Thainá Rocha

Thainá Rocha

Pais, filhos e tecnologia: Como conviver? stars

As máquinas evoluíram. As novas demandas do mercado possibilitaram grandes avanços tecnológicos, tornando a vida mais prática e fazendo da tecnologia parte do nosso cotidiano, trazendo benefícios para o trabalho, saúde e entretenimento.  A necessidade de informação ficou cada vez mais evidente. Não conseguimos mais imaginar a vida sem o uso da tecnologia. Logo, fronteiras entre o mundo real e virtual estão cada vez mais indefinidas. 

A tecnologia faz, também, parte da rotina familiar. A atualização da tecnologia e o uso excessivo por parte de TODOS explicam um pouco a realidade atual, que dificulta as relações entre os membros e causa impacto direto no cotidiano. Um estudo realizado em 2015 pela AVG Technologies, empresa especialista em segurança online, revelou que:

  • 54% dos pais confessaram que olham vezes demais para seus celulares;
  • 29% assumem que não estão dando um bom exemplo aos filhos em relação ao uso de dispositivos móveis;
  • 42% das crianças ouvidas sentem que seus pais passam mais tempo no celular do que com elas.

A responsabilidade não é da criança, mas sim do contexto familiar no qual está inserida. Os cuidadores são responsáveis pela superexposição, que acontece quando a tecnologia é oferecida para conversar ou para entreter a criança quando chora, por exemplo. Com o tempo, os pais se incomodam com os excessos, que foram eles mesmos responsáveis pela inserção da criança. Contexto que logo irá se tornar uma guerra real de retiradas, proibições e punições para o uso da tecnologia. 

Uma rotina excessiva tecnológica rompe os laços familiares. A realidade se configura com pais e filhos cada vez mais conectados e afastados. Isso vem causando um efeito nocivo, deixando de existir uma comunicação afetiva, com troca de olhares, contato, atenção saudável. Como consequência, o afastamento é inevitável. Noções de relacionamento precisam ser reavaliadas, dinâmicas familiares, reconstruídas. É importante que os pais façam uma autoavaliação quanto à sua forma de utilização da tecnologia para uso consciente.

Perceber os prejuízos é a primeira lição. Momentos de lazer, família reunida, um instante de brincadeira, uma conversa enquanto veem um filme, situações simples que se a tecnologia estiver presente, pode resultar em distanciamento e inclusive gerar mudança de comportamento na criança, que pode não querer a presença dos pais e até evitar situações de lazer, brincadeiras, desistir de conversar.

Alguns dos questionamentos mais comuns:

Qual é o limite de idade em que posso oferecer a tecnologia? Por quanto tempo é adequado o uso?

Para responder essa pergunta, apresento o que diz a Academia de Pediatria Canadense (CPS) e a Academia Americana de Pediatria (AAP) a respeito do assunto. Em 2015, a recomendação era limitar à criança a exposição a qualquer mídia até os 2 anos de idade. Atualmente, houve uma mudança, alegando que cada família pode e deve escolher a forma de integrar-se com a tecnologia. Porém, recomenda-se apenas 1 hora “de tela” dos 18 meses aos 5 anos, de forma fracionada durante todo o dia e com conteúdos adequados à idade, com foco em benefícios pedagógicos ou para o desenvolvimento da inteligência emocional. Além disso, desencorajar, evitar e até proibir a exposição passiva (por exemplo, a criança está na sala brincando, não diretamente assistindo TV mas a mesma encontra-se ligada, passando muitas vezes conteúdo e informações impróprias para a criança). Evitar também o uso de tecnologias durante as refeições e 1 a 2 horas antes de dormir. Além disso, crianças entre 0 e 10 anos não devem fazer uso de televisão ou computador em seus próprios quartos. Os pais devem estabelecer limites de horário. 

Uso liberado ou uso limitado?

Dar permissão para o acesso não é igual a dar autonomia. Crianças e adolescentes precisam de regras, os limites precisam estar claros. Uma boa estratégia é definir previamente o tempo de uso, com horários previamente estabelecidos (antes mesmo da criança ganhar o próprio tablet, por exemplo). 

Posso fazer checagens ou é invasão de privacidade? Posso bloquear conteúdo?

Você sabia que há inclusive uma lei que fala sobre isso? Trata-se da Lei nº 12.965 de 2014. Em seu artigo 29 nos fala da necessidade de controle e vigilância parental e sobre a educação digital como formas de proteção frente às mudanças tecnológicas. Dessa forma, os pais precisam sim ficar atentos à questão de segurança quanto ao uso. É importante manter um diálogo aberto para instrução e orientação, esclarecer dúvidas, alertar sobre perigos e riscos, verificar a classificação indicativa de conteúdos e faixa etária, explicar o porquê da cautela e das possíveis proibições. Bloqueios de conteúdos impróprios, através de ferramentas específicas, fazem parte da educação e do cuidado que os pais devem ter. 

Quando se configura dependência?

Quando seu filho se torna “refém” da tecnologia, principalmente dos jogos eletrônicos, e quando começa a afetar todos os âmbitos de convivência: familiar, social e educacional. 

É importante lembrar que a tecnologia possui duas faces, o lado bom e o mau. Tirar bom proveito, quando for bem conduzida e administrada, e perceber que o excesso traz sérias consequências. Pais inteligentes usam a tecnologia a seu favor, cientes que ela não substitui  o contato físico, o olhar, o carinho e as palavras “face a face”.

O lado mau da tecnologia é quando surge...

  • Dificuldade de socialização e conexão com outras pessoas da mesma idade;
  • Isolamento e trocas de brincadeiras ao ar livre. Podem gerar problemas à saúde, como inatividade física e falta de vitaminas pela não exposição ao sol, sedentarismo...
  • Problemas em relação ao padrão alimentar (aumento e perda de peso, como não perceber os sinais de saciedade e também de fome);
  • Problemas relacionados ao sono (tecnologias contribuem para a diminuição dos hormônios que ajudam a dormir);
  • Problemas visuais (comprovado aumento dos casos de miopia);
  • Dores nas costas, postura inadequada, dores de cabeça;
  • Problemas auditivos causados pelo uso excessivo de fones de ouvido;
  • Aumento de casos de depressão e ansiedade pelo excesso.

Destacando o lado bom...

  • Pode ser forte aliada na aprendizagem, possibilitando acesso ao mundo da educação e da cultura;
  • Estimula interesses pessoais, servindo de motivação para o crescimento;
  • Pode ser utilizada de forma integrada de projetos pedagógicos, aproximando-se da geração e dos seus interesses;
  • Estreita laços afetivos entre os membros quando o uso em parceria é estimulado através de jogos e aplicativos educativos.

Orientação para os pais:

  • As crianças são vítimas e não vilãs. Não deixem as tecnologias educar seus filhos. Conduzam essa interação. Proibir não é a solução, apenas dosar na medida certa.
  • Os pais precisam colocar regras e horários para os filhos, utilizando o bom senso e coerência.
  • A tecnologia necessita de autodisciplina e autocontrole, comportamentos ainda em formação em crianças e adolescentes. Então, isso é papel dos pais.
  • Lembre-se que vocês não precisam possuir todo o tipo de tecnologia lançada. Tecnologia também está ligada ao consumismo.
  • Dependendo dos conteúdos, os jogos, séries, etc podem acarretar agressividade. 
  • A tecnologia pode gerar comportamentos egoístas e declínio da empatia pela falta de convívio social. Procure sempre dosar com programas que envolvam contato social.
  • Os pais podem escolher programas educativos ou jogos que estimulem a interação, criatividade e cognição. Certifique-se da idade, leia as instruções, assista ou participe desse momento.
  • Preste atenção em como você, pai e mãe, está fazendo o uso da tecnologia. Muitas vezes você aponta e esquece de fazer sua autoavaliação. 

