Se você não parar com isso vai apanhar... • Parte VII • Conclusão - por Thainá Rocha

Se você não parar com isso vai apanhar... • Parte VII • Conclusão - por Thainá Rocha

Sobre os Castigos Físicos

Os castigos físicos são o principal exemplo de castigos para fazer sofrer. Segundo uma pesquisa realizada em 2009, 69% dos entrevistados afirmaram que existe situações em que é justo bater nas crianças para que percebam o erro cometido.
A agressão física não é a melhor atitude para resolver nenhum tipo de conflito. Por quê? Por que fere um princípio: o da integridade física e psicológica. Atualmente, no Brasil, a Lei n.13.010/2014 estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou tratamento cruel ou degradante como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto.
Pais ou responsáveis que utilizam os castigos corporais moderados ou severos são pessoas que apresentam um ou mais dos seguintes fatores:

• Aprovam castigos corporais;
• Viveram a experiência dos castigos corporais quando criança;
• Apresentam sentimento de raiva em relação a conflitos com as crianças;
• Interpretam o comportamento da criança como um desafio à sua própria pessoa.
• Vivenciam tensões conjugais ou de outros tipos, como profissionais ou financeiras.

As consequências do uso delas podem ser físicas (marcas avermelhadas na pele, dor física leve, queimaduras, fraturas, até a morte) e/ou emocionais:

• Sentimentos de raiva e de medo quanto ao agressor;
• Quadros de problemas escolares;
• Dificuldade para confiar nos outros;
• Autoritarismo;
• Delinquência (roubo, uso de drogas, etc.)
• Violência doméstica.

Talvez você esteja pensando que a violência e o espancamento seja realmente um ato agressivo e que pode desencadear todos os problemas mencionados. Mas e quanto a palmada, há diferença?

Palmadas

A palmada também não tem nenhuma relação com o comportamento que desejamos corrigir, já que não leva a criança a se responsabilizar pelo erro cometido, nem desencadeia a tomada de consciência da regra quebrada. O conseguimos com ela então?
Eis a fala de alguns pais:
“Partimos para a palmada quando já falamos muitas vezes e a criança não ouviu”
“Quando a situação está no limite e não aguentamos mais”
“Tem o objetivo de dar um susto na criança”
“É para a criança perceber quem é que manda”
“A palmada não deve ser forte, mas precisa doer na criança para ela sentir que não estamos gostando do que ela está fazendo”

Bem, parece ser na verdade uma medida de emergência e uma estratégia que eles utilizam em duas situações: ou quando julgam já ter esgotado todos os recursos, como diálogos, explicações, ameaças, barganhas, e nada tenha funcionado; ou quando realmente a criança ou adolescente apresentou um comportamento tão inadequado que necessita de uma intervenção mais radical. Segundo esses pais, a palmada tem um objetivo disciplinador. Por isso que a maioria deles não acredita ou compreende que está violentando ou agredindo o próprio filho, mas educando-o.

Você já sentiu uma culpa terrível depois de ter dado aquela palmada na sua filha respondona? Por outro lado, você se autojustifica pensando que também apanhou bastante quando criança e não percebe que isso lhe tenha causado algum dano considerável?
A palmada tem um efeito colateral seríssimo, que é o fato de poder interferir no desenvolvimento da consciência da criança, pois a surra alivia a culpa com muita facilidade. Como assim?

Eis a fórmula:
A criança age errado. Leva uma palmada. Pronto! Já “pagou” pelo seu “erro”.
O contrário disso também pode acontecer. A palmada, o beliscão, o puxão de orelha podem gerar na criança o sentimento de que é muito má ou desobediente, e, por isso, merece esse tipo de tratamento. Existem ainda muitos adultos que guardam esse sentimento: “Eu apanhei dos meus pais e por isso me tornei um homem do bem” ou “aprendi a respeitar meus pais porque eles sabiam colocar limites e nos corrigiam na hora certa, sem ter medo de nos bater quando merecíamos”.

O que nos ensinou a ser pessoas de bem foi a palmada? Não estaríamos aqui confundindo agressão com educação? Por que será então que para algumas crianças as palmadas não são o ponto final? E se seu filho continuar desobedecendo mesmo depois da palmada? Partimos, assim, para quê, no caso? Que modelos oferecemos aos nosso filhos na hora que resolvemos um conflito com palmadas?

Exemplo de caso:
Dois irmãos, de 3 e 5 anos, se agrediam em uma briga por causa de um brinquedo. A mãe tentou separa-los, mas eles estavam furiosos um com o outro e não ouviam seus apelos. Então, ela tirou o chinelo e deu uma chinelada em cada um para que parassem com aquilo. Bem, essa mãe tentava ensinar que irmãos não deviam se agredir, mas a atitude que tomou foi exatamente aquela que estava reprovando nos filhos. A mensagem que as crianças receberem foi: “Só os mais fortes podem bater”. Ou ainda: “Isso mesmo! Quando temos um problema, o caminho mais curto para resolve-lo é tirar o chinelo”.
Você ficaria irritado e indignado caso uma professora batesse no seu filho para corrigi-lo e educa-lo? Por que você pode bater no seu filho e ela não? A justificativa para não bater nas pessoas e nas crianças não seria a mesma para vocês dois?

Outra questão: não há quem possa achar certo ou normal um filho bater em um pai. Nunca se deve permitir que os filhos batam nos pais. Situações inaceitáveis de pais e mães que não impedem a agressão das crianças que chutam, mordem, batem e xingam os adultos são constrangedoras e nos deixam indignados, não é mesmo? Então, por que não ficamos indignados quando vemos um pai batendo em um filho?
Como você se sentiria se o seu chefe, irritado porque o relatório que você entregou não ficou como ele esperava, lhe desse umas palmadas?

Então... é possível educar em palmadas? Os próprios pais responderam.
Você, como pai ou mãe, deve disciplinar, educar e impor limites aos filhos, sim. Isso é essencial para o crescimento, desenvolvimento e para a saúde psicológica deles. Infelizmente, o castigo físico pode resolver os problemas naquele momento imediato, mas a longo prazo, trata-se de uma estratégia que não educa e ainda pode trazer consequências muito sérias à formação da personalidade.

Fiquei muito feliz com a repercussão dos textos que escrevi sobre o tema. Uma mãe me relatou que jamais havia pensado em quais regras estava trabalhando com o filho e como ensina-lo a agir de outra maneira. O resultado é que hoje afirma conseguir se controlar muito mais para conversar e orientar seu filho. Outra mãe me falou que achava inconveniente essas dicas de especialistas tentando ensinar os pais a educarem os seus filhos. Porém, colocou em prática algumas questões aqui abordadas e tem se impressionado com o progresso e proximidade alcançados junto aos filhos de 6 e 10 anos. E também o quanto a escrita desse material foi produtiva para orientar professoras com relação ao trabalho de disciplina nas salas de aula. E você, por que não tenta também e constata por si só essa possibilidade?
Depois você me conta como foi?

Espero que os textos dessa temática tenham sido suficientes para lhes convencer de que é possível educar sem palmadas. Seres humanos não precisam delas, nem de quaisquer tipos de castigos físicos. Seres humanos precisam de oportunidades de aprender a ser humanos.

O que achou, foi útil para você? Então conta pra nós!

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