Você faz chupeta? – por Adriano Villa

Você faz chupeta? – por Adriano Villa

Não sou muito chegado em viajar em feriados prolongados, mas às vezes, sair da rotina não faz mal a ninguém, não é verdade? Pois bem, depois de caros pedágios e de um trânsito capaz de acabar com a paciência de qualquer Jó, finalmente chegamos à praia. Já era tarde da noite o que limitou nossas opções de divertimento, após guardar o carro na garagem do hotel, aproveitamos as últimas horas daquele dia para jantar e dar um passeio pela orla da praia sob promessas de acordar cedo na manhã seguinte.

Seguimos o combinado e logo pela manhã lá estávamos indo felizes e sorridentes para a praia, arrumamos duas espreguiçadeiras com guarda-sol bem próximo do mar e ficamos ali curtindo a brisa sob efeito de algumas cervejas, caipirinhas de abacaxi, raspadinhas e etc. Não respeitamos os horários ideais para tomar sol por estarmos protegidos pelo guarda-sol e por espessas camadas de protetor solar.

Bem no finalzinho da tarde voltamos ao hotel, tomamos um banho e saímos para aproveitar a noite mal sabendo a surpresa que nos aguardava logo pela manhã. Como havíamos curtido bem a praia com direito a vermelhidão e ardências, achamos melhor pegar a estrada logo cedo para evitar o trânsito, assim poderíamos descansar um pouco. Mais uma vez fizemos conforme combinamos. Na manhã seguinte, arrumamos nossas coisas, pagamos nossa estadia e seguimos para o estacionamento do hotel. Estávamos confiantes que teríamos um retorno tranquilo, porém, ao girar a chave na ignição o carro simplesmente não funcionou. 

Achamos estranho, o carro havia passado por uma revisão e tudo estava em perfeito estado de funcionamento. Quando o frentista do hotel percebeu que estávamos com problemas, confessou que tinha notado que havíamos deixado os faróis ligados quando chegamos... Eu e minha esposa nos entreolhamos, mas nenhum dos dois tinham disposição para dizer poucas e boas, além do mais, agora sabíamos que o nosso problema era a bateria descarregada e não precisávamos chamar nenhum mecânico local que poderia nos cobrar os olhos da cara.



Deixei a esposa no hotel e comecei a procurar por um cabo de transmissão de carga. Seria uma missão um tanto que impossível, um completo desconhecido pedindo um cabo emprestado. Quem em sã consciência poderia confiar algo que poderia ser facilmente furtado? Por sorte, uma senhora que cuidava de um estacionamento foi com a minha cara e emprestou na maior confiança. Voltei para a rua do hotel e ao ver minha esposa, ergui o cabo como se fosse o troféu da Corrida de São Silvestre. Ela sorriu e no mesmo instante virou-se para um homem sem camisa que estava do outro lado da calçada mexendo em seu carro, perguntou: Moço, agora você pode fazer a chupeta?

Não pude conter o riso e como estava mais tranquilo por ter achado o cabo, não resisti em emendar: pô amor, como assim ficar perguntando para os outros se fazem chupeta na rua? Ela e o motorista-gentil riram e logo estávamos os três ali, com os carros de frente um para o outro fazendo a dita chupeta em nossa bateria, é claro. Não demorou muito tempo para o carro voltar à tona. Agradecemos ao simpático cidadão e logo em seguida fomos devolver o cabo. A mulher não ficou surpresa com o meu retorno. Conversamos um pouco e deixamos o carro ali no estacionamento para um último mergulho, afinal de contas, depois daquele inesperado estresse, nada melhor que um mergulho para espantar de vez a urucubaca.

Acabamos demorando mais do que o esperado e voltamos tarde para o carro, pagamos o estacionamento da mulher simpática e nos colocamos rumo à nossa casa torcendo para não pegarmos muito trânsito. Subimos conversando sobre muitas coisas, entre elas, nosso final de semana e o fato dela chegar ao ponto de ficar perguntando para desconhecidos se fazem chupeta ou não. Um grande exemplo de algo ruim que pode terminar em um final feliz.

Mesmo assim, gostaria de saber quem foi o professor Pardal que decidiu dar esse nome a ligação de bateria a bateria em carros? Será que não chegaram a pensar que poderia ser constrangedor em determinadas situações? Imagine se o seu carro dá problema na bateria em plena Marginal ou em alguma rua escura, você encosta e de repente um homem de bom coração se condói, para e pergunta: Qual o problema? Você responde: Bateria. E ele: Quer que eu faça uma chupeta? Impossível não pensar besteira, não é verdade? 

Adriano Villa 
Escritor, cronista & poeta
Vive em São Paulo

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