Seria um retrocesso eliminar o avanço tecnológico. Não existem regras inflexíveis ou orientação única. Mas a aplicação de limites e regras ao uso da internet e jogos eletrônicos é imprescindível, com combinações claras e coerentes para todos os membros da família. O grande desafio é conseguir compreender a linha tênue entre o uso normal e abusivo e utilizar a tecnologia de forma organizada e controlada. 

 

 

 

Quando seu filho se afasta de você: desenvolvendo a segurança, autonomia e independência - por Thainá Rocha

Já dizia o famoso psiquiatra e educador Içami Tiba:

“Ao olharmos um navio no porto, imaginamos que ele esteja em seu lugar mais seguro, protegido por uma forte âncora.
Mal sabemos que ali está em preparação, abastecimento e provisão para se lançar ao mar, destino para o qual foi criado, indo ao encontro das próprias aventuras e riscos.

Dependendo do que a força da natureza reserva para ele, poderá ter de desviar da rota, traçar outros caminhos ou procurar outros portos.

Certamente retornará fortalecido pelo aprendizado adquirido, mais enriquecido pelas diferentes culturas percorridas.

E haverá muita gente no porto, feliz à sua espera.

Assim são os filhos.

Estes têm nos pais o seu porto seguro até que se tornem independentes.

Por mais segurança, sentimentos de preservação e de manutenção que possam sentir junto dos seus pais, eles nasceram para singrar os mares da vida, correr os próprios riscos e viver as próprias aventuras.

(...) O lugar mais seguro em que o navio pode estar é o porto. Mas ele não foi feito para permanecer ali.

Os pais também pensam ser o porto seguro dos filhos, mas não podem se esquecer do dever de prepará-los para navegar mar adentro e encontrar o próprio lugar, onde se sintam seguros, certos de que deverão ser, em outro tempo, esse porto para outros seres.

(...) Devem os filhos seguir de onde os pais chegaram, de seu porto, e, como os navios, partir para as próprias conquistas e aventuras.

Mas, para isso, precisam ser preparados e amados, na certeza de que “quem ama educa”.

“COMO É DIFÍCIL SOLTAR AS AMARRAS”

Nesse pequeno trecho Içami Tiba nos fala da importância do afastamento para o desenvolvimento da autonomia e independência dos filhos. Costumo dizer que os pais sempre têm muito desejo de que o filho caminhe no tempo certo, desenvolva a fala, entre outras capacidades. Isso já é o início de sua autonomia. Mas por que muitos pais “param” esse desejo de autonomia aí? Por que é tão difícil autorizar os próximos passos do desenvolvimento de seu filho? 

Quando ele era menor, seu filho sempre queria ficar em seu colo ou caminhar a seu lado, especialmente se vocês estivessem em um lugar desconhecido para ele. Agora, seu filho de apenas 2 anos talvez não queira nem segurar a sua mão. Ele pode até mesmo virar todo o corpo para longe e sair correndo do lugar onde estão.  Se você o chamar pelo nome, pode ser que ele se afaste ainda mais em vez de voltar. E, se você for atrás dele, é capaz que ele corra ainda mais depressa. Ele pode até mesmo olhar para você e rir! Quanto mais sério você ficar, mais ele achará graça. Enquanto puder ver você, seu filho poderá achar que se trata de uma brincadeira muito divertida. Mas, se ele virar a esquina e sair de sua vista, você pode ouvi-lo chamar e, logo em seguida, vir correndo de volta.

O que meu filho pode estar pensando ou sentindo quando faz isso?
“Adoro sair para fazer compras com a mamãe. Gosto especialmente de ir à nossa loja favorita. Já fui lá muitas vezes e sei onde as coisas estão. Sinto-me seguro lá. Não preciso que mamãe segure a minha mão quando me sinto seguro. Gosto de explorar a loja. Quando eu faço isso, ela fica toda agitada e vem atrás de mim. Isso é muito divertido! Mas, de repente, não consigo mais ver a mamãe. Fica tudo muito quieto. Não a ouço mais, onde ela está? Oh, não, estou sozinho! Acho que vou chorar. Quando eu choro, minha mãe me encontra. Ela me pega no colo e me abraça. Isso me faz sentir seguro outra vez”.

Por que isso é importante?
Seu filho precisa se afastar de você para se sentir separado de você, praticando sua independência. Como a separação de você é algo novo, ele precisa testá-la em pequenas doses. Um espaço grande demais entre vocês o assusta (pelo menos no começo, rsrsrsrs). O desenvolvimento mental do seu filho, tratando-se de uma criança ainda pequena, associa “fora de vista” com “fora de existência”. Com quase 3 anos, seu filho já se lembra de você quando não o vê, mas com 2 anos e poucos meses, ele precisa mantê-lo à vista ou dentro do alcance de seus ouvidos. Ele correrá para longe de você e voltará para você muitas vezes. Desde que se sinta seguro, esse aprendizado será divertido para ele. É por isso que ele ri. Ele não está tentando irritar você. Quando seu filho fica com medo, ele quer que você o conforte e o ajude a recuperar a sensação de segurança. Ele aprendeu a comunicar suas necessidades chorando e confia que você o ajudará. Mas, como você o conforta tão bem, seu filho logo se sente seguro e pronto outra vez para o jogo “fugir da mamãe”. E lá vai ele...

Crianças pequenas precisam estar no controle de sua separação. Se você forçar seu filho a se afastar, ele não aprende a se separar com sensação de segurança. E se você o segurar e o impedir de se afastar quando ele estiver pronto, ele se sentirá preso e tenderá a se rebelar ou desistir de vez da separação. Sua tarefa é seguir a liderança do seu filho e deixar que ele lhe mostre até que distância de você ele pode manter. Claro que é preciso estar atento para as necessidades de segurança, que a criança ainda é incapaz de avaliar nessa idade. Ele terá aprendido que é uma pessoa independente que pode ficar perto de você sem, com isso, perder parte de sua identidade. 

O que fazer?

  • Apoie o afastamento de seu filho: Compreenda que seu filho não está o rejeitando, mas apenas descobrindo coisas sobre si mesmo. Seu filho sente-se suficientemente seguro para se afastar justamente porque você fez um bom trabalho. Perceba que seu filho confia em você o bastante para fazer experiências com sua própria independência. Ele acredita que você estará lá quando precisar de você e, por isso, sente-se seguro para testar sua nova necessidade de independência. Transmita-lhe a ideia de que ele está fazendo algo certo, não errado. Como você muitas vezes lhe dá independência, ele provavelmente será mais obediente quando você notar uma situação de perigo e você insistir que ele fique ao seu lado.
  • Apoie o retorno de seu filho: Quando seu filho precisar de carinho, assegure a ele que sempre poderá voltar para buscar apoio em você. Diga: “Que bom que você voltou quando ficou com medo. Sempre estarei aqui para ajuda-lo”. 
  • Proporcione oportunidades para seu filho fazer explorações: Planeje momentos específicos e lugares seguros para seu filho explorar.

O que não fazer?

  • Não corra atrás do seu filho: Isso só dá mais “graça” ao jogo. Pare e diga: “É hora de ir embora”. Então, dê alguns passos na direção para onde deseja ir. Seu filho o seguirá. Seja objetivo, direto e calmo.
  • Não ameace abandonar seu filho: Jamais diga: “Então vou deixar você aqui. Assim você aprende”. Criar o medo do abandono é uma maneira cruel de tentar controlar a situação.
  • Não repreenda seu filho por tentar aprender a ser independente: Correr para longe de você e se esconder são vontades naturais de uma criança saudável. Lembre-se que a separação de seu filho é importante para que ele desenvolva independência, autonomia, responsabilidade e cuidado consigo mesmo. Não perturbe esse desenvolvimento. 
  • Não mime em excesso seu filho assustado: Quando seu filho correr de volta para você em busca de aconchego, abrace-o por um breve período. O excesso leva a mais dependência do que a criança necessita nessa idade. Ela pode aprender que ser independente não é bom e que, na verdade, o mundo é assustador demais para que se aventure nele sozinho. 

