Quando seu filho se afasta de você: desenvolvendo a segurança, autonomia e independência - por Thainá Rocha

Quando seu filho se afasta de você: desenvolvendo a segurança, autonomia e independência - por Thainá Rocha

Já dizia o famoso psiquiatra e educador Içami Tiba:

“Ao olharmos um navio no porto, imaginamos que ele esteja em seu lugar mais seguro, protegido por uma forte âncora.
Mal sabemos que ali está em preparação, abastecimento e provisão para se lançar ao mar, destino para o qual foi criado, indo ao encontro das próprias aventuras e riscos.

Dependendo do que a força da natureza reserva para ele, poderá ter de desviar da rota, traçar outros caminhos ou procurar outros portos.

Certamente retornará fortalecido pelo aprendizado adquirido, mais enriquecido pelas diferentes culturas percorridas.

E haverá muita gente no porto, feliz à sua espera.

Assim são os filhos.

Estes têm nos pais o seu porto seguro até que se tornem independentes.

Por mais segurança, sentimentos de preservação e de manutenção que possam sentir junto dos seus pais, eles nasceram para singrar os mares da vida, correr os próprios riscos e viver as próprias aventuras.

(...) O lugar mais seguro em que o navio pode estar é o porto. Mas ele não foi feito para permanecer ali.

Os pais também pensam ser o porto seguro dos filhos, mas não podem se esquecer do dever de prepará-los para navegar mar adentro e encontrar o próprio lugar, onde se sintam seguros, certos de que deverão ser, em outro tempo, esse porto para outros seres.

(...) Devem os filhos seguir de onde os pais chegaram, de seu porto, e, como os navios, partir para as próprias conquistas e aventuras.

Mas, para isso, precisam ser preparados e amados, na certeza de que “quem ama educa”.

“COMO É DIFÍCIL SOLTAR AS AMARRAS”

Nesse pequeno trecho Içami Tiba nos fala da importância do afastamento para o desenvolvimento da autonomia e independência dos filhos. Costumo dizer que os pais sempre têm muito desejo de que o filho caminhe no tempo certo, desenvolva a fala, entre outras capacidades. Isso já é o início de sua autonomia. Mas por que muitos pais “param” esse desejo de autonomia aí? Por que é tão difícil autorizar os próximos passos do desenvolvimento de seu filho? 

Quando ele era menor, seu filho sempre queria ficar em seu colo ou caminhar a seu lado, especialmente se vocês estivessem em um lugar desconhecido para ele. Agora, seu filho de apenas 2 anos talvez não queira nem segurar a sua mão. Ele pode até mesmo virar todo o corpo para longe e sair correndo do lugar onde estão.  Se você o chamar pelo nome, pode ser que ele se afaste ainda mais em vez de voltar. E, se você for atrás dele, é capaz que ele corra ainda mais depressa. Ele pode até mesmo olhar para você e rir! Quanto mais sério você ficar, mais ele achará graça. Enquanto puder ver você, seu filho poderá achar que se trata de uma brincadeira muito divertida. Mas, se ele virar a esquina e sair de sua vista, você pode ouvi-lo chamar e, logo em seguida, vir correndo de volta.

O que meu filho pode estar pensando ou sentindo quando faz isso?
“Adoro sair para fazer compras com a mamãe. Gosto especialmente de ir à nossa loja favorita. Já fui lá muitas vezes e sei onde as coisas estão. Sinto-me seguro lá. Não preciso que mamãe segure a minha mão quando me sinto seguro. Gosto de explorar a loja. Quando eu faço isso, ela fica toda agitada e vem atrás de mim. Isso é muito divertido! Mas, de repente, não consigo mais ver a mamãe. Fica tudo muito quieto. Não a ouço mais, onde ela está? Oh, não, estou sozinho! Acho que vou chorar. Quando eu choro, minha mãe me encontra. Ela me pega no colo e me abraça. Isso me faz sentir seguro outra vez”.

