O Homem Que Dormia Sentado - por Bernardo Dal Pai

O Homem Que Dormia Sentado - por Bernardo Dal Pai

Hoje, eu acordo. Hoje, eu vivo. Todas as chances que já tive, todas as coisas que já me disse. Se pudesse voltar no tempo, voltaria. Não para me intrometer, apenas para viver novamente. Apenas para viver intensamente.

Do seu sorriso eu me lembro, nesta cadeira eu o revivo várias vezes em minha cabeça. Após um banho, após o almoço e antes da janta, eu me lembro. Lembro-me de todas as coisas que já vivi. Sinto-me fútil e um pouco confuso ao desfrutar de um momento que não me era precioso.

Na hora de dormir, sinto uma dor em minhas costas. Acima de minha cicatriz, das guerras que lutei. Das brigas de bar que já enfrentei. Após um doce bocejar, pego um álbum de fotos que havia dentro de minha cabeceira. Folheando-o vejo as fotos de meus amores, meus filhos e meus netos.

“Aqui jaz aquele que sempre olha por ti.”

Uma carta entregue por meu pai a mim, por meu irmão. Ele mesmo. Que tanto me odiava na infância e, no fim, levou um tiro em meu lugar. Acredito que não me recordaria da última vez que estivemos juntos antes da guerra.

Deito-me em minha cama. A mesma que um dia fora uma maravilha deitar-me, agora apenas me incomoda.

Me levanto e vou para a sala. Cheia de papéis e balas de minha espingarda. Estas já foram mais bem usadas em uma noite atrás. Vou até minha cozinha, esperando que um café quente me acalme.

Voltando para a sala, sento-me em minha cadeira de balanço. Feita de madeira, um assento duro porém confortável. Melhor que minha cama feita do algodão mais macio. Balanço-me um pouco, antes de deixar os sonhos me levarem.

Meus olhos se fecham e eu adentro em um mundo perfeito. Após nove anos lutando na guerra, meu paraíso não podia ser outro se não a mesma. Após tantos anos trabalhando e brincando com meus netos, percebo que esta cadeira é mais macia com seus apoios braçais faltando, graças às brincadeiras deles.

Finalmente adormeço e dou meu último suspiro. Finalmente volto para minha casa, a mesma que a muito há tirara a vida de meu irmão. Em meu último suspiro, vejo minha velha espingarda em minhas mãos e meu velho uniforme de guerra em meu corpo. Por fim, ao final da vida, percebo que meu paraíso é minha lembrança mais preciosa, mas também é a que mais odeio.

 

Autor: Bernardo Dal Pai

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