E lembre-se do que disse Içami Tiba: Nossos filhos são como os navios. Precisam sair e viver suas próprias tempestades. Mas nunca se esqueça de que os pais são como o porto, onde poderão sempre voltar para recarregar as energias e seguir em frente. Permita que seus filhos sejam navios. Seja o porto de seus filhos.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

Quem dorme na cama do casal? - por Thainá Rocha

Caso de consultório:

Os pais deixaram que sua filha começasse a dormir junto à eles quando tinha um aninho. Após essa permissão, as primeiras tentativas de deixar a criança no bercinho foram difíceis. A menina entrava em pânico e os pais permitiam que ela voltasse para a cama deles. Somente assim ela se acalmava. O pai somente pensava: “Amanhã é um dia de trabalho para mim!”. De tempos em tempos voltavam a tentar, conforme o pediatra recomendava. As falas dos pais para a menina eram as seguintes: “Gabi, você já está grandinha, vai para a sua caminha, está bem?”. A tentativa durava noites, alguns tratos e chantagens dos pais eram feitos, mas depois Gabi voltava e retomava seu lugar no cama. Algumas vezes, após “rituais” variados, finalmente adormecia em sua caminha, porém no meio da noite, lá surgia Gabi no quarto do casal. Os pais cediam, pois estavam cansados e precisavam dormir. Após um tempo, pai e mãe passaram para a etapa de sedução: Gabi já iria para o primeiro ano na escola e com isso teria também um novo quarto, decorado, lindo... Foi junto visitar as lojas para escolher a decoração, a escrivaninha onde faria seus temas da escola, a colcha de ursinhos, os bichinhos de pelúcia, etc. Porém, após inaugurar o seu novo quarto, tudo continuava igual: adormecia no quarto e após retornava para a cama dos pais, no meio da noite... Algum tempo depois, nasceu o segundo filho do casal. Aos dois anos, começou a acordar com frequência no meio da noite. Até que, aos poucos, aprendeu a “fatídica formula” da “cama grande”. A mãe achou uma injustiça a filha mais velha aninhada na cama, enquanto o outro, com somente dois anos, sozinho no quarto. Assim, quem desistiu da cama de casal foi o marido, que passou a dormir em um dos quartos das crianças. 

Então vamos lá...

Aqui cabe uma importante reflexão: Por que os filhos se dão o direito de tomar posse da cama dos pais? Por que a coitadinha da Gabi (e depois seu irmãozinho) não pode curtir o seu quarto?

É importante pontuar que o “tabu” da cama dos pais, a exclusão rígida desse espaço não pode nem deve ser uma regra universal. Há ocasiões em que é permitido aceitar que a criança fique na cama dos pais: quando ela atravessa um período difícil, quando está doente, quando os pais querem ter a alegria de brincar com ela numa manhã de domingo. Ocasiões e modos que os pais escolhem conscientemente. Não, não é permitido quando um dos parceiros vai, por exemplo, viajar, pois o direito de ir para a cama do casal e ocupar o lugar do papai ou da mamãe coloca a criança numa posição que não é dela, mas inconscientemente de um quase “parceiro substituto”, de forma que, quando o cônjuge retornar, em vez de desejado, poderá ser rejeitado pela criança em questão. Sem contar o que essa situação nos diz a respeito do adulto que tem a necessidade de preencher esse “espaço vazio” durante a ausência do cônjuge. E não, isso não é exagero e é mais comum do que se imagina. 

Então, como fazer para convencer a criança a dormir no seu quarto?

O problema não é convencer os filhos, mas sim os pais!

Quando os pais estiverem bem convencidos de que isso é um direito do casal além de um benefício para os filhos terem um espaço pessoal à noite, os filhos perceberão a ordem imediata: “tomem posse do quarto de vocês”. Uma vez uma mãe me questionou: “E se meu filho perguntar ‘Mas afinal, eles lá são dois e eu estou aqui, sozinho’ e ficar ressentido, o que eu faço?”. Minha resposta: TERAPIA. Esse tipo de pensamento trata-se de uma bela formulação de uma mãe que bem provavelmente teve/tem alguma dificuldade em relação a isso (ela inclusive quer prever o que eu o filho possa vir a questionar, e isso diz de uma dificuldade dela) e projeta isso no filho, porque “coitadinho, sente-se sozinho!”. Quem, neste caso afinal, sente-se sozinho? Ainda que a mãe não manifeste esses pensamentos de forma consciente, muito provavelmente a comunicação que chega na criança quando ela é mandada para o seu quarto é: “Vá, pode ficar aí, mas não fica aí não, está bem?” O filho irá perceber a prevalência da linguagem não verbal (as crianças são boas nisso, possuem antenas muito afiadas, com poucos meses de idade são capazes de captar o estado de espírito do adulto) e nem por sonho vai querer sair da cama dos pais. 

Se o casal tiver sintonia na forma de agir e lidar com a situação e se aliar às reais necessidades da criança, e não a seus supostos sofrimentos, ela poderá perfeitamente ocupar o seu espaço e não o do casal. Admito que para isso será necessário uma boa dose de firmeza e até noites em claro. Mas é o que costumo perguntar aos pais: Qual problema querem resolver? O daquela noite específica ou o problema do seu filho? No caso citado acima, Gabi vai conseguir tranquilizar-se quando os pais também conseguirem. 

Um casal me disse certa vez: “Nunca trancamos a porta do nosso quarto, sei lá o que os filhos irão pensar...”. Perguntei: “O que deveriam pensar?” “Sei lá, que escondamos segredos...”. Por que os pais colocam os filhos no cargo de controladores de sua privacidade? Quando seus filhos virem que o casal está separado (como no caso ilustrado hoje) e que conseguiram tirar o pai da cama do casal, o que mais poderá acontecer? E quando conseguirem declarar por fatos que a mamãe é só mãe, e não a mulher do seu marido e que o papai é só pai, que conclusões poderão extrair disso? Será que essas crianças irão ter vontade de crescer? Irão compreender os mais diversos papéis e funções que os pais também ocupam, em seu trabalho, família, vida?

O segredo do casal constitui sim um fator muito importante no desenvolvimento infantil. Se as crianças virem os pais desaparecerem as vezes, para um programa a dois enquanto ficam com a avó, se virem a mãe sair em companhia do pai, produzida e bonita, como se fosse um encontro de namorados, se virem o pai fazer surpresas para a mãe, se perceberem o casal colocando o NÓS como algo natural, então a cama dos pais já não será algo tão importante. Se os pais minimizarem o segredo do casal, não causarão prejuízos somente a si mesmos, mas também prejudicarão seus filhos, privando-os do seu crescimento. Quando dois parceiros se resignam a deixar que os filhos se apoderem de sua cama, já renunciaram há tempos ao seu segredo de casal.

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

Para continuar estudando... - por Thainá Rocha

Costuma-se comentar por aí que filho deveria vir com manual de instruções, não é mesmo? O fato é que eles não vêm. Mas não se desespere! Existe, sim, esperança!

O objetivo aqui é indicar alguns livros que podem ajudar você a continuar estudando sobre o universo do seu filho, para a compreensão de características do desenvolvimento das crianças e dos adolescentes e para a reflexão sobre as consequências dos nossos atos junto a eles.

  • Pais liberados, filhos liberados (Faber, A; Mazlish,E.);
  • Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar (Faber, A; Mazlish,E);
  • Entre pais e filhos (Ginot, H.)
  • Como educar meu filho (Sayão, R.)
  • Somos pais! E agora? (Albisetti, V.)
  • Como ser bons pais e criar ótimos filhos (Davidson, A; Davidson, R.)
  • Quando é necessário dizer não: a dinâmica das emoções na relação pais e filhos (Mantovani, M.)
  • Os adolescentes. Nem adultos, nem crianças: seres à procura de uma identidade própria (Palmonari, A.)
  • Separação saudável, filhos estáveis (Acevedo, A.)
  • Dicas para pais de primeira viagem (Brett, S.)
  • Crianças francesas não fazem manha (Drukerman, P.)
  • Mamãe conta tudo (Fiorillo, F.)
  • Soluções para disciplina sem choro (Pantley, E.)
  • Limites sem trauma (Zagury, T.)

