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Quando seu filho se afasta de você: desenvolvendo a segurança, autonomia e independência - por Thainá Rocha

Já dizia o famoso psiquiatra e educador Içami Tiba:

“Ao olharmos um navio no porto, imaginamos que ele esteja em seu lugar mais seguro, protegido por uma forte âncora.
Mal sabemos que ali está em preparação, abastecimento e provisão para se lançar ao mar, destino para o qual foi criado, indo ao encontro das próprias aventuras e riscos.

Dependendo do que a força da natureza reserva para ele, poderá ter de desviar da rota, traçar outros caminhos ou procurar outros portos.

Certamente retornará fortalecido pelo aprendizado adquirido, mais enriquecido pelas diferentes culturas percorridas.

E haverá muita gente no porto, feliz à sua espera.

Assim são os filhos.

Estes têm nos pais o seu porto seguro até que se tornem independentes.

Por mais segurança, sentimentos de preservação e de manutenção que possam sentir junto dos seus pais, eles nasceram para singrar os mares da vida, correr os próprios riscos e viver as próprias aventuras.

(...) O lugar mais seguro em que o navio pode estar é o porto. Mas ele não foi feito para permanecer ali.

Os pais também pensam ser o porto seguro dos filhos, mas não podem se esquecer do dever de prepará-los para navegar mar adentro e encontrar o próprio lugar, onde se sintam seguros, certos de que deverão ser, em outro tempo, esse porto para outros seres.

(...) Devem os filhos seguir de onde os pais chegaram, de seu porto, e, como os navios, partir para as próprias conquistas e aventuras.

Mas, para isso, precisam ser preparados e amados, na certeza de que “quem ama educa”.

“COMO É DIFÍCIL SOLTAR AS AMARRAS”

Nesse pequeno trecho Içami Tiba nos fala da importância do afastamento para o desenvolvimento da autonomia e independência dos filhos. Costumo dizer que os pais sempre têm muito desejo de que o filho caminhe no tempo certo, desenvolva a fala, entre outras capacidades. Isso já é o início de sua autonomia. Mas por que muitos pais “param” esse desejo de autonomia aí? Por que é tão difícil autorizar os próximos passos do desenvolvimento de seu filho? 

Quando ele era menor, seu filho sempre queria ficar em seu colo ou caminhar a seu lado, especialmente se vocês estivessem em um lugar desconhecido para ele. Agora, seu filho de apenas 2 anos talvez não queira nem segurar a sua mão. Ele pode até mesmo virar todo o corpo para longe e sair correndo do lugar onde estão.  Se você o chamar pelo nome, pode ser que ele se afaste ainda mais em vez de voltar. E, se você for atrás dele, é capaz que ele corra ainda mais depressa. Ele pode até mesmo olhar para você e rir! Quanto mais sério você ficar, mais ele achará graça. Enquanto puder ver você, seu filho poderá achar que se trata de uma brincadeira muito divertida. Mas, se ele virar a esquina e sair de sua vista, você pode ouvi-lo chamar e, logo em seguida, vir correndo de volta.

O que meu filho pode estar pensando ou sentindo quando faz isso?
“Adoro sair para fazer compras com a mamãe. Gosto especialmente de ir à nossa loja favorita. Já fui lá muitas vezes e sei onde as coisas estão. Sinto-me seguro lá. Não preciso que mamãe segure a minha mão quando me sinto seguro. Gosto de explorar a loja. Quando eu faço isso, ela fica toda agitada e vem atrás de mim. Isso é muito divertido! Mas, de repente, não consigo mais ver a mamãe. Fica tudo muito quieto. Não a ouço mais, onde ela está? Oh, não, estou sozinho! Acho que vou chorar. Quando eu choro, minha mãe me encontra. Ela me pega no colo e me abraça. Isso me faz sentir seguro outra vez”.

Por que isso é importante?
Seu filho precisa se afastar de você para se sentir separado de você, praticando sua independência. Como a separação de você é algo novo, ele precisa testá-la em pequenas doses. Um espaço grande demais entre vocês o assusta (pelo menos no começo, rsrsrsrs). O desenvolvimento mental do seu filho, tratando-se de uma criança ainda pequena, associa “fora de vista” com “fora de existência”. Com quase 3 anos, seu filho já se lembra de você quando não o vê, mas com 2 anos e poucos meses, ele precisa mantê-lo à vista ou dentro do alcance de seus ouvidos. Ele correrá para longe de você e voltará para você muitas vezes. Desde que se sinta seguro, esse aprendizado será divertido para ele. É por isso que ele ri. Ele não está tentando irritar você. Quando seu filho fica com medo, ele quer que você o conforte e o ajude a recuperar a sensação de segurança. Ele aprendeu a comunicar suas necessidades chorando e confia que você o ajudará. Mas, como você o conforta tão bem, seu filho logo se sente seguro e pronto outra vez para o jogo “fugir da mamãe”. E lá vai ele...

Crianças pequenas precisam estar no controle de sua separação. Se você forçar seu filho a se afastar, ele não aprende a se separar com sensação de segurança. E se você o segurar e o impedir de se afastar quando ele estiver pronto, ele se sentirá preso e tenderá a se rebelar ou desistir de vez da separação. Sua tarefa é seguir a liderança do seu filho e deixar que ele lhe mostre até que distância de você ele pode manter. Claro que é preciso estar atento para as necessidades de segurança, que a criança ainda é incapaz de avaliar nessa idade. Ele terá aprendido que é uma pessoa independente que pode ficar perto de você sem, com isso, perder parte de sua identidade. 

O que fazer?

  • Apoie o afastamento de seu filho: Compreenda que seu filho não está o rejeitando, mas apenas descobrindo coisas sobre si mesmo. Seu filho sente-se suficientemente seguro para se afastar justamente porque você fez um bom trabalho. Perceba que seu filho confia em você o bastante para fazer experiências com sua própria independência. Ele acredita que você estará lá quando precisar de você e, por isso, sente-se seguro para testar sua nova necessidade de independência. Transmita-lhe a ideia de que ele está fazendo algo certo, não errado. Como você muitas vezes lhe dá independência, ele provavelmente será mais obediente quando você notar uma situação de perigo e você insistir que ele fique ao seu lado.
  • Apoie o retorno de seu filho: Quando seu filho precisar de carinho, assegure a ele que sempre poderá voltar para buscar apoio em você. Diga: “Que bom que você voltou quando ficou com medo. Sempre estarei aqui para ajuda-lo”. 
  • Proporcione oportunidades para seu filho fazer explorações: Planeje momentos específicos e lugares seguros para seu filho explorar.

O que não fazer?

  • Não corra atrás do seu filho: Isso só dá mais “graça” ao jogo. Pare e diga: “É hora de ir embora”. Então, dê alguns passos na direção para onde deseja ir. Seu filho o seguirá. Seja objetivo, direto e calmo.
  • Não ameace abandonar seu filho: Jamais diga: “Então vou deixar você aqui. Assim você aprende”. Criar o medo do abandono é uma maneira cruel de tentar controlar a situação.
  • Não repreenda seu filho por tentar aprender a ser independente: Correr para longe de você e se esconder são vontades naturais de uma criança saudável. Lembre-se que a separação de seu filho é importante para que ele desenvolva independência, autonomia, responsabilidade e cuidado consigo mesmo. Não perturbe esse desenvolvimento. 
  • Não mime em excesso seu filho assustado: Quando seu filho correr de volta para você em busca de aconchego, abrace-o por um breve período. O excesso leva a mais dependência do que a criança necessita nessa idade. Ela pode aprender que ser independente não é bom e que, na verdade, o mundo é assustador demais para que se aventure nele sozinho. 

