São Chico: tradição e modernidade - por Marisa  Fernandes Nunes

São Chico: tradição e modernidade - por Marisa Fernandes Nunes

Foto: Angela Teixeira

Cada pedaço de caminho da avenida principal de S. Chico conta uma história da cidade e dos seus cidadãos. S. Francisco de Paula nascida pelos idos anos de 1878 a medida que se desenvolveu  trouxe arraigada uma tradição do gaúcho  serrano que até hoje perdura no modo de ser e estar do serrano: suas raízes no campo. Na avenida,  a arquitetura das casas demonstra a influência da colonização, predominantemente italiana, com suas lindas fachadas de  telhados  decorados com lambrequis que convivem com outros tipos de arquitetura bem mais contemporâneas.  Armazens   do  tipo “secos e molhados”, lojinhas  que vendem botões guardados em potinhos de vidro, convivem com galerias e lojas de belas fachadas que ainda longe  de serem magazines apontam para uma aparência mais moderna. 

Pelas ruas passam homens vestidos à  gaucha, com chapéu, botas e bombacha  mas com uma mochila nas costas ou um laptop  nas mãos: a tradição e a inovação tecnológica  convivendo. Por outro lado, guris e gurias andam  trajados tipo “grunge”, bermuda, boné, shortinho, camisetas customizadas  e, claro com seus indefectíveis celulares nas mãos. Carros de todos os tipos e modelos  lotam a rua  que se tornou  estacionamento em detrimento da circulação de pedestres. À noite, a avenida vira palco de carros com sons  de muitos decibéis a atrapalhar o  descanso dos moradores e que revelam um necessidade exibicionista de seus condutores          

 À tardinha, o Lago S. Bernardo , enfaticamente apresentado como referência turística, fica lotado de carros em seu entorno, com som nas alturas e claro, com passageiros  degustando uma “gelada”.  Em menor quantidade, famílias sentam à margem do lago para tomar chimarrão enquanto as crianças brincam com os patos que por ali nadam. 

O marketing comercial já começa a aparecer na entrada do caminho do Lago com placas chamativas que se espera, não adentrem pelo cenário bucólico, descaracterizando-o como  ambiente natural que acolhe o canto dos pássaros e  outros sons de animais nativos . Não sei se existem peixes...



O turismo, sem dúvida constitui um meio de arrecadação financeira para os cofres públicos municipais e deve  ser incentivado como tal mas que não se oriente por modelos importados de um  turismo universal que padroniza  cenários urbanos de fachada.

A busca responsável pelo progresso e a modernidade respeita a historia de uma comunidade e a  compartilha com todos , de modo a demonstrar  a relação de seus cidadãos com a natureza na construção da cidade.

Por outro Lado, a tradição não pode ser engessada em preconceitos  que negam as inevitáveis mudanças sociais e sua diversidade.   Pela avenida  de S. Chico transitam os mais variados tipos  humanos que parecem denotar aquela bipolaridade  inerente as desigualdades sociais tão evidentes: branco – negro, homem – mulher, rico- pobre, bonito-feio. O olhar torto dos ditos “normais” trazem à tona  a velha ideologia da “Casa Grande e Senzala”. A tradição não pode negar o Bem Estar Social.

Soluções existem sim. Há de se ter vontade política, com representação de cidadãos que coloquem o respeito ao meio ambiente não apenas como objetivo mas como princípio de gestão pública e de identidade cultural  Mas...como  diz o cancioneiro popular: “São Francisco é terra boa...” Sempre

Marisa  Fernandes Nunes, nascida em 25 de abril de l944 em São Francisco de Paula. Filha de Luciano da Silva Netto e Edylia Fernandes da Silva. Atualmente reside em Porto Alegre. Professora  Universitária,  Bel. E Lic. Em Ciências Sociais. Dra em Educação.  

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