Desafago - por Patrícia Viale

Desafago - por Patrícia Viale

Vago neste lugar qualquer. Meus pés ardem. Já não levanto a cabeça. Tudo dói. O respirar está fraquinho. Não sei o que aconteceu. Até antes disto tinha um lugar quente para dormir. Comida para este vazio dentro de mim. Afago quando eles apareciam no pátio. Com caixa de papelão e coberta para os dias frios. Eu era a cachorrinha da casa.

De repente uma coceira atrás da orelha desmoronou o tudo. Era só uma coceirinha de matar o tempo. Foi aumentando. Nas duas orelhas. Nos cotovelos. Na barriga. O pêlo começou a vagar por outro espaço. Eles encontraram as primeiras falhas. E passaram a olhar-me mais vezes ao dia. Pela manhã, à tarde e às vezes, à noite, antes da janta. Puxavam minhas orelhas. Viravam-me de barriga para cima. E sussurravam. A mulher colocava a mão na cabeça e balançava-a de um lado pro outro. Eu estava alegre. Mais vezes juntos. Mas a coceira aumentava. A mulher já não me olhava. Pronunciava sarna. O homem largava a comida num canto. A água no outro pote e ia embora sem um afago. Desafago, eu saberia depois.




Num final de tarde, o homem chegou bem perto da caixinha e me chamou. Colocou a coleira no meu pescoço e puxou-me. Abriu a porta de trás do carro e ali me deixou. Fiquei deitada. Pensei que iríamos passear. O homem abriu a porta. Me puxou pela corda com força. Tirou a coleira. Não disse nada. Sequer olhou-me. Entrou no carro e partiu. Olhando para os lados, o escuro. Ruídos desconhecidos. Sem a caixa de papelão quente nas noites frias. Sem o afago atrás das orelhas. Sem a voz conhecida. Suspirei naquele vazio. Não tive retorno. Um latido largado naquele vão. Não deu eco. As luzes nas casas de longe já se apagavam.

Este texto da voluntária Patrícia Viale descreve a tristeza do abandono de um animal. Se você tem um animal, cuide. Se você pensa em adotar, lembre-se que ele é um ser vivo e não pode ser descartado como um objeto. Animal sente fome, sede, dor e tristeza.

ONG Amigos de Rua

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