Quem dorme na cama do casal? - por Thainá Rocha

Quem dorme na cama do casal? - por Thainá Rocha

Caso de consultório:

Os pais deixaram que sua filha começasse a dormir junto à eles quando tinha um aninho. Após essa permissão, as primeiras tentativas de deixar a criança no bercinho foram difíceis. A menina entrava em pânico e os pais permitiam que ela voltasse para a cama deles. Somente assim ela se acalmava. O pai somente pensava: “Amanhã é um dia de trabalho para mim!”. De tempos em tempos voltavam a tentar, conforme o pediatra recomendava. As falas dos pais para a menina eram as seguintes: “Gabi, você já está grandinha, vai para a sua caminha, está bem?”. A tentativa durava noites, alguns tratos e chantagens dos pais eram feitos, mas depois Gabi voltava e retomava seu lugar no cama. Algumas vezes, após “rituais” variados, finalmente adormecia em sua caminha, porém no meio da noite, lá surgia Gabi no quarto do casal. Os pais cediam, pois estavam cansados e precisavam dormir. Após um tempo, pai e mãe passaram para a etapa de sedução: Gabi já iria para o primeiro ano na escola e com isso teria também um novo quarto, decorado, lindo... Foi junto visitar as lojas para escolher a decoração, a escrivaninha onde faria seus temas da escola, a colcha de ursinhos, os bichinhos de pelúcia, etc. Porém, após inaugurar o seu novo quarto, tudo continuava igual: adormecia no quarto e após retornava para a cama dos pais, no meio da noite... Algum tempo depois, nasceu o segundo filho do casal. Aos dois anos, começou a acordar com frequência no meio da noite. Até que, aos poucos, aprendeu a “fatídica formula” da “cama grande”. A mãe achou uma injustiça a filha mais velha aninhada na cama, enquanto o outro, com somente dois anos, sozinho no quarto. Assim, quem desistiu da cama de casal foi o marido, que passou a dormir em um dos quartos das crianças. 

Então vamos lá...

Aqui cabe uma importante reflexão: Por que os filhos se dão o direito de tomar posse da cama dos pais? Por que a coitadinha da Gabi (e depois seu irmãozinho) não pode curtir o seu quarto?

É importante pontuar que o “tabu” da cama dos pais, a exclusão rígida desse espaço não pode nem deve ser uma regra universal. Há ocasiões em que é permitido aceitar que a criança fique na cama dos pais: quando ela atravessa um período difícil, quando está doente, quando os pais querem ter a alegria de brincar com ela numa manhã de domingo. Ocasiões e modos que os pais escolhem conscientemente. Não, não é permitido quando um dos parceiros vai, por exemplo, viajar, pois o direito de ir para a cama do casal e ocupar o lugar do papai ou da mamãe coloca a criança numa posição que não é dela, mas inconscientemente de um quase “parceiro substituto”, de forma que, quando o cônjuge retornar, em vez de desejado, poderá ser rejeitado pela criança em questão. Sem contar o que essa situação nos diz a respeito do adulto que tem a necessidade de preencher esse “espaço vazio” durante a ausência do cônjuge. E não, isso não é exagero e é mais comum do que se imagina. 

Então, como fazer para convencer a criança a dormir no seu quarto?

O problema não é convencer os filhos, mas sim os pais!

Quando os pais estiverem bem convencidos de que isso é um direito do casal além de um benefício para os filhos terem um espaço pessoal à noite, os filhos perceberão a ordem imediata: “tomem posse do quarto de vocês”. Uma vez uma mãe me questionou: “E se meu filho perguntar ‘Mas afinal, eles lá são dois e eu estou aqui, sozinho’ e ficar ressentido, o que eu faço?”. Minha resposta: TERAPIA. Esse tipo de pensamento trata-se de uma bela formulação de uma mãe que bem provavelmente teve/tem alguma dificuldade em relação a isso (ela inclusive quer prever o que eu o filho possa vir a questionar, e isso diz de uma dificuldade dela) e projeta isso no filho, porque “coitadinho, sente-se sozinho!”. Quem, neste caso afinal, sente-se sozinho? Ainda que a mãe não manifeste esses pensamentos de forma consciente, muito provavelmente a comunicação que chega na criança quando ela é mandada para o seu quarto é: “Vá, pode ficar aí, mas não fica aí não, está bem?” O filho irá perceber a prevalência da linguagem não verbal (as crianças são boas nisso, possuem antenas muito afiadas, com poucos meses de idade são capazes de captar o estado de espírito do adulto) e nem por sonho vai querer sair da cama dos pais. 

Se o casal tiver sintonia na forma de agir e lidar com a situação e se aliar às reais necessidades da criança, e não a seus supostos sofrimentos, ela poderá perfeitamente ocupar o seu espaço e não o do casal. Admito que para isso será necessário uma boa dose de firmeza e até noites em claro. Mas é o que costumo perguntar aos pais: Qual problema querem resolver? O daquela noite específica ou o problema do seu filho? No caso citado acima, Gabi vai conseguir tranquilizar-se quando os pais também conseguirem. 

Um casal me disse certa vez: “Nunca trancamos a porta do nosso quarto, sei lá o que os filhos irão pensar...”. Perguntei: “O que deveriam pensar?” “Sei lá, que escondamos segredos...”. Por que os pais colocam os filhos no cargo de controladores de sua privacidade? Quando seus filhos virem que o casal está separado (como no caso ilustrado hoje) e que conseguiram tirar o pai da cama do casal, o que mais poderá acontecer? E quando conseguirem declarar por fatos que a mamãe é só mãe, e não a mulher do seu marido e que o papai é só pai, que conclusões poderão extrair disso? Será que essas crianças irão ter vontade de crescer? Irão compreender os mais diversos papéis e funções que os pais também ocupam, em seu trabalho, família, vida?

O segredo do casal constitui sim um fator muito importante no desenvolvimento infantil. Se as crianças virem os pais desaparecerem as vezes, para um programa a dois enquanto ficam com a avó, se virem a mãe sair em companhia do pai, produzida e bonita, como se fosse um encontro de namorados, se virem o pai fazer surpresas para a mãe, se perceberem o casal colocando o NÓS como algo natural, então a cama dos pais já não será algo tão importante. Se os pais minimizarem o segredo do casal, não causarão prejuízos somente a si mesmos, mas também prejudicarão seus filhos, privando-os do seu crescimento. Quando dois parceiros se resignam a deixar que os filhos se apoderem de sua cama, já renunciaram há tempos ao seu segredo de casal.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

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