“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte V - por Thainá Rocha

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte V - por Thainá Rocha

Chantagem emocional

Uma das maneiras que alguns pais utilizam para educar seus filhos consiste na retirada do amor. Ela acontece quando os pais dão expressão direta, mas não física, à sua raiva ou desaprovação pelo fato de a criança realizar algum comportamento indesejável. São exemplos dessa atitude: ignorar a criança, voltar as costas para ela, recusar-se a falar com ela ou escutá-la, isolá-la ou ameaçar abandoná-la, fazer afirmações do tipo “eu não gosto mais de você” ou até mesmo “Eu trabalho feito louco para dar tudo a você e olha só o que você me dá em troca”. 

Essa maneira de educar também leva à obediência, mas dessa vez, não através do medo como já discutido nos textos anteriores, mas sim através do sentimento de culpa. Ambas trazem consequências psicológicas graves: o medo pode paralisar momentaneamente e/ou por toda a vida. A culpa pode impedir a iniciativa e levar ao desenvolvimento da angústia e do sentimento de abandono. Pode ainda desencadear o sentimento de insegurança e vários outros tipos de desordens emocionais, como a depressão, o estresse, os comportamentos desajustados e antissociais, as dificuldades de aprendizagem, etc.

Nessa forma de educação a criança também não terá reais oportunidades de refletir sobre quais regras deve seguir e por que deverá segui-las. Quando é vítima dessa chantagem na qual se está em jogo o afeto, a criança sente-se desamparada e pouco amada, o que gera carência emocional e uma necessidade de comportar-se bem ou mal para chamar a atenção dos pais.

Podemos não gostar de certas atitudes das crianças. Quando isso acontece, devemos corrigi-las sem transformar os sentimentos que nutrimos por elas. Não podemos gerar nas crianças dúvidas em relação ao quanto as amamos e que sempre estaremos ao lado delas, mesmo quando erram. Existe uma tendência de que crianças que viveram chantagem emocional se transformam em adultos dependentes excessivamente do amor, afeto e, principalmente, da aprovação do outro. Isso porque não tiveram reais oportunidades de desenvolver a autoconfiança, a autoestima e a autodisciplina. Você conhece pessoas assim?

A chantagem emocional é uma estratégia educativa ainda mais perigosa do que a autoritária, pois desencadeia sentimento de culpa, dependência, carência emocional, angústia e outros sentimentos difíceis de administrar. Alguns pais utilizam essa atitude sem sequer darem-se conta do quanto é prejudicial. Mais uma vez é essencial buscar coerência na hora de educar. A chantagem emocional é injusta. Você já viu o seu filho gritar que te odeia? Será que ele pode ter aprendido essa forma de chantagem com suas próprias intervenções?

Barganhas

Outra estratégia utilizada pelos pais para alcançarem o comportamento desejado e adequado dos filhos é a barganha (podemos também chamar de suborno). A fórmula é: “Se você fizer (ou não) tal coisa, ganhará aquela recompensa”. Exemplos:

“Se você se comportar, levarei você ao cinema”

“Se você não brigar com seu irmãozinho, ganhará um videogame”

“Se você melhorar as suas notas, terá mais tempo na internet”

Quais as consequências desse tipo de atitude para fazer obedecer?

Em primeiro lugar, transmite aos filhos o sentimento de dúvida dos pais quanto a sua capacidade de realizar determinada tarefa ou comportamento. Quando dizemos “Se você se comportar” a mensagem que estamos transmitindo é a de desconfiança e de incerteza sobre se a criança dará conta disso. Ou seja, estamos passando insegurnça.

Outra questão é que essa intervenção conduz a dependência, ou seja, a criança pode se habituar a exigir algum tipo de prêmio ou recompensa para se comportar bem ou agir de acordo com as regras. Pensando bem, estamos formando um pequeno corrupto, sempre pronto a subornar e a chantagear. 

