há o equilíbrio de amor/afeto e respeito. O pai se utilizou do “temor” do filho em relação a ele, e isso não é respeito nem autoridade. Muitos pais confundem respeito e autoridade com “temor”.

É importante lembrar que a educação é um processo, que possibilita que a criança aprenda sobre as regras e faze-la entender sua necessidade e também convencê-la de que aquela é a melhor maneira de agir. Outra questão é que a criança testa, sim, a regra. Quando os pais ensinam a obedecer regras, a criança testa a validade desse limite. Quando os pais ensinam a obedecer a eles mesmos, a criança testa a sua autoridade.

As crianças devem pensar sobre as regras. Devemos colocar limites sim, mas ensinar a compreende-los, ajudá-los a aprender quais regras são importantes e por que são importantes.

Assim, uma regra é legitimada pela criança, ou seja, ela deixa de testar a regra, quando, depois de tanto fazê-lo, observa que é importante mesmo, pois seus pais não abrem mão dela.

O papel dos pais, então, é esse: ser fonte e modelo de boas regras. A regra necessita ser reapresentada e explicada para a criança tantas vezes forem necessárias, e ser seguida pelos próprios pais.

No próximo texto, refletiremos sobre quais regras são importantes serem ensinadas e sobre as regras negociáveis e as inegociáveis. Enquanto isso, deixo algumas reflexões:

  • Tenho cumprido o meu papel como pai ou adulto da relação?
  • Eu ensino o meu filho a obedecer regras ou a me obedecer? Eu quero que ele seja, quando adulto, uma pessoa obediente ou autônoma?

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

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