 

Boa leitura!

Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

Se você não parar com isso vai apanhar... • Parte VII • Conclusão - por Thainá Rocha

Sobre os Castigos Físicos

Os castigos físicos são o principal exemplo de castigos para fazer sofrer. Segundo uma pesquisa realizada em 2009, 69% dos entrevistados afirmaram que existe situações em que é justo bater nas crianças para que percebam o erro cometido.
A agressão física não é a melhor atitude para resolver nenhum tipo de conflito. Por quê? Por que fere um princípio: o da integridade física e psicológica. Atualmente, no Brasil, a Lei n.13.010/2014 estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou tratamento cruel ou degradante como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto.
Pais ou responsáveis que utilizam os castigos corporais moderados ou severos são pessoas que apresentam um ou mais dos seguintes fatores:

• Aprovam castigos corporais;
• Viveram a experiência dos castigos corporais quando criança;
• Apresentam sentimento de raiva em relação a conflitos com as crianças;
• Interpretam o comportamento da criança como um desafio à sua própria pessoa.
• Vivenciam tensões conjugais ou de outros tipos, como profissionais ou financeiras.

As consequências do uso delas podem ser físicas (marcas avermelhadas na pele, dor física leve, queimaduras, fraturas, até a morte) e/ou emocionais:

• Sentimentos de raiva e de medo quanto ao agressor;
• Quadros de problemas escolares;
• Dificuldade para confiar nos outros;
• Autoritarismo;
• Delinquência (roubo, uso de drogas, etc.)
• Violência doméstica.

Talvez você esteja pensando que a violência e o espancamento seja realmente um ato agressivo e que pode desencadear todos os problemas mencionados. Mas e quanto a palmada, há diferença?

Palmadas

A palmada também não tem nenhuma relação com o comportamento que desejamos corrigir, já que não leva a criança a se responsabilizar pelo erro cometido, nem desencadeia a tomada de consciência da regra quebrada. O conseguimos com ela então?
Eis a fala de alguns pais:
“Partimos para a palmada quando já falamos muitas vezes e a criança não ouviu”
“Quando a situação está no limite e não aguentamos mais”
“Tem o objetivo de dar um susto na criança”
“É para a criança perceber quem é que manda”
“A palmada não deve ser forte, mas precisa doer na criança para ela sentir que não estamos gostando do que ela está fazendo”

Bem, parece ser na verdade uma medida de emergência e uma estratégia que eles utilizam em duas situações: ou quando julgam já ter esgotado todos os recursos, como diálogos, explicações, ameaças, barganhas, e nada tenha funcionado; ou quando realmente a criança ou adolescente apresentou um comportamento tão inadequado que necessita de uma intervenção mais radical. Segundo esses pais, a palmada tem um objetivo disciplinador. Por isso que a maioria deles não acredita ou compreende que está violentando ou agredindo o próprio filho, mas educando-o.

Você já sentiu uma culpa terrível depois de ter dado aquela palmada na sua filha respondona? Por outro lado, você se autojustifica pensando que também apanhou bastante quando criança e não percebe que isso lhe tenha causado algum dano considerável?
A palmada tem um efeito colateral seríssimo, que é o fato de poder interferir no desenvolvimento da consciência da criança, pois a surra alivia a culpa com muita facilidade. Como assim?

Eis a fórmula:
A criança age errado. Leva uma palmada. Pronto! Já “pagou” pelo seu “erro”.
O contrário disso também pode acontecer. A palmada, o beliscão, o puxão de orelha podem gerar na criança o sentimento de que é muito má ou desobediente, e, por isso, merece esse tipo de tratamento. Existem ainda muitos adultos que guardam esse sentimento: “Eu apanhei dos meus pais e por isso me tornei um homem do bem” ou “aprendi a respeitar meus pais porque eles sabiam colocar limites e nos corrigiam na hora certa, sem ter medo de nos bater quando merecíamos”.

O que nos ensinou a ser pessoas de bem foi a palmada? Não estaríamos aqui confundindo agressão com educação? Por que será então que para algumas crianças as palmadas não são o ponto final? E se seu filho continuar desobedecendo mesmo depois da palmada? Partimos, assim, para quê, no caso? Que modelos oferecemos aos nosso filhos na hora que resolvemos um conflito com palmadas?

Exemplo de caso:
Dois irmãos, de 3 e 5 anos, se agrediam em uma briga por causa de um brinquedo. A mãe tentou separa-los, mas eles estavam furiosos um com o outro e não ouviam seus apelos. Então, ela tirou o chinelo e deu uma chinelada em cada um para que parassem com aquilo. Bem, essa mãe tentava ensinar que irmãos não deviam se agredir, mas a atitude que tomou foi exatamente aquela que estava reprovando nos filhos. A mensagem que as crianças receberem foi: “Só os mais fortes podem bater”. Ou ainda: “Isso mesmo! Quando temos um problema, o caminho mais curto para resolve-lo é tirar o chinelo”.
Você ficaria irritado e indignado caso uma professora batesse no seu filho para corrigi-lo e educa-lo? Por que você pode bater no seu filho e ela não? A justificativa para não bater nas pessoas e nas crianças não seria a mesma para vocês dois?

Outra questão: não há quem possa achar certo ou normal um filho bater em um pai. Nunca se deve permitir que os filhos batam nos pais. Situações inaceitáveis de pais e mães que não impedem a agressão das crianças que chutam, mordem, batem e xingam os adultos são constrangedoras e nos deixam indignados, não é mesmo? Então, por que não ficamos indignados quando vemos um pai batendo em um filho?
Como você se sentiria se o seu chefe, irritado porque o relatório que você entregou não ficou como ele esperava, lhe desse umas palmadas?

Então... é possível educar em palmadas? Os próprios pais responderam.
Você, como pai ou mãe, deve disciplinar, educar e impor limites aos filhos, sim. Isso é essencial para o crescimento, desenvolvimento e para a saúde psicológica deles. Infelizmente, o castigo físico pode resolver os problemas naquele momento imediato, mas a longo prazo, trata-se de uma estratégia que não educa e ainda pode trazer consequências muito sérias à formação da personalidade.

Fiquei muito feliz com a repercussão dos textos que escrevi sobre o tema. Uma mãe me relatou que jamais havia pensado em quais regras estava trabalhando com o filho e como ensina-lo a agir de outra maneira. O resultado é que hoje afirma conseguir se controlar muito mais para conversar e orientar seu filho. Outra mãe me falou que achava inconveniente essas dicas de especialistas tentando ensinar os pais a educarem os seus filhos. Porém, colocou em prática algumas questões aqui abordadas e tem se impressionado com o progresso e proximidade alcançados junto aos filhos de 6 e 10 anos. E também o quanto a escrita desse material foi produtiva para orientar professoras com relação ao trabalho de disciplina nas salas de aula. E você, por que não tenta também e constata por si só essa possibilidade?
Depois você me conta como foi?

Espero que os textos dessa temática tenham sido suficientes para lhes convencer de que é possível educar sem palmadas. Seres humanos não precisam delas, nem de quaisquer tipos de castigos físicos. Seres humanos precisam de oportunidades de aprender a ser humanos.

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte VI - por Thainá Rocha

A maior dúvida dos pais é: o que fazer quando, depois de explicar as regras e de mostrar os seus motivos, ainda assim o filho não a cumpre? Por exemplo, você já explicou que as mesas servem para as refeições e não para subir nelas, mas o pequeno continua subindo. Você já explicou para o seu filho que a lição de casa é uma responsabilidade dele como aluno, para que possa fixar o conteúdo aprendido na escola, mas a professora manda bilhetes todo o dia dizendo que a lição não foi feita.

O que fazer?
O tema “castigos” é um dos mais sérios e importantes na educação dos filhos. A maior dificuldade dos pais é saber: quando e como punir.

