Inquietações e questionamentos sobre um dos marcos culturais do Brasil: o futebol - por Rodrigo Koch

Inquietações e questionamentos sobre um dos marcos culturais do Brasil: o futebol - por Rodrigo Koch

Sempre me perguntei porque o futebol ocupa tanto espaço na mídia. Será que não há outra ou outras modalidades esportivas que possam atrair o interesse dos brasileiros? Tenho a sensação de que já há muito espaço para o futebol no universo nacional. Seria interessante uma pluralidade maior na esfera esportiva brasileira, pelo menos no que diz respeito à educação.

Especialmente nas escolas, em espaços e momentos de práticas corporais, observo que o futebol exerce uma condição hegemônica sobre as demais modalidades esportivas. Mesmo que a proposta não seja a prática do futebol em si, os aspectos culturais que envolvem o esporte acabam conduzindo para isso, como por exemplo quando se vai dividir as equipes – sejam estas para outras modalidades como vôlei, handebol, basquete, ou mesmo para um simples “cabo-de-guerra” – é natural que os alunos fiquem separados entre gremistas e colorados, em função dos nossos clubes locais. Em São Paulo, a divisão pode colocar de um lado corintianos e do outro palmeirenses e/ou são-paulinos, assim como no Rio de Janeiro os estudantes podem ser divididos entre flamenguistas e vascaínos, tricolores e botafoguenses. Cada capital, cidade, região ou Estado nacional vai adquirir os contornos clubísticos do futebol local. Portanto, observo uma certa futebolização da cultura, expressando- se nos espaços cotidianos da vida. Talvez a forte presença do futebol no Brasil seja pela simplicidade pela qual foi caracterizada a modalidade por aqui.

O modelo norte-americano das high schools e universidades me parece ser o ideal. Nos Estados Unidos, desde a infância e ao longo
da juventude, os estudantes têm contato com uma gama diversificada de esportes, podendo optar pelo que mais lhes agrada e pelo qual melhor se adaptam. Há, inclusive, incentivo para que isso ocorra. Mas deve haver explicação para o Brasil apresentar esse quadro de uma quase monocultura do futebol. Parece existir no Brasil, assim como em outros países uma futebolização cultural.

Segundo relatos, o futebol teria chegado ao Brasil no final do século XIX na mala de jovens estudantes de famílias de origem europeia e das classes sociais mais favorecidas, que retornavam do velho continente, onde passavam pelas public schools. A ideia era de que o esporte fosse legitimado por aqui como uma prática do que se chamava a ‘elite brasileira’. No entanto, logo teria sido tomado pelos operários, negros recém libertados do regime de escravidão e pelos pobres, que adotaram a modalidade não só como meio de lazer, mas principalmente como trampolim para ascender socialmente. As marcas do futebol, construídas nos mais variados espaços de atuação e com enorme colaboração da mídia, que transforma o esporte em espetáculo, inscrevem-se nas gerações e perduram a vida toda. As relações entre torcedores e clubes transcendem o que se considera aceitável e normatizado. É possível mudar de opinião política, trocar de religião, ou romper o matrimônio quantas vezes for necessário, mas jamais trair seu time de futebol.

Nas últimas décadas a modalidade passou por grandes transformações econômicas e invadiu lares e demais espaços com a participação da mídia, principalmente, através dos canais de televisão pagos. Os reflexos na escola – ainda tido como o ‘local por excelência da educação’ – são visíveis. O futebol pós-moderno, extremamente midiatizado e espetacularizado, buscando a cada dia novos mercados e clientes, produz novos comportamentos em empresários, dirigentes, atletas, torcedores e aficionados, sejam estes adultos constituídos e estabelecidos economicamente ou recém-nascidos que ainda trilharão seus caminhos identitários
e profissionais. Não há como ir contra e não admitir este processo de futebolização, principalmente, no Brasil, um país com fortes
marcas desta modalidade, até porque estamos diante do maior evento esportivo mundial em território nacional: a Copa do Mundo, que certamente irá gerar novas produtividades deste fenômeno.

• Publicado na Revista Usina da Cultura - número 08 - Dezembro de 2013.

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