E lembre-se do que disse Içami Tiba: Nossos filhos são como os navios. Precisam sair e viver suas próprias tempestades. Mas nunca se esqueça de que os pais são como o porto, onde poderão sempre voltar para recarregar as energias e seguir em frente. Permita que seus filhos sejam navios. Seja o porto de seus filhos.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

Quem dorme na cama do casal? - por Thainá Rocha

Caso de consultório:

Os pais deixaram que sua filha começasse a dormir junto à eles quando tinha um aninho. Após essa permissão, as primeiras tentativas de deixar a criança no bercinho foram difíceis. A menina entrava em pânico e os pais permitiam que ela voltasse para a cama deles. Somente assim ela se acalmava. O pai somente pensava: “Amanhã é um dia de trabalho para mim!”. De tempos em tempos voltavam a tentar, conforme o pediatra recomendava. As falas dos pais para a menina eram as seguintes: “Gabi, você já está grandinha, vai para a sua caminha, está bem?”. A tentativa durava noites, alguns tratos e chantagens dos pais eram feitos, mas depois Gabi voltava e retomava seu lugar no cama. Algumas vezes, após “rituais” variados, finalmente adormecia em sua caminha, porém no meio da noite, lá surgia Gabi no quarto do casal. Os pais cediam, pois estavam cansados e precisavam dormir. Após um tempo, pai e mãe passaram para a etapa de sedução: Gabi já iria para o primeiro ano na escola e com isso teria também um novo quarto, decorado, lindo... Foi junto visitar as lojas para escolher a decoração, a escrivaninha onde faria seus temas da escola, a colcha de ursinhos, os bichinhos de pelúcia, etc. Porém, após inaugurar o seu novo quarto, tudo continuava igual: adormecia no quarto e após retornava para a cama dos pais, no meio da noite... Algum tempo depois, nasceu o segundo filho do casal. Aos dois anos, começou a acordar com frequência no meio da noite. Até que, aos poucos, aprendeu a “fatídica formula” da “cama grande”. A mãe achou uma injustiça a filha mais velha aninhada na cama, enquanto o outro, com somente dois anos, sozinho no quarto. Assim, quem desistiu da cama de casal foi o marido, que passou a dormir em um dos quartos das crianças. 

Então vamos lá...

Aqui cabe uma importante reflexão: Por que os filhos se dão o direito de tomar posse da cama dos pais? Por que a coitadinha da Gabi (e depois seu irmãozinho) não pode curtir o seu quarto?

É importante pontuar que o “tabu” da cama dos pais, a exclusão rígida desse espaço não pode nem deve ser uma regra universal. Há ocasiões em que é permitido aceitar que a criança fique na cama dos pais: quando ela atravessa um período difícil, quando está doente, quando os pais querem ter a alegria de brincar com ela numa manhã de domingo. Ocasiões e modos que os pais escolhem conscientemente. Não, não é permitido quando um dos parceiros vai, por exemplo, viajar, pois o direito de ir para a cama do casal e ocupar o lugar do papai ou da mamãe coloca a criança numa posição que não é dela, mas inconscientemente de um quase “parceiro substituto”, de forma que, quando o cônjuge retornar, em vez de desejado, poderá ser rejeitado pela criança em questão. Sem contar o que essa situação nos diz a respeito do adulto que tem a necessidade de preencher esse “espaço vazio” durante a ausência do cônjuge. E não, isso não é exagero e é mais comum do que se imagina. 

Então, como fazer para convencer a criança a dormir no seu quarto?

O problema não é convencer os filhos, mas sim os pais!

Quando os pais estiverem bem convencidos de que isso é um direito do casal além de um benefício para os filhos terem um espaço pessoal à noite, os filhos perceberão a ordem imediata: “tomem posse do quarto de vocês”. Uma vez uma mãe me questionou: “E se meu filho perguntar ‘Mas afinal, eles lá são dois e eu estou aqui, sozinho’ e ficar ressentido, o que eu faço?”. Minha resposta: TERAPIA. Esse tipo de pensamento trata-se de uma bela formulação de uma mãe que bem provavelmente teve/tem alguma dificuldade em relação a isso (ela inclusive quer prever o que eu o filho possa vir a questionar, e isso diz de uma dificuldade dela) e projeta isso no filho, porque “coitadinho, sente-se sozinho!”. Quem, neste caso afinal, sente-se sozinho? Ainda que a mãe não manifeste esses pensamentos de forma consciente, muito provavelmente a comunicação que chega na criança quando ela é mandada para o seu quarto é: “Vá, pode ficar aí, mas não fica aí não, está bem?” O filho irá perceber a prevalência da linguagem não verbal (as crianças são boas nisso, possuem antenas muito afiadas, com poucos meses de idade são capazes de captar o estado de espírito do adulto) e nem por sonho vai querer sair da cama dos pais. 

Se o casal tiver sintonia na forma de agir e lidar com a situação e se aliar às reais necessidades da criança, e não a seus supostos sofrimentos, ela poderá perfeitamente ocupar o seu espaço e não o do casal. Admito que para isso será necessário uma boa dose de firmeza e até noites em claro. Mas é o que costumo perguntar aos pais: Qual problema querem resolver? O daquela noite específica ou o problema do seu filho? No caso citado acima, Gabi vai conseguir tranquilizar-se quando os pais também conseguirem. 

Um casal me disse certa vez: “Nunca trancamos a porta do nosso quarto, sei lá o que os filhos irão pensar...”. Perguntei: “O que deveriam pensar?” “Sei lá, que escondamos segredos...”. Por que os pais colocam os filhos no cargo de controladores de sua privacidade? Quando seus filhos virem que o casal está separado (como no caso ilustrado hoje) e que conseguiram tirar o pai da cama do casal, o que mais poderá acontecer? E quando conseguirem declarar por fatos que a mamãe é só mãe, e não a mulher do seu marido e que o papai é só pai, que conclusões poderão extrair disso? Será que essas crianças irão ter vontade de crescer? Irão compreender os mais diversos papéis e funções que os pais também ocupam, em seu trabalho, família, vida?

O segredo do casal constitui sim um fator muito importante no desenvolvimento infantil. Se as crianças virem os pais desaparecerem as vezes, para um programa a dois enquanto ficam com a avó, se virem a mãe sair em companhia do pai, produzida e bonita, como se fosse um encontro de namorados, se virem o pai fazer surpresas para a mãe, se perceberem o casal colocando o NÓS como algo natural, então a cama dos pais já não será algo tão importante. Se os pais minimizarem o segredo do casal, não causarão prejuízos somente a si mesmos, mas também prejudicarão seus filhos, privando-os do seu crescimento. Quando dois parceiros se resignam a deixar que os filhos se apoderem de sua cama, já renunciaram há tempos ao seu segredo de casal.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

Para continuar estudando... - por Thainá Rocha

Costuma-se comentar por aí que filho deveria vir com manual de instruções, não é mesmo? O fato é que eles não vêm. Mas não se desespere! Existe, sim, esperança!

