Solidariedade ou Tolerância - por Cláudia Santos Duarte

Solidariedade ou Tolerância - por Cláudia Santos Duarte

Buscar palavras no dicionário e refletir sobre os significados contidos em cada uma delas é uma tarefa, no mínimo, interessante, pois pensando sobre o que as palavras querem dizer, podemos relacionar esses conceitos com nossas práticas.

No Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, a palavra tolerar, por exemplo, refere-se, entre outras significações ao ato de aceitar, admitir ou conviver (com algo ou alguém) indulgentemente. Outra das acepções indica que tolerar é ter certa capacidade ou resistência para suportar. Voltando algumas páginas, ao encontrar a palavra solidariedade destacamos uma conceituação que se refere a um laço ou vínculo recíproco de pessoas ou coisas independentes. E, ainda, apoio à causa, princípio, etc., de outrem. Essas duas palavras, associadas a nossa realidade cotidiana suscitam algumas indagações:



Conseguimos distinguir as diferenças entre os momentos em que somos tolerantes ou somos solidários?

Quantas vezes a tolerância, disfarçada de solidariedade, impediu de nos aproximarmos mais de pessoas diferentes de nós?

Quando somos realmente solidários?

Essas e tantas outras reflexões são pertinentes a esse momento histórico em que a cada instante somos bombardeados por novas práticas sociais, formas distintas de cultura e atitudes diferentes daquilo a que somos acostumados. A rapidez com que os meios de comunicação disseminam essa pluralidade e a intensidade com que nos deparamos com o diverso têm colocado a nossa frente outras realidades sobre as quais devemos ou não reagir. O curioso é que, mesmo que já estejamos completamente submersos nessa nova realidade mundial, mesmo que diariamente estejamos frente a frente com a alteridade, ainda somos surpreendidos com o preconceito, com as práticas de violência gratuita contra quem é diferente e a constante linha tênue que separa a tolerância da intolerância.

Nesse sentido, é importante pensar no quanto é saudável para a humanidade ultrapassar a barreira da simples tolerância para alcançarmos a solidariedade. Segundo Zygmunt Bauman (1999), a tolerância é egocêntrica e contemplativa.

Ao contrário, a solidariedade é socialmente orientada e militante. Assim, ao buscarmos ser mais solidários, seria possível transpor os obstáculos que insistem em nos fazer buscar soluções individuais para problemas coletivos. E dessa forma, o desdém implícito na tolerância poderia transformar-se em envolvimento e disposição para lutar em prol da diferença do outro.

Tratar sobre esse tema abre outras tantas possibilidades, pois em um mundo carente até de tolerância, pensar em reais atos de solidariedade parece, muitas vezes, utópico.

Vivendo em sociedade é possível fazer bem mais do que simplesmente tolerar...
É possível (e necessário) combater a intolerância, envolver-se e participar com os outros contra todo tipo de discriminação ou não aceitação da diferença. E, assim, contribuir para que os atos desprezíveis que nos chocam diariamente sejam pouco a pouco abandonados. Isso é mais do que viver junto, isso é conviver!

REFERÊNCIA:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1999.

Cláudia Santos Duarte
Professora de História nas redes pública e particular
de São Francisco de Paula
Mestranda em Processos e Manifestações Culturais

 • Publicado na Revista Usina da cultura - número 08 - Dezembro de 2013.

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