Então, vamos pensar juntos em duas questões importantíssimas. A primeira ainda nem diz respeito aos castigos ou punições, embora esteja bastante relacionada. Trata-se do fato de que a maioria dos pais, quando ensina regra para seus filhos, o faz atrelando-a ao castigo que a criança sofrerá caso não a cumpra: “Se você não fizer a lição, não iremos no cinema”. 

Desse modo, ao agirem assim, estão cometendo dois erros muito sérios. O primeiro é que estão desautorizando a regra. Quando você diz “se você não fizer a lição, não iremos ao cinema”, está comunicando ao seu filho que a regra não é séria, pois, se ele pagar o preço, pode não fazer a lição. Nesse caso, o filho pode escolher e preferir não ir ao cinema, o que lhe dá a possibilidade de não fazer a lição. É por isso que muitas vezes as intervenções dos pais não funcionam!

Outro exemplo: uma mãe combinou com o filho que lhe pagará R$2,00 por dia que ele fizesse a lição de casa. Um dia, o filho disse a ela que o preço tinha aumentado e que agora só faria se ela lhe desse R$5,00.

Vejam bem: quando a regra vem atrelada a um prêmio ou punição, deixa de ser regra. Deixa de ser lei. Ela não foi explicada nem legitimada como um comportamento a ser executado e que, portanto, se basta em sua própria explicação.

o segundo erro ao apresentar a regra é que você deixa de lhes garantir a autoridade da regra. As regras precisam dizer o que deve e o que não deve ser feito, conforme já vimos nos textos anteriores. Elas representam um modo de agir considerado o melhor devido ao princípio à ela relacionado. 

Por isso, a regra deve ser apresentada às crianças com brevidade e firmeza. Por exemplo: “Fazer a lição é seu compromisso diário. Você precisa de ajuda?”; ou ainda, “Hora de escovar os dentes”. 

Mas e quando mesmo assim as regras são descumpridas? Aí é preciso um castigo ou “sanção”, conforme chamou Jean Piaget, cujo objetivo é fazer a criança e o adolescente perceberem que a regra é importante e necessária e que os pais não abrirão mão dela. Mas quais castigos?

A segunda questão a respeito dos castigos é para explicar para que eles servem. O castigo não é para fazer a criança sofrer. Não deve estar relacionada ao medo ou à chantagem emocional, mas sim ser uma maneira de mostrar para a criança qual regra ela descumpriu e o que deve fazer para corrigir o seu erro. Sua função é a de educar, ensinando o valor da regra que foi descumprida pela criança. 

Quando as crianças desobedecem, uma atitude precisa ser tomada por seus responsáveis. Fingir que não está vendo, deixar passar, ignorar, não é uma boa atitude por parte dos adultos. Algo deve ser feito. 

Podemos dizer que há diferentes de castigos. Um deles trata-se de uma punição cuja função é fazer o culpado sofrer, ou seja, a criança ou o adolescente deve pagar pelo seu erro, deixando de ganhar um presente ou perdendo o direito de jogar videogame, sendo privado de alguma coisa que gosta muito.

Muitos pais acreditam que é o adequado, pois se a criança quiser acessar a internet por exemplo, terá que arrumar o quarto. Às vezes esse tipo de atitude até “resolve”. Porém, o grande problema é que não é educativa. Por quê? Por que as crianças necessitam aprender que manter o quarto arrumado é uma regra cujo princípio se explica na manutenção da ordem e da limpeza. 

Dessa forma, quando o castigo não tem relação direta com o ato que se deseja corrigir, supõe-se apenas que a criança ou adolescente optem por agir corretamente para evitar perder algo que gostem muito e não por compreenderem qual regra não estão cumprindo e por que ela deve ser cumprida. 

São exemplos de “castigos para fazer sofrer” e que não têm nenhuma relação com o ato que se deseja corrigir:

  • Deixar sem televisão quando a criança quebrou um objeto que pertence aos pais/responsável;
  • Não permitir que a criança brinque com os amigos porque não almoçou;
  • Tirar o videogame porque a criança respondeu mal para a mãe;
  • Apanhar em casa porque houve reclamação na escola de que a criança não está se comportando;
  • Negar-se a conversar com a criança porque ela não quis ajudar a cuidar do irmão menor.

Esses são apenas alguns exemplos que “apelam” para o sofrimento e para o medo ou chantagem. Não dão oportunidades à criança de pensar sobre a regra que descumpriu e de também arcar com a responsabilidade dos seus atos. Elas não têm relação direta com o erro cometido e, portanto, não podem educar. Muitas vezes esse tipo de castigo se torna uma expressão de raiva e vingança da parte da criança. Acredite: nenhuma criança diz para si mesma depois de ser castigada “Vou melhorar, ser mais responsável e cooperar mais porque quero agradar esse adulto que me castigou”.

Os próximos temas serão sobre castigos físicos/palmadas e posteriormente, sobre os castigos que educam!

Enquanto isso, reflita:

  • Quando ensino uma regra, eu costumo apresentá-la atrelada ao castigo?
  • Que tipo de castigos eu costumo aplicar?
  • Quais os objetivos dos castigos que aplico?
  • Acredito que tirar algo que meu filho goste pode ajudá-lo, de fato, a aprender sobre boas regras?

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte V - por Thainá Rocha

Chantagem emocional

Uma das maneiras que alguns pais utilizam para educar seus filhos consiste na retirada do amor. Ela acontece quando os pais dão expressão direta, mas não física, à sua raiva ou desaprovação pelo fato de a criança realizar algum comportamento indesejável. São exemplos dessa atitude: ignorar a criança, voltar as costas para ela, recusar-se a falar com ela ou escutá-la, isolá-la ou ameaçar abandoná-la, fazer afirmações do tipo “eu não gosto mais de você” ou até mesmo “Eu trabalho feito louco para dar tudo a você e olha só o que você me dá em troca”. 

Essa maneira de educar também leva à obediência, mas dessa vez, não através do medo como já discutido nos textos anteriores, mas sim através do sentimento de culpa. Ambas trazem consequências psicológicas graves: o medo pode paralisar momentaneamente e/ou por toda a vida. A culpa pode impedir a iniciativa e levar ao desenvolvimento da angústia e do sentimento de abandono. Pode ainda desencadear o sentimento de insegurança e vários outros tipos de desordens emocionais, como a depressão, o estresse, os comportamentos desajustados e antissociais, as dificuldades de aprendizagem, etc.

Nessa forma de educação a criança também não terá reais oportunidades de refletir sobre quais regras deve seguir e por que deverá segui-las. Quando é vítima dessa chantagem na qual se está em jogo o afeto, a criança sente-se desamparada e pouco amada, o que gera carência emocional e uma necessidade de comportar-se bem ou mal para chamar a atenção dos pais.

Podemos não gostar de certas atitudes das crianças. Quando isso acontece, devemos corrigi-las sem transformar os sentimentos que nutrimos por elas. Não podemos gerar nas crianças dúvidas em relação ao quanto as amamos e que sempre estaremos ao lado delas, mesmo quando erram. Existe uma tendência de que crianças que viveram chantagem emocional se transformam em adultos dependentes excessivamente do amor, afeto e, principalmente, da aprovação do outro. Isso porque não tiveram reais oportunidades de desenvolver a autoconfiança, a autoestima e a autodisciplina. Você conhece pessoas assim?

A chantagem emocional é uma estratégia educativa ainda mais perigosa do que a autoritária, pois desencadeia sentimento de culpa, dependência, carência emocional, angústia e outros sentimentos difíceis de administrar. Alguns pais utilizam essa atitude sem sequer darem-se conta do quanto é prejudicial. Mais uma vez é essencial buscar coerência na hora de educar. A chantagem emocional é injusta. Você já viu o seu filho gritar que te odeia? Será que ele pode ter aprendido essa forma de chantagem com suas próprias intervenções?