A barganha pode sim resolver problemas no plano imediato, mas não educa. Ela não trabalha com regras, não ensina a forma correta de agir e, além disso, produz consequências indesejáveis como a dependência, hábito de suborno, insegurança e baixa autoestima.

Ameaças

Quando a barganha já não adianta mais é comum investir em ameaças. Na verdade, muitos são os pais que começam qualquer tipo de intervenção junto aos filhos a partir de ameaças. Só que, para muitas crianças, principalmente as mais velhas, essas intervenções são verdadeiros convites para repetir um ato proibido e não o contrário. Muitas vezes a criança utiliza isso para mostrar para si mesma e para os outros que não tem medo das consequências (principalmente nos casos de pais que não cumprem com o que “ameaçam”). Obviamente, a ameaça não trabalha com a educação indutiva. Já falamos na educação indutiva nos textos anteriores. Se refere às “técnicas” nas quais os pais dão explicações ou razões para conseguir com que a criança mude seu comportamento, mostrando as consequências em relação ao ambiente e também em relação aos outros. Quando ameaçamos, não estamos retomando as regras e os motivos delas e negamos às crianças a oportunidade de pensar sobre o próprio comportamento. 

Para refletir...

  • Costumo usar a chantagem emocional para educar meu filho? O que acho que ele aprende? Eu me preocupo com sua saúde emocional?
  • Costumo utilizar com frequência a fórmula: “Se fizer isso, vai ganhar aquilo?” Tenho consciência que estou, com o meu exemplo e minha atitude, dando lições de suborno e chantagem?
  • Costumo utilizar ameaças? 
  • Procure prestar atenção: quantas vezes por dia você usa a ameaça como estratégia para conseguir a obediência?
  • Como você se sente quando alguém ameaça você: no trabalho, e casa, no trânsito? 

LEIA TAMBÉM: “Se você não parar com isso, vai apanhar...” - por Thainá Rocha
LEIA TAMBÉM: “Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte II - por Thainá Rocha
LEIA TAMBÉM: “Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte III - por Thainá Rocha
LEIA TAMBÉM: “Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte IV - por Thainá Rocha
LEIA TAMBÉM: “Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte VI - por Thainá Rocha

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

O que achou, foi útil para você? Então conta pra nós!

Artigos que podem te interessar

view_module reorder

400 años de El Quijote - por Elena Cárdenas

“En un lugar de la Mancha de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo...

Cuidados Especiais com gás de cozinha - GLP

O GLP, ou gás de cozinha, tem sido o segundo maior causador de incêndios nos lares, muitas vezes por uso...

Gengibre, um grande aliado para a sua saúde

O Gengibre ou a raiz do gengibre é o rizoma da planta Zingiber officinale, consumida como uma iguaria, medicinal ou...

Tardígrados - superorganismos - por Telmo Focht

Seu nome tem origem no latim e quer dizer “quem anda devagar”. Pouco se sabe sobre sua evolução, o que...

Atividades - Fabrique seu próprio gás hélio para os balões!

  Você vai precisar de· 1 garrafa de plástico de 1 litro· Balões· 3 colheres (chá) de bicarbonato de sódio ·...

Registrando conquistas - por Rafael França

Hoje em dia a colação de grau e a comemoração da formatura não passam mais despercebidas. Tudo é pensado e...

Primeira casinha entregue - por Rita Maganini

Na última sexta, 19, os presos participantes do Projeto “Casa para Todos” do Presídio Estadual de São Francisco de Paula...

Trabalhando a Timidez na Escola - por Thainá Rocha

"A ajuda do professor é fundamental para que essas crianças aprendam a lidar com a timidez." No post anterior, escrevi...

Torta Flocada de Banana - por Cléa Penteado

Ingredientes: 3 xícaras de farinha integral 2 xícaras de aveia laminada ou em flocos 2 xícaras de açúcar mascavo 1kg de...

Kpop - Mistura de estilos

Texto: Tânia Quadros Conheça o ritmo que virou febre entre os jovens coreanos e que tem se espalhado pelo mundo, através...

Patrocinadores da cultura