Platonismos de primavera - por Will Nath

Platonismos de primavera - por Will Nath

Solta o freio de mão, acelera, apaga, buzina. Deixa o carro correr pra trás ladeira abaixo, bate chave, arranca, sai patinando na estrada de saibro.
- O que é que eu fiz, amigo? - Em menos de 5 segundos ela havia feito mais manobras que pilotos de rally em provas inteiras. O carro andou. Continuamos.

Para pra foto aqui, admirar coisa ali, ver o caminho, conversar. Assim seguiu a folga da semana, como um típico sábado de sol. Leve. Com brisa gostosa, temperatura agradável e algumas nuvens figurando no céu, o carro seguia rodando pela estrada de terra no interior da cidade. O contato com a natureza tranquiliza, acalma, sossega, ao mesmo tempo que alegra, fascina e liberta. Mas claro que, em se tratando de dois alemães criados em meio ao verde, estar na natureza só é de fato estar na natureza quando se está lambuzado de fruta direto do pé.

E tem coisa melhor? Quem não trepou em goiabeira quando piá, perdeu uma festa! Voltar pra casa cheirando a bergamota então? Não dá pra esconder, parece que o cheiro toma conta do corpo todo - a gente meio que transpira bergamota nessa hora. Pois estávamos dispostos ao lambuzo. Bem dispostos, aliás. Porém, com o fim da estação as bergamotas poderiam nem chegar. Já havia passado do tempo e o fim da metade fria do ano levava embora as chances de provar aquele doce azedo dos gomos de bergamotas, dessas de beira de estrada, de roça, de fundo de quintal.



Após falsas esperanças e árvores sem fruta, encontramos uma bergamoteira que seguia a dura resistência. Claro que os frutos restantes resistiam por uma razão: estavam bem protegidos. Teríamos que provar quão digno éramos de tê-los. Puxa galho de um lado, puxa galho do outro. Olha. Analisa. Cuidado com o banhado, e a cerca, e os espinhos. Que ginástica! Pegar bergamotas em fim de temporada deveria se tornar prova olímpica. Exige técnica.

Com algumas bergamotas, a estrada parecia ainda mais leve. Paisagem pós paisagem íamos redescobrindo uma região linda por natureza. Montanhas cobertas de verde formavam o vale a cada nova curva, enquanto saboreávamos os gomos daquela fruta que carregava um quê de vitória, de conquista, de objetivo alcançado. Mas a ambição está no ego do ser – e nós seres somos. No primeiro pé de laranjas disponível lá estávamos nós, pendurados querendo mais. Não eram bergamotas. Não tinham o sabor – ou glamour – das bergamotas. Mas eram frutas. Frutas direto do pé.

Tentamos ser o mais breve - e humildes - possível. Com aroma cítrico nas mãos, seguimos pelo caminho devaneando sobre aqueles furtos em série. Como eram gostosos - os frutos! Não obstante, a odisseia frutífera de um 20 de setembro atípico não havia chegado ao fim... Pois no meio do caminho uma ameixeira havia, havia uma ameixeira no meio do caminho. À beira, na verdade, e estava carregada. Seus frutos, deliciosamente maduros, estavam a mão e novamente saímos com elas cheias. Tinha até para as mães. Bergamota, laranja, ameixa. O que mais poderia aparecer nesse dia tão doce?
- Uma amoreira! - Ai, aquela amoreira.

Ainda lembro dela. Linda. Linda e carregada. Só a vimos porque algum pássaro fez barulho até chamar nossa atenção, como que dizendo: - Ei! Aqui! Aqui tem mais frutas e estão gostosas – pois deviam estar mesmo. Deviam. Esse pé estava a uma valeta de distância, do outro lado da cerca e mantinha os seus frutos além do nosso alcance. Ah, aquelas amoras. Ainda lembro delas. Tão roxas. Deviam estar gostosas. Deviam mesmo. Deviam.

Will Nath
Bem humorado, não dispensa uma boa cerveja e uma roda de amigos. Tem a escrita como forma de meditação. Mochileiro de alma, viaja pelo mundo e pelo pensamento.

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