O objetivo aqui é indicar alguns livros que podem ajudar você a continuar estudando sobre o universo do seu filho, para a compreensão de características do desenvolvimento das crianças e dos adolescentes e para a reflexão sobre as consequências dos nossos atos junto a eles.

  • Pais liberados, filhos liberados (Faber, A; Mazlish,E.);
  • Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar (Faber, A; Mazlish,E);
  • Entre pais e filhos (Ginot, H.)
  • Como educar meu filho (Sayão, R.)
  • Somos pais! E agora? (Albisetti, V.)
  • Como ser bons pais e criar ótimos filhos (Davidson, A; Davidson, R.)
  • Quando é necessário dizer não: a dinâmica das emoções na relação pais e filhos (Mantovani, M.)
  • Os adolescentes. Nem adultos, nem crianças: seres à procura de uma identidade própria (Palmonari, A.)
  • Separação saudável, filhos estáveis (Acevedo, A.)
  • Dicas para pais de primeira viagem (Brett, S.)
  • Crianças francesas não fazem manha (Drukerman, P.)
  • Mamãe conta tudo (Fiorillo, F.)
  • Soluções para disciplina sem choro (Pantley, E.)
  • Limites sem trauma (Zagury, T.)

 

Boa leitura!

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte VI - por Thainá Rocha

A maior dúvida dos pais é: o que fazer quando, depois de explicar as regras e de mostrar os seus motivos, ainda assim o filho não a cumpre? Por exemplo, você já explicou que as mesas servem para as refeições e não para subir nelas, mas o pequeno continua subindo. Você já explicou para o seu filho que a lição de casa é uma responsabilidade dele como aluno, para que possa fixar o conteúdo aprendido na escola, mas a professora manda bilhetes todo o dia dizendo que a lição não foi feita.

O que fazer?
O tema “castigos” é um dos mais sérios e importantes na educação dos filhos. A maior dificuldade dos pais é saber: quando e como punir.

Então, vamos pensar juntos em duas questões importantíssimas. A primeira ainda nem diz respeito aos castigos ou punições, embora esteja bastante relacionada. Trata-se do fato de que a maioria dos pais, quando ensina regra para seus filhos, o faz atrelando-a ao castigo que a criança sofrerá caso não a cumpra: “Se você não fizer a lição, não iremos no cinema”. 

Desse modo, ao agirem assim, estão cometendo dois erros muito sérios. O primeiro é que estão desautorizando a regra. Quando você diz “se você não fizer a lição, não iremos ao cinema”, está comunicando ao seu filho que a regra não é séria, pois, se ele pagar o preço, pode não fazer a lição. Nesse caso, o filho pode escolher e preferir não ir ao cinema, o que lhe dá a possibilidade de não fazer a lição. É por isso que muitas vezes as intervenções dos pais não funcionam!

Outro exemplo: uma mãe combinou com o filho que lhe pagará R$2,00 por dia que ele fizesse a lição de casa. Um dia, o filho disse a ela que o preço tinha aumentado e que agora só faria se ela lhe desse R$5,00.

Vejam bem: quando a regra vem atrelada a um prêmio ou punição, deixa de ser regra. Deixa de ser lei. Ela não foi explicada nem legitimada como um comportamento a ser executado e que, portanto, se basta em sua própria explicação.

o segundo erro ao apresentar a regra é que você deixa de lhes garantir a autoridade da regra. As regras precisam dizer o que deve e o que não deve ser feito, conforme já vimos nos textos anteriores. Elas representam um modo de agir considerado o melhor devido ao princípio à ela relacionado. 

Por isso, a regra deve ser apresentada às crianças com brevidade e firmeza. Por exemplo: “Fazer a lição é seu compromisso diário. Você precisa de ajuda?”; ou ainda, “Hora de escovar os dentes”. 

Mas e quando mesmo assim as regras são descumpridas? Aí é preciso um castigo ou “sanção”, conforme chamou Jean Piaget, cujo objetivo é fazer a criança e o adolescente perceberem que a regra é importante e necessária e que os pais não abrirão mão dela. Mas quais castigos?

A segunda questão a respeito dos castigos é para explicar para que eles servem. O castigo não é para fazer a criança sofrer. Não deve estar relacionada ao medo ou à chantagem emocional, mas sim ser uma maneira de mostrar para a criança qual regra ela descumpriu e o que deve fazer para corrigir o seu erro. Sua função é a de educar, ensinando o valor da regra que foi descumprida pela criança. 

Quando as crianças desobedecem, uma atitude precisa ser tomada por seus responsáveis. Fingir que não está vendo, deixar passar, ignorar, não é uma boa atitude por parte dos adultos. Algo deve ser feito. 

Podemos dizer que há diferentes de castigos. Um deles trata-se de uma punição cuja função é fazer o culpado sofrer, ou seja, a criança ou o adolescente deve pagar pelo seu erro, deixando de ganhar um presente ou perdendo o direito de jogar videogame, sendo privado de alguma coisa que gosta muito.

Muitos pais acreditam que é o adequado, pois se a criança quiser acessar a internet por exemplo, terá que arrumar o quarto. Às vezes esse tipo de atitude até “resolve”. Porém, o grande problema é que não é educativa. Por quê? Por que as crianças necessitam aprender que manter o quarto arrumado é uma regra cujo princípio se explica na manutenção da ordem e da limpeza. 

Dessa forma, quando o castigo não tem relação direta com o ato que se deseja corrigir, supõe-se apenas que a criança ou adolescente optem por agir corretamente para evitar perder algo que gostem muito e não por compreenderem qual regra não estão cumprindo e por que ela deve ser cumprida. 

São exemplos de “castigos para fazer sofrer” e que não têm nenhuma relação com o ato que se deseja corrigir:

  • Deixar sem televisão quando a criança quebrou um objeto que pertence aos pais/responsável;
  • Não permitir que a criança brinque com os amigos porque não almoçou;
  • Tirar o videogame porque a criança respondeu mal para a mãe;
  • Apanhar em casa porque houve reclamação na escola de que a criança não está se comportando;
  • Negar-se a conversar com a criança porque ela não quis ajudar a cuidar do irmão menor.

Esses são apenas alguns exemplos que “apelam” para o sofrimento e para o medo ou chantagem. Não dão oportunidades à criança de pensar sobre a regra que descumpriu e de também arcar com a responsabilidade dos seus atos. Elas não têm relação direta com o erro cometido e, portanto, não podem educar. Muitas vezes esse tipo de castigo se torna uma expressão de raiva e vingança da parte da criança. Acredite: nenhuma criança diz para si mesma depois de ser castigada “Vou melhorar, ser mais responsável e cooperar mais porque quero agradar esse adulto que me castigou”.

Os próximos temas serão sobre castigos físicos/palmadas e posteriormente, sobre os castigos que educam!

