As lobas também querem voar - por Andrea Dórea

As lobas também querem voar - por Andrea Dórea

Quase dois anos atrás, em uma tarde de inverno, alguém tocou a campainha insistentemente, me fazendo sair a contragosto da mesa de trabalho para atender. No portão, uma conhecida querendo dar um olá. Sorria simpática, mas o olhar dizia outra coisa, era um grito: “socorro, preciso conversar!”

Ela me contou que andava envolvida com algumas atividades semanais, entre elas exercícios de ioga e que aos poucos vinha melhorando, não se sentia mais deprimida como antes, quando ficava dias sem tomar banho e não conseguia sair da cama. Diante de sua narrativa desconcertante, decidi prosseguir com a conversa e a convidei para entrar.

Era uma mulher de quase cinquenta anos, com filhos adultos, separada e cuja única tarefa no momento era cuidar de si mesma. Ela era livre, jovial e criativa, queria se reinventar, mas aquele que poderia ser um dos melhores períodos de sua vida, se convertia em um tempo de depressão.

Ofereci um café à convidada e comentei que na minha opinião, a vida está em constante movimento e que o ato de se reinventar deveria ser algo encarado naturalmente em qualquer idade e até estimulado, no intuito de promover o bem estar do ser humano. No entanto, é mais frequente ouvirmos falar de obstáculos, negativas e mesmo da falta de oportunidades, que acabam por minar a disposição de pessoas como ela, cheias de entusiasmo para recomeçar, barradas pela data de nascimento.

Ao enfrentar o mercado de trabalho em uma nova área de atuação, para ser respeitada e ter seu currículo avaliado por mais de três segundos, sua obrigação seria possuir no mínimo, um título de PhD em Paranormalidade, já que seu perfil não se encaixava em nenhum do dois grupos desejados: nem no dos maduros com anos de experiência e muitos títulos; nem no dos jovens recém formados. Isto se refletiu nela como uma sensação incômoda de inadequação.

A consequência natural da rejeição às suas ofertas para participar dos projetos mais variados, foi a depressão. Ela percebeu que muitas das coisas que havia sonhado fazer quando seus filhos fossem independentes, agora não estavam mais disponíveis para pessoas de sua idade, sendo a maioria delas limitadas a candidatos com a idade máxima de trinta e cinco anos.

Conversamos sobre sua experiência e possíveis soluções para o problema. Horas depois; nossos ânimos alterados, estimulados pela cerveja que havia substituído o café; ela se levantou decidida, parecia muito animada, me deu um abraço e partiu. Achei curiosa a partida súbita, mas fiquei feliz ao ver que ela parecia se sentir melhor após a nossa conversa. Depois disso passei quase dois anos sem vê-la, até a tarde de hoje.

Esta tarde a campainha tocou, era ela novamente. Parecia feliz e durante o café que tomamos na sacada, me contou que depois de nossa última conversa havia iniciado um projeto de sua autoria que envolvia, entre outras coisas, incentivar mulheres que se encontravam na mesma situação em que ela se encontrava naquela época. Ela as encaminhava para oportunidades de trabalho, divulgava cursos de reciclagem e organizava expedições para as mais aventureiras. Além disso, a nossa heroína, por ser muito articulada e persuasiva, andava empenhada em fomentar concursos para bolsas de estudos e movimentar projetos artísticos para mulheres maduras.

Eu a felicitei dizendo estar muito contente pela solução criativa que ela havia encontrado para o seu problema. Ela gargalhou alegando ter mais novidades, deu uma piscadela e tirou um livro da bolsa para me presentear. O livro era de sua autoria, contava sobre a trajetória de uma mulher de quase cinquenta anos que decidiu se reinventar ao perceber que era livre para ser o que quisesse, mesmo quando a sociedade a encarava como alguém que já havia passado da idade. Segundo ela, o livro era sucesso de vendas e não pude deixar de sorrir ao ler o título:
“As lobas também querem voar”.

Andrea Dórea é artista plástica, fotógrafa, graduada em Letras Espanhol e Literaturas. Nascida no Rio de Janeiro e radicada em São Paulo, viveu também no Rio Grande do Sul durante sete anos. Desde os anos 90 produz peças artísticas traduzidas em pinturas, desenhos, esculturas e objetos; além de fotografias feitas nas ruas, em grandes eventos ou em apresentações artísticas de dança, música ou teatro. Sua paixão pela literatura a levou a estudar Letras e a produzir textos em forma de contos, crônicas, poemas e relatos. Seu trabalho reflete um interesse profundo pelas questões humanas, as artes e a cultura. A versatilidade da artista lhe permite mesclar técnicas e linguagens, algo recorrente em suas obras. 

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