Barganhas

Outra estratégia utilizada pelos pais para alcançarem o comportamento desejado e adequado dos filhos é a barganha (podemos também chamar de suborno). A fórmula é: “Se você fizer (ou não) tal coisa, ganhará aquela recompensa”. Exemplos:

“Se você se comportar, levarei você ao cinema”

“Se você não brigar com seu irmãozinho, ganhará um videogame”

“Se você melhorar as suas notas, terá mais tempo na internet”

Quais as consequências desse tipo de atitude para fazer obedecer?

Em primeiro lugar, transmite aos filhos o sentimento de dúvida dos pais quanto a sua capacidade de realizar determinada tarefa ou comportamento. Quando dizemos “Se você se comportar” a mensagem que estamos transmitindo é a de desconfiança e de incerteza sobre se a criança dará conta disso. Ou seja, estamos passando insegurnça.

Outra questão é que essa intervenção conduz a dependência, ou seja, a criança pode se habituar a exigir algum tipo de prêmio ou recompensa para se comportar bem ou agir de acordo com as regras. Pensando bem, estamos formando um pequeno corrupto, sempre pronto a subornar e a chantagear. 

A barganha pode sim resolver problemas no plano imediato, mas não educa. Ela não trabalha com regras, não ensina a forma correta de agir e, além disso, produz consequências indesejáveis como a dependência, hábito de suborno, insegurança e baixa autoestima.

Ameaças

Quando a barganha já não adianta mais é comum investir em ameaças. Na verdade, muitos são os pais que começam qualquer tipo de intervenção junto aos filhos a partir de ameaças. Só que, para muitas crianças, principalmente as mais velhas, essas intervenções são verdadeiros convites para repetir um ato proibido e não o contrário. Muitas vezes a criança utiliza isso para mostrar para si mesma e para os outros que não tem medo das consequências (principalmente nos casos de pais que não cumprem com o que “ameaçam”). Obviamente, a ameaça não trabalha com a educação indutiva. Já falamos na educação indutiva nos textos anteriores. Se refere às “técnicas” nas quais os pais dão explicações ou razões para conseguir com que a criança mude seu comportamento, mostrando as consequências em relação ao ambiente e também em relação aos outros. Quando ameaçamos, não estamos retomando as regras e os motivos delas e negamos às crianças a oportunidade de pensar sobre o próprio comportamento. 

Para refletir...

  • Costumo usar a chantagem emocional para educar meu filho? O que acho que ele aprende? Eu me preocupo com sua saúde emocional?
  • Costumo utilizar com frequência a fórmula: “Se fizer isso, vai ganhar aquilo?” Tenho consciência que estou, com o meu exemplo e minha atitude, dando lições de suborno e chantagem?
  • Costumo utilizar ameaças? 
  • Procure prestar atenção: quantas vezes por dia você usa a ameaça como estratégia para conseguir a obediência?
  • Como você se sente quando alguém ameaça você: no trabalho, e casa, no trânsito? 

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte IV - por Thainá Rocha

AINDA SOBRE REGRAS

Você já se percebeu falando assim para o seu filho: “Você já fez a lição? Escovou os dentes? Arrumou o seu quarto? Colocou para fora o lixo que eu pedi? Menina, não fale assim com sua avó! Saia já daí! Um, dois...não espere eu falar o três!”

Na verdade, muitas vezes parece que acabamos repetindo todas as coisas que odiávamos que nossos pais fizessem conosco. Qual pai nunca ficou perdido, pensando “O que eu faço agora?” ou “Por que é tão difícil?”. Às vezes, até desejam um botão para desligar seu filho. Mas as crianças não tem controle remoto. Na verdade, parece que vêm pilhas extras!

Então eu pergunto a vocês: Por quais regras vale a pena “brigar”?

Alguns pais gastam muita energia com questões desnecessárias e deixam de trabalhar o que é essencial com seus filhos. Mas como saber o que é essencial? Como saber quais regras são importantes?

No primeiro texto sobre o assunto, disse que não apresentaria receitas, mas gostaria de compartilhar com vocês uma “fórmula” para ajudar a pensar quais regras você não pode deixar de ensinar ao seu filho por serem realmente importantes para ele.

Vamos então pensar no princípio das regras. O princípio justifica a existência da regra, explicando o seu por quê. 

Exemplos: 
- Escovar os dentes para não ter cáries;
- Chamar as pessoas pelo nome ou pela forma que gostam de ser chamadas para não aborrecê-las ou humilhá-las;
- Fazer a lição de casa para entender o que foi ensinado na escola;
- Para adolescentes, vale o mesmo princípio: voltar para casa até a meia-noite para cumprir acordo preestabelecido com os pais;
- Não pegar caronas com amigos alcoolizados ou sem habilitação porque isso significa colocar-se em risco.

Vejam que, quanto aos princípios das regras, devem ter origem em um valor que queira formar na criança e no jovem. Dessa forma, toda a regra deve ser justificada por um princípio que tem sua origem em um valor (LA TAILLE, 2009). 

Entenda:

REGRA: O que se deve e o que não se deve fazer
PRINCÍPIO: O porquê da regra
VALOR: O que a regra ensina; virtude

Agora reveja alguns dos exemplos de regras citados anteriormente, aplicando o entendimento de princípio e valor:

REGRA: Escovar os dentes → PRINCÍPIO: Para não ter cáries → VALOR: Saúde
REGRA: Chamar as pessoas pelo nome ou pela forma que gostam de ser chamadas → PRINCÍPIO: Para não aborrecê-las nem humilhá-las → VALOR: Respeito
REGRA: Fazer a lição de casa → PRINCÍPIO: Para entender e fixar o que foi aprendido na escola → VALOR: Responsabilidade
REGRA: Não pegar caronas com amigos que dirigem alcoolizados ou sem carteira de habilitação → PRINCÍPIO: Para não se manter em encrenca ou acidentes → VALOR: Saúde; autopreservação

Assim, podemos dizer que todas as regras apresentadas como exemplo são realmente adequadas à educação dos filhos, pois através delas é possível ensinar um valor essencial. 

No primeiro texto, falei sobre a importância de se ter clareza sobre quais valores vocês querem ensinar aos filhos. Porém, ninguém ensina valores abstratos a uma criança, não podemos sentar com nossa filha de 5 anos e dizer: “Hoje quero te ensinar sobre honestidade”.

Entendem o porquê da regra ter princípios e valores? É na prática que a criança assimila, entende e irá aprender! A criança de 5 anos aprenderá sobre honestidade ao vivenciá-la em suas relações.

Outra maneira muito importante de classificar as regras é definir aquelas que devem ser inegociáveis e as negociáveis.

Deve-se ter clareza das regras que não podem abrir mão e que são, portanto, inflexíveis.

Exemplos:

REGRAS INEGOCIÁVEIS
Escovar os dentes
Não bater nas pessoas
Dormir às 22h
Fazer a lição de casa
Tomar banho todos os dias

REGRAS NEGOCIÁVEIS
Horário de dormir nos finais de semana
Tempo no Tablet
Arrumar o quarto todos os dias
Escolher o que vestir
Comer um chocolate no domingo

Vejam que, todas as regras que têm origem nos valores saúde, estudo e convivência devem ser consideradas inegociáveis e não podem ser flexíveis. Pode parecer simples, mas alguns pais se atrapalham com relação a isso. Portanto repeti tantas vezes ao longo dos últimos textos, tenham clareza das valores que são importantes para vocês e que consequentemente querem ensinar aos filhos de vocês, isso fará toda a diferença para determinar as regras e a flexibilidade das mesmas. Faça uma lista das regras negociáveis e inegociáveis da sua casa.

Lembrem-se: As crianças e também os adolescentes ainda não têm condições cognitivas nem emocionais para tomar determinadas decisões. Estão em formação, aprendendo! Cumpra seu papel de adulto da relação!

Para refletir...

  • Quando ensino as regras para o meu filho, explico o porquê delas?
  • Tenho clareza do valor que estou ensinando?