Enquanto isso, reflita:

  • Quando ensino uma regra, eu costumo apresentá-la atrelada ao castigo?
  • Que tipo de castigos eu costumo aplicar?
  • Quais os objetivos dos castigos que aplico?
  • Acredito que tirar algo que meu filho goste pode ajudá-lo, de fato, a aprender sobre boas regras?

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LEIA TAMBÉM: “Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte II - por Thainá Rocha
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LEIA TAMBÉM: “Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte IV - por Thainá Rocha
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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte IV - por Thainá Rocha

AINDA SOBRE REGRAS

Você já se percebeu falando assim para o seu filho: “Você já fez a lição? Escovou os dentes? Arrumou o seu quarto? Colocou para fora o lixo que eu pedi? Menina, não fale assim com sua avó! Saia já daí! Um, dois...não espere eu falar o três!”

Na verdade, muitas vezes parece que acabamos repetindo todas as coisas que odiávamos que nossos pais fizessem conosco. Qual pai nunca ficou perdido, pensando “O que eu faço agora?” ou “Por que é tão difícil?”. Às vezes, até desejam um botão para desligar seu filho. Mas as crianças não tem controle remoto. Na verdade, parece que vêm pilhas extras!

Então eu pergunto a vocês: Por quais regras vale a pena “brigar”?

Alguns pais gastam muita energia com questões desnecessárias e deixam de trabalhar o que é essencial com seus filhos. Mas como saber o que é essencial? Como saber quais regras são importantes?

No primeiro texto sobre o assunto, disse que não apresentaria receitas, mas gostaria de compartilhar com vocês uma “fórmula” para ajudar a pensar quais regras você não pode deixar de ensinar ao seu filho por serem realmente importantes para ele.

Vamos então pensar no princípio das regras. O princípio justifica a existência da regra, explicando o seu por quê. 

Exemplos: 
- Escovar os dentes para não ter cáries;
- Chamar as pessoas pelo nome ou pela forma que gostam de ser chamadas para não aborrecê-las ou humilhá-las;
- Fazer a lição de casa para entender o que foi ensinado na escola;
- Para adolescentes, vale o mesmo princípio: voltar para casa até a meia-noite para cumprir acordo preestabelecido com os pais;
- Não pegar caronas com amigos alcoolizados ou sem habilitação porque isso significa colocar-se em risco.

Vejam que, quanto aos princípios das regras, devem ter origem em um valor que queira formar na criança e no jovem. Dessa forma, toda a regra deve ser justificada por um princípio que tem sua origem em um valor (LA TAILLE, 2009). 

Entenda:

REGRA: O que se deve e o que não se deve fazer
PRINCÍPIO: O porquê da regra
VALOR: O que a regra ensina; virtude

Agora reveja alguns dos exemplos de regras citados anteriormente, aplicando o entendimento de princípio e valor:

REGRA: Escovar os dentes → PRINCÍPIO: Para não ter cáries → VALOR: Saúde
REGRA: Chamar as pessoas pelo nome ou pela forma que gostam de ser chamadas → PRINCÍPIO: Para não aborrecê-las nem humilhá-las → VALOR: Respeito
REGRA: Fazer a lição de casa → PRINCÍPIO: Para entender e fixar o que foi aprendido na escola → VALOR: Responsabilidade
REGRA: Não pegar caronas com amigos que dirigem alcoolizados ou sem carteira de habilitação → PRINCÍPIO: Para não se manter em encrenca ou acidentes → VALOR: Saúde; autopreservação

Assim, podemos dizer que todas as regras apresentadas como exemplo são realmente adequadas à educação dos filhos, pois através delas é possível ensinar um valor essencial. 

No primeiro texto, falei sobre a importância de se ter clareza sobre quais valores vocês querem ensinar aos filhos. Porém, ninguém ensina valores abstratos a uma criança, não podemos sentar com nossa filha de 5 anos e dizer: “Hoje quero te ensinar sobre honestidade”.

Entendem o porquê da regra ter princípios e valores? É na prática que a criança assimila, entende e irá aprender! A criança de 5 anos aprenderá sobre honestidade ao vivenciá-la em suas relações.

Outra maneira muito importante de classificar as regras é definir aquelas que devem ser inegociáveis e as negociáveis.

Deve-se ter clareza das regras que não podem abrir mão e que são, portanto, inflexíveis.

Exemplos:

REGRAS INEGOCIÁVEIS
Escovar os dentes
Não bater nas pessoas
Dormir às 22h
Fazer a lição de casa
Tomar banho todos os dias

REGRAS NEGOCIÁVEIS
Horário de dormir nos finais de semana
Tempo no Tablet
Arrumar o quarto todos os dias
Escolher o que vestir
Comer um chocolate no domingo

Vejam que, todas as regras que têm origem nos valores saúde, estudo e convivência devem ser consideradas inegociáveis e não podem ser flexíveis. Pode parecer simples, mas alguns pais se atrapalham com relação a isso. Portanto repeti tantas vezes ao longo dos últimos textos, tenham clareza das valores que são importantes para vocês e que consequentemente querem ensinar aos filhos de vocês, isso fará toda a diferença para determinar as regras e a flexibilidade das mesmas. Faça uma lista das regras negociáveis e inegociáveis da sua casa.

Lembrem-se: As crianças e também os adolescentes ainda não têm condições cognitivas nem emocionais para tomar determinadas decisões. Estão em formação, aprendendo! Cumpra seu papel de adulto da relação!

Para refletir...

  • Quando ensino as regras para o meu filho, explico o porquê delas?
  • Tenho clareza do valor que estou ensinando?

Referência:
LA TAILLE, Y. Formação Ética. Porto Alegre: Artmed, 2009

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

 

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte III - por Thainá Rocha

REGRAS

Quando a criança nasce, já começamos a ensiná-la algumas regras, como por exemplo, na amamentação. Algumas mães conseguem organizar uma rotina para seus bebês desde os primeiros meses. Com carinho, respeito e atenção, estabelecem limites, já ensinando-lhes concretamente algumas delas.

Os seres humanos desde o nascimento estão inseridos em um mundo com regras, sendo extremamente necessárias para uma convivência harmoniosa. As crianças devem aprender, ao se relacionar com os adultos, o conhecimento das regras que organizam a convivência do grupo ou da família na qual estão inseridas. É quando as crianças podem começar a aprender sobre elas e também sobre como as aprendem.

As crianças nascem sem nenhum conhecimento sobre o certo e o errado. Os bebês estão descobrindo o mundo através de suas ações, percepções e sensações. O começo de tudo acontece no sentimento de obrigação que a criança desenvolve em relação aos mais velhos, especialmente aos pais e professores. Esse sentimento, que a leva a obedecer, é a soma de outros dois sentimentos, segundo Jean Piaget, biólogo e psicólogo que se empenhou a estudar o desenvolvimento infantil. O primeiro é o de afeto pelos adultos, o amor. O segundo, o respeito.

Há pais que têm medo de perder o amor dos filhos e acreditam que não podem negar nada a eles. Acreditam muitas vezes que se os corrigirem, eles não gostarão mais deles.  Ainda há pais que não suportam ver os filhos contrariados ou chorando e, para evitar isso, acabam cedendo a todas as vontades e birras. E há ainda outra “categoria” de pais: os vencidos pelo cansaço. É um dos mais comuns, devido às exigências da vida que causam o estresse, a falta de tempo, e por aí vai, fazendo com que os pais “se rendam” aos filhos. É aí que a fórmula de Jean Piaget (equilíbrio entre amor e respeito) vai por água abaixo...

