Lixaço - por Rafael Sanches Souza

Lixaço - por Rafael Sanches Souza

Um dos conceitos que mais me marcou quando li 1984, do George Orwell, foi o do uso da guerra, que eu vou chamar aqui de Dissipação Energética. No livro, os governantes adotam a prática da guerra como estratégia para consumir o dinheiro "excedente" da sociedade, que nada mais é do que um excedente energético. Observei uma estratégia similar na Oficina de Carrinhos de Rolimã em 2011, quando orientamos os participantes da oficina a LIXAREM AÇO para diminuir o diâmetro dos eixos até que entrassem os rolimãs.

O contexto era de uma primeira vez que estudantes de Engenharia, sem experiência pedagógica prévia nenhuma, tentavam desesperadamente conduzir atividade para crianças que, por definição, possuem MUITA energia e criatividade para dissipá-la (desde martelos voadores ao uso de papel higiênico como serpentina de carnaval). Dadas as circunstâncias, nossa solução foi bastante adequada: aqueles que possuíam energia sobrando se aquietaram e conseguimos terminar a proposta sem grandes incidentes.



No entanto, se nós adotássemos esta mesma estratégia como política para as oficinas subsequentes, seria bastante incosequente - e até anti-ético - da nossa parte, pois existem maneiras muito mais "produtivas" de se dispersar esta energia que podem ser elaboradas durante o projeto da oficina. Voltando à nossa sociedade, houve um tempo que a estratégia da guerra era a política vigente e acredito que por motivos bastante análogos aos observados na Oficina de Carrinhos de Rolimã.

Hoje ainda existe guerra, mas não é mais a política generalizada. Qual(is) é(são) então nossa(s) política(s) de Dissipação Energética vigente(s)? Acredito que o consumismo seja uma resposta bastante promissora. Nós compramos, descartamos, reciclamos, comparamos... enfim. Talvez seja difícil se afastar o suficiente para enxergar friamente o quadro em que estamos inseridos. De qualquer forma, o que podemos fazer? Talvez um bom passo seria se identificar como ator nesta cena. Quem somos nós? A criança lixando o aço, ou o oficineiro inexperiente?

 

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