Referência:
LA TAILLE, Y. Formação Ética. Porto Alegre: Artmed, 2009

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

 

“Se você não parar com isso vai apanhar...” • Parte III - por Thainá Rocha

REGRAS

Quando a criança nasce, já começamos a ensiná-la algumas regras, como por exemplo, na amamentação. Algumas mães conseguem organizar uma rotina para seus bebês desde os primeiros meses. Com carinho, respeito e atenção, estabelecem limites, já ensinando-lhes concretamente algumas delas.

Os seres humanos desde o nascimento estão inseridos em um mundo com regras, sendo extremamente necessárias para uma convivência harmoniosa. As crianças devem aprender, ao se relacionar com os adultos, o conhecimento das regras que organizam a convivência do grupo ou da família na qual estão inseridas. É quando as crianças podem começar a aprender sobre elas e também sobre como as aprendem.

As crianças nascem sem nenhum conhecimento sobre o certo e o errado. Os bebês estão descobrindo o mundo através de suas ações, percepções e sensações. O começo de tudo acontece no sentimento de obrigação que a criança desenvolve em relação aos mais velhos, especialmente aos pais e professores. Esse sentimento, que a leva a obedecer, é a soma de outros dois sentimentos, segundo Jean Piaget, biólogo e psicólogo que se empenhou a estudar o desenvolvimento infantil. O primeiro é o de afeto pelos adultos, o amor. O segundo, o respeito.

Há pais que têm medo de perder o amor dos filhos e acreditam que não podem negar nada a eles. Acreditam muitas vezes que se os corrigirem, eles não gostarão mais deles.  Ainda há pais que não suportam ver os filhos contrariados ou chorando e, para evitar isso, acabam cedendo a todas as vontades e birras. E há ainda outra “categoria” de pais: os vencidos pelo cansaço. É um dos mais comuns, devido às exigências da vida que causam o estresse, a falta de tempo, e por aí vai, fazendo com que os pais “se rendam” aos filhos. É aí que a fórmula de Jean Piaget (equilíbrio entre amor e respeito) vai por água abaixo...

Mas então, como as crianças aprendem regras?

A resposta é essa: a partir do sentimento (em equilíbrio) de respeito e amor/afeto que a criança sente pelo adulto, é que se inicia um processo de imitação das regras recebidas e a utilização individual desses exemplos. Ou seja, a criança necessita que os pais ensinem-lhe as regras. E aqui cabe uma diferenciação muito importante: os pais podem ensinar os filhos a obedecer a eles próprios ou a obedecer às regras de forma geral.

Como assim? Isso não é muito fácil de se perceber no dia-a-dia, mas faz uma diferença muito grande quando o objetivo é educar e não simplesmente ser obedecido naquela hora, no momento em que a situação que a criança necessita ser corrigida acontece.

Um exemplo:

Um menino de quatro anos sobe em cima da mesa. O pai o ameaça dizendo “Desça daí agora, senão você vai apanhar”. O menino, com medo de apanhar, desce rapidamente da mesa.

O menino obedeceu por medo de apanhar. Mas o pai não explicou a ele para que servem as mesas, nem o orientou sobre quais lugares pode brincar ou não, não fez com que a criança tivesse tomada de consciência e o conhecimento do perigo.

Essa criança aprendeu a obedecer o pai (por medo de apanhar), e não a obedecer uma regra. Está aí a grande diferença! Saberia essa criança que não se pode subir nas mesas em nenhuma situação e em qualquer lugar que estiver, até quando o pai não está por perto para ameaçar? Aprendeu esta regra? Provavelmente não. Esse é um exemplo claro onde não há o equilíbrio de amor/afeto e respeito. O pai se utilizou do “temor” do filho em relação a ele, e isso não é respeito nem autoridade. Muitos pais confundem respeito e autoridade com “temor”.

É importante lembrar que a educação é um processo, que possibilita que a criança aprenda sobre as regras e faze-la entender sua necessidade e também convencê-la de que aquela é a melhor maneira de agir. Outra questão é que a criança testa, sim, a regra. Quando os pais ensinam a obedecer regras, a criança testa a validade desse limite. Quando os pais ensinam a obedecer a eles mesmos, a criança testa a sua autoridade.

As crianças devem pensar sobre as regras. Devemos colocar limites sim, mas ensinar a compreende-los, ajudá-los a aprender quais regras são importantes e por que são importantes.

Assim, uma regra é legitimada pela criança, ou seja, ela deixa de testar a regra, quando, depois de tanto fazê-lo, observa que é importante mesmo, pois seus pais não abrem mão dela.

O papel dos pais, então, é esse: ser fonte e modelo de boas regras. A regra necessita ser reapresentada e explicada para a criança tantas vezes forem necessárias, e ser seguida pelos próprios pais.

No próximo texto, refletiremos sobre quais regras são importantes serem ensinadas e sobre as regras negociáveis e as inegociáveis. Enquanto isso, deixo algumas reflexões:

  • Tenho cumprido o meu papel como pai ou adulto da relação?
  • Eu ensino o meu filho a obedecer regras ou a me obedecer? Eu quero que ele seja, quando adulto, uma pessoa obediente ou autônoma?

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

“Se você não parar com isso, vai apanhar...” • Parte II - por Thainá Rocha

Dando continuidade ao tema da última postagem, hoje quero lançar outras reflexões antes de dar início à parte prática do nosso assunto. Para quem leu o texto anterior, conseguiram pensar sobre quais seus objetivos ao educar e qual pessoa querem formar?

Hoje separei mais alguns tópicos para pensarmos juntos... como é educar nos tempos de hoje? Quais as consequências nas crianças diante da ausência de autoridade? Filho é um projeto e a educação é um processo... como assim? Qual a importância do que os pais fazem? 

Vamos lá...

Educar nos tempos de hoje

Você já ouviu falar que as crianças de hoje são muito mais desobedientes do que as de antigamente? E que os pais atualmente não sabem dar limite aos filhos?

Percebo que há uma questão que tem tornado o ato de educar ainda mais desafiador: os tempos atuais. Hoje vivemos em uma sociedade de valores instáveis, em um mundo que tudo pode e que nada mais surpreende ninguém. O que isso significa? Que o mundo atual é guiado por algumas características que dificultam a educação dos filhos, como a instabilidade de valores, a busca desenfreada pelo prazer imediato a qualquer custo, o consumismo, o individualismo e a dificuldade que muitos adultos tem de dar sentido à vida. (LA TAILLE, 2009).

O que isso tem a ver com a educação das crianças?

A liberdade completa não pode ser oferecida às crianças e aos adolescentes, pelo simples fato de que elas ainda estão em desenvolvimento e não têm como opinar ou escolher a respeito de determinadas situações ou fatos. Assim, os pais são responsáveis por ensinar o certo e o errado aos filhos. Então, em uma sociedade que tudo pode e nada mais parece estar certo ou errado, ampliam-se as dificuldades. Outra questão muito importante aqui é que hoje em dia é bastante comum ouvir os pais dizerem que querem dar aos filhos tudo aquilo que não tiveram. Aqui cabe um alerta: será que ser bom pai é dar ao filho tudo aquilo que ele quer? A resposta correta é “não”. O motivo? Primeiro porque “tudo” é demais e inalcançável e segundo, ao dar tudo o que o filho quer o impede de experimentar a conquista, a espera, o desejo, a valorização e até a possibilidade de aprender a se frustrar. Como chegam no consultório crianças que não sabem lidar com a frustração, característica tão importante para aprender a encarar a vida e não adoecer emocionalmente! E como tenho atendido pais que se frustram ao não saberem lidar com a frustração do filho!

Outra característica da sociedade atual é: falta de tempo. Pais trabalham enlouquecidamente (inclusive para oferecer aos filhos exatamente tudo o que não tiveram). Mesmo as agendas infantis são abarrotadas de compromissos. Os pais sabem que no meio de toda essa correria, não tem tempo de ficar com os filhos. Sentem-se então culpados de, nos poucos minutos que tem junto a eles, impor-lhes limites... compensam a ausência com presentes... enquanto isso, falta tempo para ficar junto, para refletir sobre essa correria toda. Falta-se tempo até mesmo para se ter filhos!