Mas então, como as crianças aprendem regras?

A resposta é essa: a partir do sentimento (em equilíbrio) de respeito e amor/afeto que a criança sente pelo adulto, é que se inicia um processo de imitação das regras recebidas e a utilização individual desses exemplos. Ou seja, a criança necessita que os pais ensinem-lhe as regras. E aqui cabe uma diferenciação muito importante: os pais podem ensinar os filhos a obedecer a eles próprios ou a obedecer às regras de forma geral.

Como assim? Isso não é muito fácil de se perceber no dia-a-dia, mas faz uma diferença muito grande quando o objetivo é educar e não simplesmente ser obedecido naquela hora, no momento em que a situação que a criança necessita ser corrigida acontece.

Um exemplo:

Um menino de quatro anos sobe em cima da mesa. O pai o ameaça dizendo “Desça daí agora, senão você vai apanhar”. O menino, com medo de apanhar, desce rapidamente da mesa.

O menino obedeceu por medo de apanhar. Mas o pai não explicou a ele para que servem as mesas, nem o orientou sobre quais lugares pode brincar ou não, não fez com que a criança tivesse tomada de consciência e o conhecimento do perigo.

Essa criança aprendeu a obedecer o pai (por medo de apanhar), e não a obedecer uma regra. Está aí a grande diferença! Saberia essa criança que não se pode subir nas mesas em nenhuma situação e em qualquer lugar que estiver, até quando o pai não está por perto para ameaçar? Aprendeu esta regra? Provavelmente não. Esse é um exemplo claro onde não há o equilíbrio de amor/afeto e respeito. O pai se utilizou do “temor” do filho em relação a ele, e isso não é respeito nem autoridade. Muitos pais confundem respeito e autoridade com “temor”.

É importante lembrar que a educação é um processo, que possibilita que a criança aprenda sobre as regras e faze-la entender sua necessidade e também convencê-la de que aquela é a melhor maneira de agir. Outra questão é que a criança testa, sim, a regra. Quando os pais ensinam a obedecer regras, a criança testa a validade desse limite. Quando os pais ensinam a obedecer a eles mesmos, a criança testa a sua autoridade.

As crianças devem pensar sobre as regras. Devemos colocar limites sim, mas ensinar a compreende-los, ajudá-los a aprender quais regras são importantes e por que são importantes.

Assim, uma regra é legitimada pela criança, ou seja, ela deixa de testar a regra, quando, depois de tanto fazê-lo, observa que é importante mesmo, pois seus pais não abrem mão dela.

O papel dos pais, então, é esse: ser fonte e modelo de boas regras. A regra necessita ser reapresentada e explicada para a criança tantas vezes forem necessárias, e ser seguida pelos próprios pais.

No próximo texto, refletiremos sobre quais regras são importantes serem ensinadas e sobre as regras negociáveis e as inegociáveis. Enquanto isso, deixo algumas reflexões:

  • Tenho cumprido o meu papel como pai ou adulto da relação?
  • Eu ensino o meu filho a obedecer regras ou a me obedecer? Eu quero que ele seja, quando adulto, uma pessoa obediente ou autônoma?

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

“Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte II - por Thainá Rocha

Dando continuidade ao tema da última postagem, hoje quero lançar outras reflexões antes de dar início à parte prática do nosso assunto. Para quem leu o texto anterior, conseguiram pensar sobre quais seus objetivos ao educar e qual pessoa querem formar?

Hoje separei mais alguns tópicos para pensarmos juntos... como é educar nos tempos de hoje? Quais as consequências nas crianças diante da ausência de autoridade? Filho é um projeto e a educação é um processo... como assim? Qual a importância do que os pais fazem? 

Vamos lá...

Educar nos tempos de hoje

Você já ouviu falar que as crianças de hoje são muito mais desobedientes do que as de antigamente? E que os pais atualmente não sabem dar limite aos filhos?

Percebo que há uma questão que tem tornado o ato de educar ainda mais desafiador: os tempos atuais. Hoje vivemos em uma sociedade de valores instáveis, em um mundo que tudo pode e que nada mais surpreende ninguém. O que isso significa? Que o mundo atual é guiado por algumas características que dificultam a educação dos filhos, como a instabilidade de valores, a busca desenfreada pelo prazer imediato a qualquer custo, o consumismo, o individualismo e a dificuldade que muitos adultos tem de dar sentido à vida. (LA TAILLE, 2009).

O que isso tem a ver com a educação das crianças?

A liberdade completa não pode ser oferecida às crianças e aos adolescentes, pelo simples fato de que elas ainda estão em desenvolvimento e não têm como opinar ou escolher a respeito de determinadas situações ou fatos. Assim, os pais são responsáveis por ensinar o certo e o errado aos filhos. Então, em uma sociedade que tudo pode e nada mais parece estar certo ou errado, ampliam-se as dificuldades. Outra questão muito importante aqui é que hoje em dia é bastante comum ouvir os pais dizerem que querem dar aos filhos tudo aquilo que não tiveram. Aqui cabe um alerta: será que ser bom pai é dar ao filho tudo aquilo que ele quer? A resposta correta é “não”. O motivo? Primeiro porque “tudo” é demais e inalcançável e segundo, ao dar tudo o que o filho quer o impede de experimentar a conquista, a espera, o desejo, a valorização e até a possibilidade de aprender a se frustrar. Como chegam no consultório crianças que não sabem lidar com a frustração, característica tão importante para aprender a encarar a vida e não adoecer emocionalmente! E como tenho atendido pais que se frustram ao não saberem lidar com a frustração do filho!

Outra característica da sociedade atual é: falta de tempo. Pais trabalham enlouquecidamente (inclusive para oferecer aos filhos exatamente tudo o que não tiveram). Mesmo as agendas infantis são abarrotadas de compromissos. Os pais sabem que no meio de toda essa correria, não tem tempo de ficar com os filhos. Sentem-se então culpados de, nos poucos minutos que tem junto a eles, impor-lhes limites... compensam a ausência com presentes... enquanto isso, falta tempo para ficar junto, para refletir sobre essa correria toda. Falta-se tempo até mesmo para se ter filhos!

Li uma vez que uma boa forma de caracterizar o homem nos dias de hoje é a figura do turista. O turista é aquele que está de férias. Está ali só de passagem. O tempo é curto e tem que cumprir um protocolo de visitas a todos os pontos turísticos, para sentir que passou por ali nem que seja por 5 minutos, o tempo de tirar algumas fotos já é o suficiente. O turista vive relações frágeis com as pessoas que conhece na viagem, pois muitas vezes não voltará a vê-las. Como ser pai e mãe em tempos de gente “turista”? O papel de pais não pode ser de turista na vida dos filhos. 

Para refletir...

  • Você tem sido um turista na vida do seu filho?

