“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte IV - por Thainá Rocha

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte IV - por Thainá Rocha

AINDA SOBRE REGRAS

Você já se percebeu falando assim para o seu filho: “Você já fez a lição? Escovou os dentes? Arrumou o seu quarto? Colocou para fora o lixo que eu pedi? Menina, não fale assim com sua avó! Saia já daí! Um, dois...não espere eu falar o três!”

Na verdade, muitas vezes parece que acabamos repetindo todas as coisas que odiávamos que nossos pais fizessem conosco. Qual pai nunca ficou perdido, pensando “O que eu faço agora?” ou “Por que é tão difícil?”. Às vezes, até desejam um botão para desligar seu filho. Mas as crianças não tem controle remoto. Na verdade, parece que vêm pilhas extras!

Então eu pergunto a vocês: Por quais regras vale a pena “brigar”?

Alguns pais gastam muita energia com questões desnecessárias e deixam de trabalhar o que é essencial com seus filhos. Mas como saber o que é essencial? Como saber quais regras são importantes?

No primeiro texto sobre o assunto, disse que não apresentaria receitas, mas gostaria de compartilhar com vocês uma “fórmula” para ajudar a pensar quais regras você não pode deixar de ensinar ao seu filho por serem realmente importantes para ele.

Vamos então pensar no princípio das regras. O princípio justifica a existência da regra, explicando o seu por quê. 

Exemplos: 
- Escovar os dentes para não ter cáries;
- Chamar as pessoas pelo nome ou pela forma que gostam de ser chamadas para não aborrecê-las ou humilhá-las;
- Fazer a lição de casa para entender o que foi ensinado na escola;
- Para adolescentes, vale o mesmo princípio: voltar para casa até a meia-noite para cumprir acordo preestabelecido com os pais;
- Não pegar caronas com amigos alcoolizados ou sem habilitação porque isso significa colocar-se em risco.

Vejam que, quanto aos princípios das regras, devem ter origem em um valor que queira formar na criança e no jovem. Dessa forma, toda a regra deve ser justificada por um princípio que tem sua origem em um valor (LA TAILLE, 2009). 

Entenda:

REGRA: O que se deve e o que não se deve fazer
PRINCÍPIO: O porquê da regra
VALOR: O que a regra ensina; virtude

Agora reveja alguns dos exemplos de regras citados anteriormente, aplicando o entendimento de princípio e valor:

REGRA: Escovar os dentes → PRINCÍPIO: Para não ter cáries → VALOR: Saúde
REGRA: Chamar as pessoas pelo nome ou pela forma que gostam de ser chamadas → PRINCÍPIO: Para não aborrecê-las nem humilhá-las → VALOR: Respeito
REGRA: Fazer a lição de casa → PRINCÍPIO: Para entender e fixar o que foi aprendido na escola → VALOR: Responsabilidade
REGRA: Não pegar caronas com amigos que dirigem alcoolizados ou sem carteira de habilitação → PRINCÍPIO: Para não se manter em encrenca ou acidentes → VALOR: Saúde; autopreservação

Assim, podemos dizer que todas as regras apresentadas como exemplo são realmente adequadas à educação dos filhos, pois através delas é possível ensinar um valor essencial. 

No primeiro texto, falei sobre a importância de se ter clareza sobre quais valores vocês querem ensinar aos filhos. Porém, ninguém ensina valores abstratos a uma criança, não podemos sentar com nossa filha de 5 anos e dizer: “Hoje quero te ensinar sobre honestidade”.

Entendem o porquê da regra ter princípios e valores? É na prática que a criança assimila, entende e irá aprender! A criança de 5 anos aprenderá sobre honestidade ao vivenciá-la em suas relações.



Outra maneira muito importante de classificar as regras é definir aquelas que devem ser inegociáveis e as negociáveis.

Deve-se ter clareza das regras que não podem abrir mão e que são, portanto, inflexíveis.

Exemplos:

REGRAS INEGOCIÁVEIS
Escovar os dentes
Não bater nas pessoas
Dormir às 22h
Fazer a lição de casa
Tomar banho todos os dias

REGRAS NEGOCIÁVEIS
Horário de dormir nos finais de semana
Tempo no Tablet
Arrumar o quarto todos os dias
Escolher o que vestir
Comer um chocolate no domingo

Vejam que, todas as regras que têm origem nos valores saúde, estudo e convivência devem ser consideradas inegociáveis e não podem ser flexíveis. Pode parecer simples, mas alguns pais se atrapalham com relação a isso. Portanto repeti tantas vezes ao longo dos últimos textos, tenham clareza das valores que são importantes para vocês e que consequentemente querem ensinar aos filhos de vocês, isso fará toda a diferença para determinar as regras e a flexibilidade das mesmas. Faça uma lista das regras negociáveis e inegociáveis da sua casa.

Lembrem-se: As crianças e também os adolescentes ainda não têm condições cognitivas nem emocionais para tomar determinadas decisões. Estão em formação, aprendendo! Cumpra seu papel de adulto da relação!

Para refletir...

  • Quando ensino as regras para o meu filho, explico o porquê delas?
  • Tenho clareza do valor que estou ensinando?

Referência:
LA TAILLE, Y. Formação Ética. Porto Alegre: Artmed, 2009

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

 

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