Mar ou montanha? Os dois - por Luciana Pontes

Mar ou montanha? Os dois - por Luciana Pontes

Em Lisboa, convivi com cabo verdianos muito legais. Então, quando surgiu a questão “Onde será nossa lua de mel?”, nem pisquei para responder. Meu companheiro fez cara de susto, especialmente tendo em conta a nossa grana curta. Cabo Verde é um país da costa oeste africana formado por 10 ilhas. Sua diversidade se reflete na língua, o crioulo, mistura de idiomas nativos e dos vários colonizadores (é uma rota de marinheiros, pois há uma corrente marítima que proporciona a melhor travessia do Atlântico). Para o nosso itinerário, escolhemos três ilhas: Sal (onde está o aeroporto), São Vicente (berço da música) e Santo Antão (paraíso do trekking). 

A gente não os conhece, mas eles conhecem a gente. Chegando ao aeroporto, fomos trocar dinheiro e o atendente, ao pegar meu passaporte, disse: “Ah, você é de Uberlândia...”. Automaticamente respondi: “É, lá no interior do Brasil, ninguém conhece”. Então, ele responde: “Estudei lá”. Vendo minha cara incrédula, abre a carteira e mostra uma foto. Foi então que eu quase caí: minha irmã estava na foto! Depois fui entendendo melhor: por exemplo, na rádio só toca axé. É que enquanto o Brasil é grande e relativamente influente, eles só tem uma personalidade conhecida: Cesárea Évora, a diva dos pés descalços. 

Sal é uma ilha turística, cujo nome deve-se às salinas, com piscinas onde uma pessoa flutua involuntariamente devido à densidade da água. Em São Vicente, conferimos bares marinheiros à beira do porto e curtimos um festival de música. 

Conseguimos pegar o barco que só os nativos usam para ir a Santo Antão. Éramos os únicos brancos e ali o português não era língua oficial. Assim, perdemos uma oportunidade de conhecê-los melhor, mas era uma lua de mel e a nossa antropologia andava preguiçosa. 

Em Santo Antão, viajamos 5h em caminhonete para chegar a Tarrafal do Monte Trigo. Na carroceria, pudemos falar com um professor, que explicou que o problema ali era a falta de água doce. Justamente, Tarrafal é uma mina de água que brota da montanha, uma mancha verde no meio da aridez. Uma aridez espetacular de praias de areias negras, montanhas escarpa- das, falésias que acabam no mar colorido. Os donos da pousada, marinheiros que haviam dado a volta ao mundo, tinham decidido viver ali porque era o lugar mais lindo que encontraram. Ali também conhecemos uma alemã, tradutora de várias línguas africanas, que nos explicou as diferenças entre Cabo Verde e os países do continente. 

Marcante mesmo foi a caminhada entre Tarrafal e Monte Trigo. A paisagem desértica e a gente andando ali na montanha quase caindo no mar, com aquela beleza ensurdecedora nos cegando. Saímos tarde, resultando na desaconselhável proeza de cruzar um deserto com o sol a pino. Chegando a Monte Trigo, aldeiazinha de pescadores, eu pensava já não poder dar um passo. Porém, quando pediram 60 euros para levar a gente de volta em barco, me restabeleci na hora. Nunca ser avarenta me saiu tão bem: com o cair da tarde, a caminhada de volta foi ainda mais linda. 



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