Sobre a responsabilidade ante o pensamento - por Lucas Rodrigues

Sobre a responsabilidade ante o pensamento - por Lucas Rodrigues

“Um asno pode ser trágico? – Pode-se perecer sob uma carga que não se pode carregar nem lançar por terra?... O caso do filósofo.” ¹

Nietzsche e inúmeros outros filósofos da história sabiam o quanto custa ao ser humano pensar. Digo pensar aqui não apenas no sentido do constante trabalho desordenado do cérebro, mas no sentido de construir e avaliar ideias, conceitos e valores que muitas vezes levamos para vida. Se há algo que a cultura trouxe ao homem foi comodidade quanto ao desconforto de pensar, pois por natureza o cérebro humano é preguiçoso e adora repetir padrões e receber tudo pronto. Dissonâncias cognitivas, ou seja, a contraposição de ideias está longe de ser o que a mente mais aprecia (dá trabalho e custa tempo). Com os mitos e superstições, a cultura já nos primórdios da civilização, poupava o homem de tamanha dor de cabeça, lhe dando um conjunto pronto de valores e ideais para vida toda. 

Logicamente, a cultura se modificava e moldava novos conceitos com o passar do tempo. Mas se houve algo que sempre custou acontecer na história da humanidade, foi a transcendência das sólidas estruturas levantadas por esta bagagem de crenças que a cultura legava aos membros da civilização. Levou tempo para que aparecessem as primeiras pedras no sapato da herança cultural. E basta olhar algumas poucas décadas atrás para vermos como recentemente ainda éramos infestados por tabus e ideias que hoje nos parecem ridículas. Mas a questão que permanece, é que a cultura sempre irá cercar a sociedade, variando seus conceitos no mundo afora, mas ela estará lá para ditar aquilo que as pessoas prezam, acreditam e defendem. 



Tendo em mente tudo isto, logo fica clara nossa responsabilidade mediante o legado cultural que nos é transmitido, bem como as revoluções que propagamos nele ao decorrer de nossa geração, pois as modificações que faremos afetarão os que virão depois de nós. É importante avaliar corretamente os pontos constituintes da cultura que nos cerca, pois se não pensamos com a devida seriedade, se somos levianos em pesar o valor das coisas, logo estaremos inseridos em um de dois extremos: ou estaremos defendendo coisas que mal compreendemos (conformismo – porque herdamos da cultura); ou estaremos destruindo aquilo que nem mesmo sabemos como se formou e qual o impacto que isto terá.

Buscar conhecimento, corroborar as informações que nos são transmitidas e ter o cuidado de não sair defendendo ideais simplesmente porque nos parecem convenientes, são passos básicos na direção de uma forma saudável de pensar e avaliar a cultura. 

Mutações ocorrerão na sociedade, sempre foi assim. Mas deve-se ter cuidado para que a presunção juvenil ou a energia do desejo de mudança não venham a pavimentar caminhos tortuosos e desordenados. Pensar no sentido filosófico custa caro, mas vale a pena. Não ignoremos o passado para que não repitamos erros já cometidos, nem desprezemos a herança que a atual cultura nos entregou nas mãos. Mas também não nos conformemos com o que já existe para não nos tornarmos estáticos esquecendo-nos do que é um dos mais preciosos dons do ser humano: a capacidade de raciocinar e decidir não apenas seu futuro, mas também o da cultura e de toda sociedade. 

¹ NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm, Crepúsculo dos ídolos, página 19.

Lucas Matias Ávila Rodrigues
Três Coroas/ RS

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