A biblioteca e a inclusão das crianças especiais na escola: uma história de dinossauros - por Cléa Penteado

A biblioteca e a inclusão das crianças especiais na escola: uma história de dinossauros - por Cléa Penteado

Este é o relato do trabalho desenvolvido na escola, com uma turma de Jardim B(com crianças de 5 a 6 anos). É comum ouvirmos relatos de belas experiências desenvolvidas dentro das nossas escolas. Diariamente, professoras e crianças são apresentadas na TV mostrando as coisas extraordinárias que são feitas. Mas, nós, que trabalhamos na escola, sabemos que não é tudo tão maravilhoso, que as crianças com necessidades especiais estão vindo para a escola pública regular, e essa inclusão não é resolvida num passe de mágica, por mais que os meios de comunicação queiram nos fazer acreditar.

É preciso lembrar aos meios de comunicação e aos elaboradores de políticas públicas, que estas crianças tem “necessidades especiais” e isso exige pessoal qualificado para diagnosticá-las, atendê-las e possibilitar seu desenvolvimento. Grande parte dos professores tem uma enorme boa vontade, mas não sabe como fazê-lo; É comum hoje haverem duas ou mais crianças especiais na mesma turma, diferentes quanto às suas necessidades; Perguntamos: há espaços adequados? Não. E a professora, como atende a todos? É bom enfatizar que ela precisa atender e ensinar com qualidade a todos os alunos da turma. Turmas reduzidas? Também não pode. Estagiários para auxiliar? Nem sempre. Também não podemos esquecer que o atendimento das crianças com necessidades especiais nas escolas públicas regulares custa muito mais barato às políticas publicas. Cabe a nós professores, em parceria com as famílias, seguirmos exigindo condições cada vez mais dignas, de trabalho, de formação, de condições melhores em todos os âmbitos.

Não pretendo que este relato sirva para mostrar o quão maravilhoso está o trabalho desenvolvido na escola, mas que possamos refletir sobre nossas dificuldades e avançar na qualidade da educação oferecida a todas as crianças e jovens, não como atos individuais e isolados de heroísmo de um ou outro professor, mas como um processo que envolva todos: familiares, professores, direção e principalmente uma Secretaria de Educação que se mostre atenta e sensível às reivindicações e necessidades, para que os professores possam assumir com qualidade a tarefa de educar todos os seus alunos.

No início de 2012 eu ouvia diariamente o choro e as gritarias de uma criança da turma do primeiro ano. A movimentação começava na sala de aula, em seguida envolvia a Direção, Supervisão, enfim, o choro e as brigas acabavam envolvendo a todos. A professora ficava muito preocupada, pois em final de carreira, nunca havia se deparado com uma situação tão difícil. Havia um diagnóstico de paralisia cerebral aliada à falta de limites na educação familiar que tornava muito difícil o trabalho. Os dias passavam e a situação já estava insuportável para a professora, cansada das dicas, sugestões e conselhos de todos, como se fosse uma principiante. Nada parecia surtir efeito com o João (vamos chamá-lo de João).

Com o passar do tempo e para o alívio de todos, aos poucos, ele foi se acostumando e permanecendo um pouco mais na sala de aula, diminuindo um pouco os escândalos. Mas no dia de ir à biblioteca era impossível fazer com que entrasse. Ele vinha até a porta e começava a gritar e nada fazia com que mudasse de idéia.

Trabalho como professora contadora de histórias na Biblioteca da Escola. Todas as semanas realizamos a troca de livros para todas as turmas e procuramos realizar a “Hora do Conto” principalmente para todas as turmas do primeiro ciclo. Em uma das conversas com a professora, sobre como poderíamos trabalhar em conjunto, ela comentou do desejo de trabalhar com a temática dos dinossauros, pois notara o interesse das crianças e principalmente do João, nos livros sobre o assunto.