Li uma vez que uma boa forma de caracterizar o homem nos dias de hoje é a figura do turista. O turista é aquele que está de férias. Está ali só de passagem. O tempo é curto e tem que cumprir um protocolo de visitas a todos os pontos turísticos, para sentir que passou por ali nem que seja por 5 minutos, o tempo de tirar algumas fotos já é o suficiente. O turista vive relações frágeis com as pessoas que conhece na viagem, pois muitas vezes não voltará a vê-las. Como ser pai e mãe em tempos de gente “turista”? O papel de pais não pode ser de turista na vida dos filhos. 

Para refletir...

  • Você tem sido um turista na vida do seu filho?

Ausência de autoridade

Pai e mãe são os adultos da relação. Não se pode negar a necessidade da autoridade do adulto para a criação e a educação das crianças. A criança e o jovem são os mais novos e não estão prontos para o mundo, portanto, precisam de ajuda dos mais velhos para crescer e se desenvolver. Isso explica a importância da autoridade. Pais “turistas” negam sua autoridade na relação com os filhos e não assumem o seu papel de adulto na relação. Existem várias formas de negar a própria autoridade na relação com os filhos, vou citar as que mais percebo. Uma delas diz respeito aos pais que abrem mão dela na ansiedade de não reproduzirem a educação autoritária que receberam. Os pais confundirem educação com agressão, humilhação, etc. É possível ter autoridade sem precisar feri-los (por dentro e por fora). Outra forma de negar a autoridade são os pais que querem ser “amigos” dos filhos. Ao assumirem a relação de amizade, eles abrem mão do verdadeiro papel, que é o de ser pai ou mãe. Isso não quer dizer que o pai não deva ser próximo ou amigo do filho. Mas tem que haver um entendimento de que não é uma relação entre iguais. 

Li também, certa vez, que nos tempos de hoje, a autoridade tem sido substituída pelas celebridades. O que significa ser celebridade: Ter tudo o que se quer (consumismo); fazer tudo o que se quer (busca pela satisfação a todo o custo); ser o mais famoso, o mais conhecido e o vencedor (individualismo). Mas quanto tempo dura, muitas vezes, uma celebridade? (relações descartáveis). 

Dessa parte, posso destacar dois pensamentos importantes. O primeiro é que ser pai e ser mãe é ser os adultos da relação, o que implica assumir a autoridade. O segundo é que os tempos atuais exigem ainda mais a participação dos pais na educação dos filhos.

Para refletir...

  • Sei a diferença entre autoridade, amizade e celebridade?

Filho é um projeto

Filho é um projeto pessoal. Ainda que não tenha sido planejado, você decidiu assumi-lo. Trata-se de um projeto duradouro. Não se pode divorciar ou desistir dos filhos. Filho é alguém que necessita de cuidados e proteção até que esteja pronto para ingressar no mundo adulto. É um projeto bastante demorado. A educação de uma criança acontece diariamente, desde que ela chega ao mundo até se transformar em um adulto. Há demora e demanda para se educar uma criança. Essa realidade nem sempre é consciente para alguns pais. Nenhuma criança pede para nascer. Se você a teve, adotou-a ou assumiu sua guarda, tem que saber que, como adulto, assumiu um projeto pessoal e duradouro. Você é o adulto e, por isso, terá que se doar muito mais do que receber em troca. Não dá para trocar de filho, devolver ou desistir. Portanto, a educação dos filhos é um processo...

Para refletir...

  • Eu já pensei em desistir do meu filho? Faço isso sem perceber, quando, cansado ou estressado, deixo de lhe dar atenção, de corrigi-lo, de acompanhar o seu desenvolvimento e de educá-lo?

A educação é um processo

Nunca é demais repetir: o processo de educação de um filho nem sempre é leve e agradável. A educação é complexa, permeia todo o desenvolvimento da criança e do adolescente. Quando se tem um filho, é necessário que ele esteja incluso realmente no projeto de vida desse adulto que o trouxe ao mundo. Os adultos precisam organizar sua agenda para ter tempo de educar seus filhos. Esse tempo não se resume em dar banho e comida. O tempo não é medido em quantidade e sim, em qualidade. O tempo deve ser para dar atenção, carinho, dialogar.

Para educar, não há mágicas. Não há atitudes especificas para que a criança se eduque e se sinta amada (já me pediram checklist para isso). Educação vai além. O que ensina os filhos é a coerência das nossas atitudes para com eles todo dia e a cada dia. O que faz a criança aprender o certo e o errado é o fato de que esse certo e esse errado sejam trabalhados e vivenciados pela criança todo dia junto com o adulto responsável por ela. A educação é um processo, ou seja, é exatamente a regularidade, a continuidade, a coerência das atitudes do dia a dia para com os filhos que constroem a educação deles. Isso é educar. Não desistir nunca. Então é preciso que os pais estejam disponíveis e assumam o compromisso como parceiros desse processo de ajudar a criança a se tornar adulto. Aí entra outra questão: muitos pais tem medo desse momento, pois acreditam que estarão perdendo o filho. Na verdade não amam e sim são apegados à eles. Acabam os ensinando sobre dependência. Cuidado! O papel de ser pai é o de estar presente e participar do processo de desenvolvimento, mas também ajuda-lo a crescer. É permitir que o filho cresça e não dependa mais deles. Isso não significa que o filho vai deixar de amá-los, nem que os pais não tenham de preocupar-se mais com o filho adulto. Se você, pai ou mãe, tem dificuldade em entender essas questões, procure ajuda! Será bom para você e para seu filho.

Para refletir...

  • Educar é um processo longo. Entendo isso ou procuro soluções mágicas? Educo meu filho para ser adulto ou me esforço em mantê-lo infantilizado e eternamente dependente de mim?

A importância do que os pais fazem

Não há influencia mais importante no desenvolvimento dos filhos do que a dos pais. Nem mesmo as informações genéticas que as crianças herdam ao serem concebidas têm tanta influência sobre a vida delas quanto a educação, a orientação e a convivência com seus pais.

A ideia aqui não é assustar e menos ainda deixá-los culpados. A ideia é motivá-los a fazer o melhor que puderem. Não podemos ir levando a vida e cair em um processo automático de relacionamento com as crianças sem refletirmos sobre quais são as melhores atitudes, as melhores palavras, as melhores intervenções que podemos oferecer à eles. Não pode ser uma ação improvisada! Os pais que são conscientes da importância do seu papel na vida dos filhos têm muito mais chances de que suas crianças cresçam e se transformem em pessoas equilibradas, saudáveis, alegres e realizadas.

Bem, acho que já refletimos bastante. Fico feliz de terem lido esse texto e por terem chegado até essa parte. Isso significa que estão interessados em aprender e a saber mais sobre a educação de seus filhos. E lhes digo com toda certeza: esse é o melhor caminho, saber o que se está fazendo. As propostas práticas que apresentarei nos próximos textos são fundamentadas em pesquisas científicas, ou seja, tem seus resultados comprovados. As orientações (e mais e mais reflexões) que apresentarei a partir de agora são resultado dos meus anos de estudo, principalmente em Psicologia do Desenvolvimento da criança e do adolescente, que estou preparando para dividir com vocês com muito carinho, tendo como principal objetivo “ajudá-los a ajudar seus filhos” a crescer e se desenvolver como pessoas de bem e com o aspecto emocional saudável.

Se eu pude convencê-los nesses dois textos de reflexão de que o que os pais fazem é muiiiito importante, vamos colocar as mãos à obra!

Até a próxima! 

Referência:
LA TAILLE, Y. Limites: três dimensões educacionais. São Paulo: Ática, 2009.

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Thainá da Rocha Silva, Psicóloga especialista em infância e adolescência.

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Cânion Fortaleza - Parque Nacional da Serra Geral

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