A pior solidão está no sentimento de inferioridade - por Daniel Grandinetti

A pior solidão está no sentimento de inferioridade - por Daniel Grandinetti

As redes sociais imitam a vida. Assim como nas redes sociais as pessoas estão preocupadas em passar a imagem de uma vida cheia de sucesso, otimismo, amores e amigos, na vida real elas querem passar a mesma coisa. Quem nunca sentiu que sua vida era sem graça depois de entrar numa rede social e ver tantas fotos de casais apaixonados e baladas cheias de amigos do peito? Tantos sorrisos... tanta alegria! Na vida real acontece a mesma coisa. As pessoas ao nosso redor estão sempre sorrindo, sempre felizes. Invejamos até os seus problemas, pois elas os encaram com tamanha dose de otimismo que chegamos a indagar: “Deve ser tão bom ter a certeza que o futuro será maravilhoso! Por que não consigo pensar assim também?” Não é fácil viver cercado de pessoas perfeitas.



Onde fica tudo que, de tão humano, não se encaixa nessa perfeição? Fica enterrado no fundo da alma, escondido de tudo e todos. Na minha experiência como psicólogo, grande parte dos clientes chega até mim com uma imagem negativa de si mesmos. Então, depois de se sentirem mais seguros, confessam que são incomodados por algumas inseguranças, ideias e desejos. Tudo que pensam, desejam ou temem é comum, tudo absolutamente humano. Entretanto, trazem firme a convicção de serem eles os únicos a pensar ou a se sentir daquela maneira. Eles se sentem diferentes dos outros, diferente para pior, e começam a pensar que são loucos ou que possuem problemas que as pessoas não têm. Nem de longe imaginam que as pessoas que vivem se esforçando por lhes passar aquela imagem de perfeição também têm os mesmos pensamentos e sentimentos que eles... e fazem tudo para escondê-los.

O mais irônico é que, fora do consultório, esse cliente também se esforça por passar aos outros a imagem de que não pensa e não sente as coisas que acabou de confessar há pouco para o psicólogo. Ele também é parte do problema. E nem passa pela sua cabeça que a solidão experimentada por ele na convivência com pessoas empenhadas em parecer perfeitas também é sentida, por essas mesmas pessoas, na companhia dele.

Se o nosso lado ‘humano demasiado humano’ fosse compartilhado, o sentimento de inferioridade - originado da ilusão de sermos a única criatura imperfeita num mundo de divindades - e a consequente solidão que acompanha esse sentimento não existiriam. A pior solidão se encontra na ilusão de se estar sozinho na imperfeição. A tão aclamada alegria do povo brasileiro, que jamais perde o sorriso em meio às dificuldades, é compreensível. Pessoas que compartilham as mesmas dificuldades sentem muito menos o peso dos problemas. Se todos ao nosso redor estiverem desempregados, sofreremos muito menos diante da responsabilidade de arrumar um emprego. O mais provável é nos reunirmos aos amigos na mesma condição para, numa roda de bar, cantarmos um samba sobre o tema, em meio a muitas gargalhadas. Agora, se vivermos num ambiente em que todos menos nós estão empregados e prosperando, o peso da responsabilidade será muito maior, e apenas com dificuldade faremos graça com o assunto.

O compartilhamento do ‘humano demasiado humano’ é o que nos torna iguais a todos. E só há paz de espírito quando estamos identificados com aqueles que nos rodeiam.

Daniel Grandinetti - Belo Horizonte Psicólogo clínico, doutorando em Filosofia

 • Publicado na Revista Usina da Cultura - número 15 - Julho de 2014

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