Ausência de autoridade

Pai e mãe são os adultos da relação. Não se pode negar a necessidade da autoridade do adulto para a criação e a educação das crianças. A criança e o jovem são os mais novos e não estão prontos para o mundo, portanto, precisam de ajuda dos mais velhos para crescer e se desenvolver. Isso explica a importância da autoridade. Pais “turistas” negam sua autoridade na relação com os filhos e não assumem o seu papel de adulto na relação. Existem várias formas de negar a própria autoridade na relação com os filhos, vou citar as que mais percebo. Uma delas diz respeito aos pais que abrem mão dela na ansiedade de não reproduzirem a educação autoritária que receberam. Os pais confundirem educação com agressão, humilhação, etc. É possível ter autoridade sem precisar feri-los (por dentro e por fora). Outra forma de negar a autoridade são os pais que querem ser “amigos” dos filhos. Ao assumirem a relação de amizade, eles abrem mão do verdadeiro papel, que é o de ser pai ou mãe. Isso não quer dizer que o pai não deva ser próximo ou amigo do filho. Mas tem que haver um entendimento de que não é uma relação entre iguais. 

Li também, certa vez, que nos tempos de hoje, a autoridade tem sido substituída pelas celebridades. O que significa ser celebridade: Ter tudo o que se quer (consumismo); fazer tudo o que se quer (busca pela satisfação a todo o custo); ser o mais famoso, o mais conhecido e o vencedor (individualismo). Mas quanto tempo dura, muitas vezes, uma celebridade? (relações descartáveis). 

Dessa parte, posso destacar dois pensamentos importantes. O primeiro é que ser pai e ser mãe é ser os adultos da relação, o que implica assumir a autoridade. O segundo é que os tempos atuais exigem ainda mais a participação dos pais na educação dos filhos.

Para refletir...

  • Sei a diferença entre autoridade, amizade e celebridade?

Filho é um projeto

Filho é um projeto pessoal. Ainda que não tenha sido planejado, você decidiu assumi-lo. Trata-se de um projeto duradouro. Não se pode divorciar ou desistir dos filhos. Filho é alguém que necessita de cuidados e proteção até que esteja pronto para ingressar no mundo adulto. É um projeto bastante demorado. A educação de uma criança acontece diariamente, desde que ela chega ao mundo até se transformar em um adulto. Há demora e demanda para se educar uma criança. Essa realidade nem sempre é consciente para alguns pais. Nenhuma criança pede para nascer. Se você a teve, adotou-a ou assumiu sua guarda, tem que saber que, como adulto, assumiu um projeto pessoal e duradouro. Você é o adulto e, por isso, terá que se doar muito mais do que receber em troca. Não dá para trocar de filho, devolver ou desistir. Portanto, a educação dos filhos é um processo...

Para refletir...

  • Eu já pensei em desistir do meu filho? Faço isso sem perceber, quando, cansado ou estressado, deixo de lhe dar atenção, de corrigi-lo, de acompanhar o seu desenvolvimento e de educá-lo?

A educação é um processo

Nunca é demais repetir: o processo de educação de um filho nem sempre é leve e agradável. A educação é complexa, permeia todo o desenvolvimento da criança e do adolescente. Quando se tem um filho, é necessário que ele esteja incluso realmente no projeto de vida desse adulto que o trouxe ao mundo. Os adultos precisam organizar sua agenda para ter tempo de educar seus filhos. Esse tempo não se resume em dar banho e comida. O tempo não é medido em quantidade e sim, em qualidade. O tempo deve ser para dar atenção, carinho, dialogar.

Para educar, não há mágicas. Não há atitudes especificas para que a criança se eduque e se sinta amada (já me pediram checklist para isso). Educação vai além. O que ensina os filhos é a coerência das nossas atitudes para com eles todo dia e a cada dia. O que faz a criança aprender o certo e o errado é o fato de que esse certo e esse errado sejam trabalhados e vivenciados pela criança todo dia junto com o adulto responsável por ela. A educação é um processo, ou seja, é exatamente a regularidade, a continuidade, a coerência das atitudes do dia a dia para com os filhos que constroem a educação deles. Isso é educar. Não desistir nunca. Então é preciso que os pais estejam disponíveis e assumam o compromisso como parceiros desse processo de ajudar a criança a se tornar adulto. Aí entra outra questão: muitos pais tem medo desse momento, pois acreditam que estarão perdendo o filho. Na verdade não amam e sim são apegados à eles. Acabam os ensinando sobre dependência. Cuidado! O papel de ser pai é o de estar presente e participar do processo de desenvolvimento, mas também ajuda-lo a crescer. É permitir que o filho cresça e não dependa mais deles. Isso não significa que o filho vai deixar de amá-los, nem que os pais não tenham de preocupar-se mais com o filho adulto. Se você, pai ou mãe, tem dificuldade em entender essas questões, procure ajuda! Será bom para você e para seu filho.

Para refletir...

  • Educar é um processo longo. Entendo isso ou procuro soluções mágicas? Educo meu filho para ser adulto ou me esforço em mantê-lo infantilizado e eternamente dependente de mim?

A importância do que os pais fazem

Não há influencia mais importante no desenvolvimento dos filhos do que a dos pais. Nem mesmo as informações genéticas que as crianças herdam ao serem concebidas têm tanta influência sobre a vida delas quanto a educação, a orientação e a convivência com seus pais.

A ideia aqui não é assustar e menos ainda deixá-los culpados. A ideia é motivá-los a fazer o melhor que puderem. Não podemos ir levando a vida e cair em um processo automático de relacionamento com as crianças sem refletirmos sobre quais são as melhores atitudes, as melhores palavras, as melhores intervenções que podemos oferecer à eles. Não pode ser uma ação improvisada! Os pais que são conscientes da importância do seu papel na vida dos filhos têm muito mais chances de que suas crianças cresçam e se transformem em pessoas equilibradas, saudáveis, alegres e realizadas.

Bem, acho que já refletimos bastante. Fico feliz de terem lido esse texto e por terem chegado até essa parte. Isso significa que estão interessados em aprender e a saber mais sobre a educação de seus filhos. E lhes digo com toda certeza: esse é o melhor caminho, saber o que se está fazendo. As propostas práticas que apresentarei nos próximos textos são fundamentadas em pesquisas científicas, ou seja, tem seus resultados comprovados. As orientações (e mais e mais reflexões) que apresentarei a partir de agora são resultado dos meus anos de estudo, principalmente em Psicologia do Desenvolvimento da criança e do adolescente, que estou preparando para dividir com vocês com muito carinho, tendo como principal objetivo “ajudá-los a ajudar seus filhos” a crescer e se desenvolver como pessoas de bem e com o aspecto emocional saudável.

Se eu pude convencê-los nesses dois textos de reflexão de que o que os pais fazem é muiiiito importante, vamos colocar as mãos à obra!

Até a próxima! 

Referência:
LA TAILLE, Y. Limites: três dimensões educacionais. São Paulo: Ática, 2009.

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

“Se você não parar com isso, vai apanhar...” - por Thainá Rocha

Uma introdução ao tema

O assunto de hoje (e dos nossos próximos bate-papos) buscará refletir a respeito da tão polêmica pergunta (e que divide muitas opiniões): É possível educar sem palmadas?

