Arte e protesto - por Tatiana Lourenço Funghetti

Arte e protesto - por Tatiana Lourenço Funghetti

Há poucos meses vivenciamos o “epicentro” de uma grande manisfestação popular em busca de mudanças políticas. A arte como expressão da subjetividade e da própria sociedade, ao longo das últimas décadas, também vem apresentando um caráter de denúncia e provocação.


Porém, a grande maioria das obras de arte ainda permanece confinada dentro dos imponentes e elitizados museus. Locais estes, cujo acesso é apenas de uma pequena parcela da sociedade que já tem uma bagagem cultural e artística prévia.

É chegada a hora da democratização da arte; a hora de o povo acessar a arte cotidianamente. Partindo do Muralismo mexicano das primeiras décadas do século XX à pixação urbana, as expressões e a revolta plasmam o espaço público transformando-o.

Exemplo na Arte Contemporânea é o grupo feminista Guerrilla Girls. Elas se apresentam em público somente vestindo máscara de gorila (alusão à palavra “guerrilla”) e tratam de questões como sexismo, racismo e corrupção. Entre suas ações estão performances e instalações de banners pelas cidades. Acidamente bem humorados.

Há também o já renomado artista britânico Banksy, o qual arrasta consigo toda uma nuvem de mistério e polêmica. Ninguém conhece seu rosto, ninguém sabe ao certo se ainda é vivo. O que se sabe é que seus inteligentes grafites caíram no gosto popular e até mesmo das autoridades. Hoje em dia, ao contrário de “praguejar” contra o grafiteiro, donos de muros e paredes rezam para serem os escolhidos.

Definitivamente, não é necessário cruzar fronteiras para perceber a arte nas ruas. Para isso é necessário somente o exercício; “afiar” o olhar.

Outra questão polêmica, sobre a qual eu mesma repensei meu ponto de vista é a pixação. Esta expressão é relegada à marginalidade, porém arrastando nosso olhar para o outro lado do spray é possível ver muito mais do que vandalismo. A crítica acomodada flui facilmente, quase sempre. Mas como quem não tem comodidade, não tem voz e tem indignação de sobra, pode criticar?

Quem já esteve em Porto Alegre, provavelmente já transitou por algum muro ou parede com o nome “Toniolo” marcado. O que para um primeiro olhar se resume a pixação, traz consigo o mais verdadeiro impulso de subversão e protesto. Poucas pessoas sabem que Toniolo foi um policial civil que, inconformado, disparava suas críticas veementes através dos jornais da capital. Porém, quando resolveu criticar quem não podia ser criticado, foi banido do jornal e seus textos nunca mais aceitos. Sendo assim, ele buscou as ruas como suporte à sua indignação. Seu protesto explícito à política conquistou jovens que perpetuam até hoje seu nome, seja em forma de pixação ou através de uma quantidade de adesivos espalhados pelo centro da capital rio-grandense.

Sem a menor presunção de fazer com que alguém passe a gostar de uma ou outra linguagem artística, a intenção deste texto é apontar as diferentes mensagens das ruas e enfatizar a função da arte como possível instrumento de revolução e de não-aceitação do “status quo”.
Imagem: Grafitti de Bansky





• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 06 - Outubro de 2013

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