Esta conversa deu-me uma idéia. No sábado seguinte tínhamos uma formação na escola. Era a oportunidade que eu precisava para preparar o terreno. Elaborei umas pegadas gigantes com espuma e tracei, com tinta, uma trilha de pegadas que ia das proximidades da sala da turma até a biblioteca, e continuavam até a entrada do espaço que usamos para contação de histórias. Na segunda-feira pela manhã, as crianças vinham cheias de curiosidade me perguntar que pegadas eram aquelas, de quem eram? Devolvia-lhes a pergunta, o que achavam? De que bicho será que eram? Eles ficaram curiosíssimos, vinham me procurar para contar suas hipóteses. Paralelamente preparei uma maleta, feita com papelão, forrei com tecido colorido e dentro coloquei dois fantoches: o Dr. Pedrinho e sua ajudante, a srta. Susi.

Combinei com a professora, naquela semana eu iria buscar a turma na sala de aula na hora da biblioteca. Fui buscá-los com a maleta. Eles me esperavam e eu lhes falei que aquele dia havia uma surpresa para eles, que aconteceriam coisas muito especiais, mas para isso eu precisava que me ajudassem. Pedi ao João que levasse  a maleta. Peguei em sua mão e levei a fila de alunos até a biblioteca, íamos conversando sobre quem teria feito aquelas pegadas e de quem seriam. Já na sala e sentados nas almofadas, em círculo, começamos a conversar sobre o que eles já haviam aprendido sobre o tema. E disse que já que eles queriam saber mais necessitaríamos ajuda de um cientista. Abri a maleta e dela saiu o fantoche do Dr. Pedrinho, apresentando-se às crianças e começando a fazer perguntas sobre o que eles sabiam sobre os dinossauros. Um dos meninos também se chamava Pedro e adorou a coincidência. As crianças já haviam iniciado o estudo e participavam animadas do conversa, inclusive João, que se mostrava atento o tempo todo. Em seguida tirei da mala a srta. Susi e ela também fazia parte das intervenções e ajudava o dr. Pedrinho nas explicações.

Também havia preparado um baú (de papelão) e havia colocado dentro alguns livros ilustrados sobre dinossauros e também alguns exemplares de dinossauros de brinquedo, contribuição de minhas colegas que tem filhos pequenos. É incrível a qualidade dos brinquedos disponíveis hoje, os dinossauros eram representações perfeitas dos diferentes tipos, tamanhos. Alguns possuíam pilhas, o que fazia com que reproduzissem o som e davam alguns passos. Os brinquedos circulavam nas mãos das crianças que íam atribuindo a eles as características de alimentação, tamanho, enfim, tudo que haviam estudado em sala de aula com a professora. Complementávamos as informações que as crianças traziam com os livros disponíveis sobre o assunto. Nós trabalhamos sobre o tema por um mês, aproximadamente, com um encontro semanal, até que o assunto esgotou a curiosidade deles. Posteriormente a turma continuou vindo à biblioteca semanalmente e nunca mais tivemos problemas com o João, que ficara meu amigo, escolhia o livro, vinha mostrar e falar comigo.

Já se passou um ano do desenvolvimento deste trabalho e sempre que João está no pátio ou passa em frente à Biblioteca, ele entra e vem me comentar alguma coisa, mostrar um brinquedo ou um livro, enfim, acho que posso dizer que ele é meu amigo, e o mais importante é que ele ficou amigo dos livros e é um frequentador da Biblioteca, mesmo em outros momentos. Algumas vezes ele ainda faz uma birra, quando vem com a turma, mas estabelecemos um contato que se tornou duradouro.

A alegria e o retorno das crianças diante deste trabalho nos mostra que os diferentes espaços da escola são laboratórios de experimentação, de aprendizagem, desde que nós, professores, aceitemos desafiar-nos constantemente rumo a novas formas de superação das nossas dificuldades. Percebemos que só avançamos quando nos sentimos humildes, atentos aos sinais que nos mostram as brechas nas quais podemos lançar nossas sementes de esperança de que a escola inclua, além das crianças, “condições especiais” de trabalho.

Cléa Penteado é professora da Rede Municipal de Porto Alegre desde 1996, atua na Biblioteca e à noite, como professora de Arte de Jovens e Adultos.

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