Por que isso é importante?
Seu filho precisa se afastar de você para se sentir separado de você, praticando sua independência. Como a separação de você é algo novo, ele precisa testá-la em pequenas doses. Um espaço grande demais entre vocês o assusta (pelo menos no começo, rsrsrsrs). O desenvolvimento mental do seu filho, tratando-se de uma criança ainda pequena, associa “fora de vista” com “fora de existência”. Com quase 3 anos, seu filho já se lembra de você quando não o vê, mas com 2 anos e poucos meses, ele precisa mantê-lo à vista ou dentro do alcance de seus ouvidos. Ele correrá para longe de você e voltará para você muitas vezes. Desde que se sinta seguro, esse aprendizado será divertido para ele. É por isso que ele ri. Ele não está tentando irritar você. Quando seu filho fica com medo, ele quer que você o conforte e o ajude a recuperar a sensação de segurança. Ele aprendeu a comunicar suas necessidades chorando e confia que você o ajudará. Mas, como você o conforta tão bem, seu filho logo se sente seguro e pronto outra vez para o jogo “fugir da mamãe”. E lá vai ele...

Crianças pequenas precisam estar no controle de sua separação. Se você forçar seu filho a se afastar, ele não aprende a se separar com sensação de segurança. E se você o segurar e o impedir de se afastar quando ele estiver pronto, ele se sentirá preso e tenderá a se rebelar ou desistir de vez da separação. Sua tarefa é seguir a liderança do seu filho e deixar que ele lhe mostre até que distância de você ele pode manter. Claro que é preciso estar atento para as necessidades de segurança, que a criança ainda é incapaz de avaliar nessa idade. Ele terá aprendido que é uma pessoa independente que pode ficar perto de você sem, com isso, perder parte de sua identidade. 

O que fazer?

  • Apoie o afastamento de seu filho: Compreenda que seu filho não está o rejeitando, mas apenas descobrindo coisas sobre si mesmo. Seu filho sente-se suficientemente seguro para se afastar justamente porque você fez um bom trabalho. Perceba que seu filho confia em você o bastante para fazer experiências com sua própria independência. Ele acredita que você estará lá quando precisar de você e, por isso, sente-se seguro para testar sua nova necessidade de independência. Transmita-lhe a ideia de que ele está fazendo algo certo, não errado. Como você muitas vezes lhe dá independência, ele provavelmente será mais obediente quando você notar uma situação de perigo e você insistir que ele fique ao seu lado.
  • Apoie o retorno de seu filho: Quando seu filho precisar de carinho, assegure a ele que sempre poderá voltar para buscar apoio em você. Diga: “Que bom que você voltou quando ficou com medo. Sempre estarei aqui para ajuda-lo”. 
  • Proporcione oportunidades para seu filho fazer explorações: Planeje momentos específicos e lugares seguros para seu filho explorar.

O que não fazer?

  • Não corra atrás do seu filho: Isso só dá mais “graça” ao jogo. Pare e diga: “É hora de ir embora”. Então, dê alguns passos na direção para onde deseja ir. Seu filho o seguirá. Seja objetivo, direto e calmo.
  • Não ameace abandonar seu filho: Jamais diga: “Então vou deixar você aqui. Assim você aprende”. Criar o medo do abandono é uma maneira cruel de tentar controlar a situação.
  • Não repreenda seu filho por tentar aprender a ser independente: Correr para longe de você e se esconder são vontades naturais de uma criança saudável. Lembre-se que a separação de seu filho é importante para que ele desenvolva independência, autonomia, responsabilidade e cuidado consigo mesmo. Não perturbe esse desenvolvimento. 
  • Não mime em excesso seu filho assustado: Quando seu filho correr de volta para você em busca de aconchego, abrace-o por um breve período. O excesso leva a mais dependência do que a criança necessita nessa idade. Ela pode aprender que ser independente não é bom e que, na verdade, o mundo é assustador demais para que se aventure nele sozinho. 

E lembre-se do que disse Içami Tiba: Nossos filhos são como os navios. Precisam sair e viver suas próprias tempestades. Mas nunca se esqueça de que os pais são como o porto, onde poderão sempre voltar para recarregar as energias e seguir em frente. Permita que seus filhos sejam navios. Seja o porto de seus filhos.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

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