A Lei n.13010/2014 estabelece o direito da criança e do adolescente a não serem submetidos a castigos físicos ou a tratamento cruel ou degradante. Então a dúvida de muitos pais é: Sem palmadas, como educarei meu filho? Haverá realmente um prejuízo tão grande à criança que leva uma palmada, o qual justifique a criação de uma lei para punir os pais que castigam corporalmente os filhos?

Outra questão que confunde opiniões acerca deste assunto é que, nos tempos atuais, a educação dos filhos não é exatamente um ponto de consenso entre os pais (nem sequer entre muitos especialistas!). Então, os pais nem sempre sabem como agir (e se estão agindo certo) diante da desobediência ou da rebeldia. 

Muitas vezes, um filho é muito desejado, mas muitas vezes também o sonho de ter uma criança para proteger e cuidar se transforma em um pesadelo, quando o cansaço do dia-a-dia e de todas as exigências e desafios vividos acabam por esgotar os pais. Aparece então uma ambiguidade de sentimentos: o amor e a dedicação exclusiva versus os sentimentos de impotência, raiva, cansaço diante das dificuldades inerentes ao ato de educar.

Quando no início de nosso bate-papo falei que este seria o assunto de hoje e também das nossas próximas conversas é porque este é um tema que nos exige pensar em diversas questões para que se possa responder a pergunta que lancei. 

O primeiro de tudo é que a educação é um processo longo, árduo e demorado, que dura mais ou menos vinte anos, no mínimo, até que a criança se torne adulta. Enquanto isso, os pais precisam estar presentes, firmes, fortes, incansáveis e conscientes para que se desenvolva plenamente e para que se transforme em uma pessoa de bem. “Fácil” né?

Então, levaremos um tempo para pensar sobre todas as questões e no que elas implicam, e outro ponto “simples” que justifica demandar um tempo maior para este assunto ser discutido é que: NÃO HÁ RECEITAS PRONTAS PARA EDUCAR UMA CRIANÇA. Já ouvi de muitos pais: “Posso dar uma palmadinha de vez em quando?” “Meu filho está se comportando assim, o que eu faço então?”. Minha vontade é de responder: “É complexo”. E é! Repito: NÃO HÁ RECEITAS PRONTAS. As repostas para essas dúvidas e inquietações exigem que pensemos antes em muitas outros fatos. Se eu dissesse “Faça tal coisa que esse comportamento vai parar” até poderia amenizar o determinado comportamento por certo tempo, mas dificilmente o resolveria de fato se não pensarmos em alguns pontos anteriores e estreitamente relacionados ao sucesso nessa grande missão de educar. Simplesmente NÃO EXISTE MÁGICA quando o assunto é educação dos filhos. Cada pessoa é ÚNICA. CADA FAMÍLIA SE ORGANIZA DE MODO DIFERENTE. É INCONSEBÍVEL UMA RECEITA MÁGICA QUE RESOVA OS PROBLEMAS DE TODO E QUALQUER PAI.

A minha proposta é então, outra. Vocês não encontrarão aqui receitas nem modelos. O meu objetivo é ajudar os pais a pensarem sobre algumas questões importantíssimas para a educação dos filhos, sendo a temática “palmadas” uma delas.  O foco aqui serão OS PAIS!

Em resumo, o que vou discutir com vocês a partir de hoje e nas nossas próximas “conversas” será a respeito do compromisso que os pais assumem com seus filhos, que são para eles um projeto pessoal e duradouro. Após, discutiremos alguns assuntos básicos a respeito da educação das crianças e dos adolescentes. Posteriormente, trarei assuntos para os quais os pais muitas vezes não dão tanta atenção, mas que podem fazer toda a diferença no dia-a-dia na relação com os filhos. E por último, quem me acompanha sabe que adoro dicas de livros, vou lançar um roteiro de alguns que acredito que possam ser uteis para quem quiser continuar estudando e aprendendo um pouco mais sobre o desenvolvimento e a orientação da educação das crianças e adolescentes.

Agora que vocês já entenderam o que eu quis dizer com “É complexo”, iniciemos as nossas conversas então...

O Projeto de ser pai/mãe

Todo o projeto bem sucedido conta com um planejamento, por mais simples que seja. Se a tarefa simples de fazer um bolo necessita ser planejada, obviamente não é possível educar um filho sem planejamento também. As crianças não vem com prazo de validade, controle remoto ou manual de instruções. “Os pais quando adotam ou geram uma criança assumem com ela e com toda a sociedade o duplo compromisso de ajudá-la a crescer e se desenvolver, mas também de auxiliá-la a transformar o mundo.” (Arent, Hanna. 1954). Duplo compromisso?

Sim! Que tipo de pessoa devolverei à sociedade? Que tipo de pessoa quero formar? O que eu não posso deixar de ensinar para o meu filho? Em que os adultos hoje investem o seu esforço e sua admiração? Ou o que desejam para si mesmos e, portanto, também para os seus filhos? Já pensaram nisso antes?

Ao decidir o tipo de pessoa que deseja que o seu filho se torne, os pais estão fazendo uma lista de valores ou, se poderia chamar, de virtudes, que entendem como as mais importantes. Você, pai ou mãe, é capaz de escrever a lista de qualidades que gostaria que seu filho tivesse?

O pai, a mãe, até mesmo a avó ou o tio, a madrasta, a professora, ou seja, o adulto da relação, precisa, para educar, ter bem claros quais valores são mais importantes para si mesmos. Dificilmente alguém ensina para uma criança algo que não acredita ou não vivencia.

Já que todo o projeto bem-sucedido conta com um planejamento, o primeiro passo é ter bem definidos os valores que deseja ensinar aos filhos. Um dos grandes problemas enfrentados atualmente é o fato de que os pais e demais educadores não sabem exatamente o que é certo e errado nem para si mesmos.

Resumindo, para educar é essencial saber o que se está fazendo. Os pais devem decidir o que querem ensinar aos seus filhos. Segue um tema de casa, para refletir:

Quais são os seus objetivos ao educar?

Que tipo de pessoa tu queres formar?

Seguimos na próxima. Até lá!

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

A importância dos objetos preferidos e inseparáveis da criança no desenvolvimento psicológico sadio - por Thainá Rocha

Sabe aquela dificuldade que os pais têm de fazer com que a criança abandone a chupeta? Ou largue aquele travesseirinho ou cobertorzinho que carrega para todos os lados? Ou ainda aquele ursinho já velho e sujinho? 

Hoje o assunto é Objeto Transicional. Se trata de um objeto que auxiliará a criança a experimentar as situações do mundo externo e diferenciar aquilo que faz parte dela (o que é interno) e o que não faz. Como assim? Vamos traduzir!

Um famoso psicanalista e pediatra inglês chamado Donald Winnicott explica que o bebê, no início da vida, tem a “ilusão” de que o seio da mãe é parte de seu próprio corpo. Assim, a mãe deve ir aos poucos estabelecendo uma distância da criança com o seio, onde a criança passará a perceber que o seio pertence à mãe, e não é parte dela (do bebê). 

A partir daí, o objeto transicional (que pertence à criança e não à mãe) entra em ação: além de ser seu é também controlado pela criança, ou seja, ela é quem decide quando quer ficar com ele ou quando quer ficar distante do tal objeto. Para que exista um desenvolvimento do processo de separação- individualização da criança com a mãe, é necessário a existência deste objeto transicional, que funciona como um “acalmador da ansiedade”.  É esse objeto que conforta a criança nas transições de “presença-ausência” do cuidador, como na hora de dormir, nas despedidas, no primeiro dia na creche e em outras tantas situações desconhecidas para a criança. 

