“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte VI - por Thainá Rocha

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte VI - por Thainá Rocha

A maior dúvida dos pais é: o que fazer quando, depois de explicar as regras e de mostrar os seus motivos, ainda assim o filho não a cumpre? Por exemplo, você já explicou que as mesas servem para as refeições e não para subir nelas, mas o pequeno continua subindo. Você já explicou para o seu filho que a lição de casa é uma responsabilidade dele como aluno, para que possa fixar o conteúdo aprendido na escola, mas a professora manda bilhetes todo o dia dizendo que a lição não foi feita.

O que fazer?
O tema “castigos” é um dos mais sérios e importantes na educação dos filhos. A maior dificuldade dos pais é saber: quando e como punir.

Então, vamos pensar juntos em duas questões importantíssimas. A primeira ainda nem diz respeito aos castigos ou punições, embora esteja bastante relacionada. Trata-se do fato de que a maioria dos pais, quando ensina regra para seus filhos, o faz atrelando-a ao castigo que a criança sofrerá caso não a cumpra: “Se você não fizer a lição, não iremos no cinema”. 

Desse modo, ao agirem assim, estão cometendo dois erros muito sérios. O primeiro é que estão desautorizando a regra. Quando você diz “se você não fizer a lição, não iremos ao cinema”, está comunicando ao seu filho que a regra não é séria, pois, se ele pagar o preço, pode não fazer a lição. Nesse caso, o filho pode escolher e preferir não ir ao cinema, o que lhe dá a possibilidade de não fazer a lição. É por isso que muitas vezes as intervenções dos pais não funcionam!

Outro exemplo: uma mãe combinou com o filho que lhe pagará R$2,00 por dia que ele fizesse a lição de casa. Um dia, o filho disse a ela que o preço tinha aumentado e que agora só faria se ela lhe desse R$5,00.

Vejam bem: quando a regra vem atrelada a um prêmio ou punição, deixa de ser regra. Deixa de ser lei. Ela não foi explicada nem legitimada como um comportamento a ser executado e que, portanto, se basta em sua própria explicação.

o segundo erro ao apresentar a regra é que você deixa de lhes garantir a autoridade da regra. As regras precisam dizer o que deve e o que não deve ser feito, conforme já vimos nos textos anteriores. Elas representam um modo de agir considerado o melhor devido ao princípio à ela relacionado. 

Por isso, a regra deve ser apresentada às crianças com brevidade e firmeza. Por exemplo: “Fazer a lição é seu compromisso diário. Você precisa de ajuda?”; ou ainda, “Hora de escovar os dentes”. 

Mas e quando mesmo assim as regras são descumpridas? Aí é preciso um castigo ou “sanção”, conforme chamou Jean Piaget, cujo objetivo é fazer a criança e o adolescente perceberem que a regra é importante e necessária e que os pais não abrirão mão dela. Mas quais castigos?

A segunda questão a respeito dos castigos é para explicar para que eles servem. O castigo não é para fazer a criança sofrer. Não deve estar relacionada ao medo ou à chantagem emocional, mas sim ser uma maneira de mostrar para a criança qual regra ela descumpriu e o que deve fazer para corrigir o seu erro. Sua função é a de educar, ensinando o valor da regra que foi descumprida pela criança. 

Quando as crianças desobedecem, uma atitude precisa ser tomada por seus responsáveis. Fingir que não está vendo, deixar passar, ignorar, não é uma boa atitude por parte dos adultos. Algo deve ser feito. 

Podemos dizer que há diferentes de castigos. Um deles trata-se de uma punição cuja função é fazer o culpado sofrer, ou seja, a criança ou o adolescente deve pagar pelo seu erro, deixando de ganhar um presente ou perdendo o direito de jogar videogame, sendo privado de alguma coisa que gosta muito.

Muitos pais acreditam que é o adequado, pois se a criança quiser acessar a internet por exemplo, terá que arrumar o quarto. Às vezes esse tipo de atitude até “resolve”. Porém, o grande problema é que não é educativa. Por quê? Por que as crianças necessitam aprender que manter o quarto arrumado é uma regra cujo princípio se explica na manutenção da ordem e da limpeza. 

Dessa forma, quando o castigo não tem relação direta com o ato que se deseja corrigir, supõe-se apenas que a criança ou adolescente optem por agir corretamente para evitar perder algo que gostem muito e não por compreenderem qual regra não estão cumprindo e por que ela deve ser cumprida. 

São exemplos de “castigos para fazer sofrer” e que não têm nenhuma relação com o ato que se deseja corrigir:

  • Deixar sem televisão quando a criança quebrou um objeto que pertence aos pais/responsável;
  • Não permitir que a criança brinque com os amigos porque não almoçou;
  • Tirar o videogame porque a criança respondeu mal para a mãe;
  • Apanhar em casa porque houve reclamação na escola de que a criança não está se comportando;
  • Negar-se a conversar com a criança porque ela não quis ajudar a cuidar do irmão menor.

Esses são apenas alguns exemplos que “apelam” para o sofrimento e para o medo ou chantagem. Não dão oportunidades à criança de pensar sobre a regra que descumpriu e de também arcar com a responsabilidade dos seus atos. Elas não têm relação direta com o erro cometido e, portanto, não podem educar. Muitas vezes esse tipo de castigo se torna uma expressão de raiva e vingança da parte da criança. Acredite: nenhuma criança diz para si mesma depois de ser castigada “Vou melhorar, ser mais responsável e cooperar mais porque quero agradar esse adulto que me castigou”.

Os próximos temas serão sobre castigos físicos/palmadas e posteriormente, sobre os castigos que educam!

Enquanto isso, reflita:

  • Quando ensino uma regra, eu costumo apresentá-la atrelada ao castigo?
  • Que tipo de castigos eu costumo aplicar?
  • Quais os objetivos dos castigos que aplico?
  • Acredito que tirar algo que meu filho goste pode ajudá-lo, de fato, a aprender sobre boas regras?

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

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