Além disso, a criança faz com o objeto eleito o mesmo que faz com os pais ou suas figuras de referência afetiva: ama-os, mas pode odiá-los em alguns momentos. Há algumas experiências em comum entre as crianças e seus vínculos com o objeto transicional, como a dificuldade em se afastar dele (e em outros momentos o objeto é “esquecido” ou deixado de lado por um período), e em determinados momentos o objeto é maltratado e em outros é tratado com afeto. 

Tudo isso é muito natural e é extremamente importante que a criança vivencie estas situações, direcionando o cuidado, o amor, o ódio e à agressão a este objeto e percebendo que ele é capaz de sobreviver a isso, sem ser destruído, ou seja, esta é uma das formas que a criança constrói os sentimentos! Também é este objeto que vai ouvir segredos íntimos, estar ao lado, acompanhar, confortar e consolar, ou seja, servir de apoio, dar segurança. 

Como foi dito inicialmente, este objeto poderá ser um cobertor ou um paninho, um travesseiro, um bichinho de pelúcia ou até mesmo a chupeta. O objeto transicional é escolhido pela criança e é por isso que muitas vezes a tentativa dos pais de substituir tal objeto por outro novo, é frustrada.

Estes objetos também aparecem presentes juntamente com alguns personagens de histórias e desenhos infantis, já repararam?

Para concluir, o mais importante nisso tudo é que o objeto transicional exista e seja permitido sem interrupções. Eles não têm idade para serem deixados de lado. Uma vez que a criança o despreze, ela pode querer tê-lo de volta num momento mais delicado de sua vida, como nas situações de doenças, mudanças na rotina da família ou rupturas. Os pais não devem tentar influenciar na interrupção deste processo. Deve ser realizado até o final, isto é, até que o objeto perca o seu significado para a criança. O tempo que ele durará vai variar de criança para criança, de meio para meio. O que terá real importância será somente que ele seja permitido existir. Se o processo for concluído, se espera que a criança tenha um desenvolvimento psíquico saudável e poderá em sua vida confiar em si mesma e nas pessoas que a rodeiam. 

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência. 

Masturbação Infantil: como os adultos devem agir? - por Thainá Rocha

Desde os primeiros meses de vida, a criança começa uma jornada pela exploração do próprio corpo, chegando às zonas erógenas entre os 4 e 6 anos de idade. É nessa idade que as crianças começam a perceber as diferenças que existem entre meninos e meninas e a se identificar com a figura do pai ou da mãe. Para a criança, a masturbação é apenas uma manifestação curiosa de exploração biológica do corpo, e, quando percebe que é prazerosa, passa a repetir. Diferente do adulto, em que o prazer está além do físico, para a criança, é apenas uma experiência sensorial. 

Apenas uma experiência sensorial? Sim! É uma forma de exploração corporal como, por exemplo, o bebê faz ao colocar a mão na boca ou quando uma criança coloca uma semente do feijão no ouvido ou até mesmo morde o coleguinha para poder conhecer o corpo do outro. 

Lidar com a masturbação infantil ou atos de interesse nos genitais de outras crianças é uma dificuldade para muitas pessoas, pois, para muitos adultos, a situação ainda é tratada com preconceito e cercada de muitos tabus. Os pais e professores geralmente não sabem lidar com a situação, que deve ser encarada como algo natural – sem repressão. É consenso entre especialistas que bater, xingar e reprimir não é o caminho para tratar a masturbação na infância. 

Portanto, o que o adulto tem que ter clareza é que conhecer o próprio corpo e explorá-lo faz parte do desenvolvimento infantil. Ou seja: ao contrário dos adultos e adolescentes, as crianças não agem com malícia ao praticar a masturbação infantil. É descoberta!

Na prática:

  • A função dos pais é acompanhar e orientar os filhos, sem reprimi-los ou falar que isso é errado.
  • É preciso ajudar os pequenos a entender que o toque nos órgãos sexuais não é para ser praticado na frente das pessoas, sem repreendê-los e sem erotizar a situação.
  • A intervenção a respeito do assunto, quando necessária, deve ser através de uma conversa a sós com a criança. Como a criança irá compreender que é algo íntimo se você fala e chama a atenção a respeito deste assunto com a criança na frente de todo mundo? Incoerente, não acham? A abordagem deve ocorrer em particular, com uma conversa tranquila e natural. Os meninos e meninas precisam entender que o pênis e a vulva são partes do corpo para serem lidados quando eles estiverem sozinhos. Isso também ajuda as crianças a perceberem que o corpo é exclusividade delas.
  • Nunca se deve bater, xingar ou reprimir as crianças para tratar a masturbação infantil, mesmo se o comportamento for insistente. A criança ainda não entende que, moralmente, o comportamento em público não é bem aceito. E é responsabilidade dos pais ter calma e discernimento para ajudá-la a compreender isso.
  • Também devem ficar atentos à intensidade com que acontece. O ato se torna exagerado e motivo para preocupação quando a criança só quer fazer isso e nada mais. Nesses casos, a família deve procurar um atendimento especializado. 
  • Se o ato se dá de forma frequente, os pais também precisam observar em que situação a masturbação acontece: Acontece antes ou depois do quê? Como está o estado emocional da criança? 
  • Para orientar e responder as perguntas das crianças, os pais devem atentar para a fase de desenvolvimento da criança, prestando atenção na faixa etária dela. A dica principal é: responda na medida dos interesses delas. Nem a mais, nem a menos! 

Para crianças:
Segue algumas dicas de livros que abordam temas de maior curiosidade da criança: as diferenças dos corpos de meninos e meninas, como o bebê entra e como o bebê sai. É uma excelente forma de abordar esses temas com as crianças!

'Mamãe, como eu nasci?', de Marcos Ribeiro, aborda o tema da masturbação infantil. Em linguagem descomplicada e com ilustrações que auxiliam o entendimento dos pequenos, explica a diferença entre os corpos masculino e feminino, como acontece a relação sexual, o que é gravidez e até os tipos de parto. 

De Thierry Lenain, o trio 'Ceci quer um bebê', 'Os beijinhos da Ceci' e 'Ceci tem pipi?' aborda, abordam também grandes temas de curiosidade das crianças.

De Babette Cole, ‘Mamãe nunca me contou’ aborda temas que despertam a curiosidade das crianças, mas que as respostas demoram a chegar. Em ‘Mamãe botou um ovo’, os pais são confrontados pelos próprios filhos nas metáforas que usam para explicar de onde vem o bebê: “Nós achamos que vocês não sabem como os bebês são feitos de verdade. Então, vamos fazer uns desenhos pra mostrar como é”. A frase é proferida pelo casal de irmãos que dá uma “aula de sexo” para o pai e a mãe.

Para adolescentes:
Uma sugestão recomendada aos pais de adolescentes é o Manual de Educação em Sexualidade da Unesco: 'Cá entre nós: Guia de Educação Integral em Sexualidade Entre Jovens'.

 Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência. 

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